| A saia justa do presidente
Ana Peluso, 14 de fevereiro, 2004 É muito fácil para um jornalista, pegar um amontoado de frases, combiná-las entre si e sair disparando contra qualquer pessoa cuja imagem precise ser desconstruída. A prova disso é a matéria de hoje na Veja que fala da dialética de Lula. Para qualquer ser pensante (leia-se: que tenha tempo de ler e entenda o que lê), o feitiço vira contra o feiticeiro. Quando os jornais citam as contradições de Lula, se esquecem que tudo o que se mostra como contradição é a mais pura verdade, porquê SIM, "É muito mais fácil acabar com a fome no mundo do que acabar com uma nação ou fazer uma guerra", e ao mesmo tempo, SIM, "Se fosse fácil resolver o problema da fome, não teríamos fome" (citações de Luiz Ignácio). Ou seja, uma afirmação não anula a outra. Por mais que os jornalistas contratados para escrever sobre determinados assuntos se esforcem para provar o contrário, ainda se contradizem como órgão, cada vez que são instruídos sobre o que escrever. Basta imaginar, lembrar, pensar, se esforçar para tal, se for o caso, que tudo isso: fome e guerra acontecem pela vontade de grupos empresariais que representam o verdadeiro poder. Não vou nem dizer "oculto", porquê mesmo aquilo que não é visto, pode ser imaginado e qualificado. E ainda (já) pressentido. Quando Lula dá seus recados sobre autonomia (as hortas domésticas): "Deus pôs os pés aqui e falou: 'Aqui vai ter tudo. Agora, é só homens e mulheres terem juízo que as coisas vão dar certo'.", fica nítido que ele sabe exatamente que se os brasileiros não criarem essa autonomia, estarão eternamente nas mãos "deles". E "quem são eles?" já não é pergunta que se faça na altura do campeonato. Mas Lula os conhece e sabe que está no poder "por autorização". Se fosse outro tipo de pessoa, calaria a boca. Mas ele realmente carrega dentro de si algo decente, e entre sorrisos, simpatias de primeira grandeza, ironias finas e todos os requisitos necessários que fizeram dele, o governante da vez, ele continua dando o recado. Entenda quem conseguir entender. E penso que existem aqueles que entendem exatamente o que ele diz e, parece, não estão gostando nem um pouquinho disso tudo. Se torna muito mais fácil provar que essas "contradições" possam indicar uma pessoa com falsos interesses, do que dizer ao povo que elas - as contradições - são tão necessárias, quando trazer à tona a engrenagem toda poderia resultar num estrago de proporções inimagináveis. O Lula tá dando conta do recado, sim. Resta saber se ele poderá dar o recado completo. Se o mundo ainda acredita na farsa de 11 de setembro; se aqueles corpos embaixo do WTC continuam lá incontáveis, porém não inumeráveis; se uma troca de escritório gerencial dos interesses maiores daqueles que estão por trás disso tudo se movimenta paulatinamente em direção ao sul, e se isso de Lula dar recados sutis a um povo que não entende nem diretas - quanto mais indiretas - afeta organismos a ponto de falarem bem dele num dia, para logo em seguida apontarem suas metralhadoras de palavras em sua direção, pode-se chegar à conclusão óbvia de que o discurso de Lula continua não agradando à algumas elites. A pergunta que teima é a seguinte: até quando a farsa continuará? Até que ponto existirá essa política suja de colocar um representante no poder, quando sabemos que quem realmente governa e decide os rumos da sociedade não está nem um pouco preocupado com os efeitos colaterais que esse poder gera e acaba recaindo sempre sobre a mesma sociedade? Lula está de saia justa. É nítido. Só não vê quem não quer. Ele ainda consegue dar passos mais ou menos confortáveis, talvez por confiar que a decência de um ser humano suplante a indecência de outro, e também "porquê tudo tem seu tempo". Mas o perigo da saia ficar justa demais pode colocar tudo a perder. Teríamos um impeachment e seu vice assumiria o poder? Ou norte-americanos viriam ao Brasil em missão de reconstrução democrática? (Depois do Iraque, minha imaginação nem precisa ser tão fértil). Teríamos uma saraivadas de gestos obscenos e baldes de água na cara cada vez que chorássemos? Eu, tola que sou, ainda me
preocupo exatamente com a visão nada universal que norteia o povo
norte-americano. E sinto muito pelo sistema de saúde deles ter ido
à bancarrota. Fato, aliás, digno de nota: que coincidência,
não?
Quem viver não verá o Brasil que nós sonhamos. A menos que Lula deixe a fome de lado e se atenha à educação (elucidação aplicada). Até porquê ele não vai acabar com a fome mesmo, enquanto houver um só cidadão nesse país (ou mesmo no mundo) que não compreenda que o governo nunca foi responsável por essas coisas mais do que é pela representação oficial delas. "Se ainda dá tempo de reajustar a saia" nem é cogitação que se possa fazer. Nunca houve tempo. Nunca haverá, porquê aquilo que os jornalistas chamam de "as contradições de Lula" é, na verdade, a primeira mostra de que um presidente eleito com o apoio do sistema, mas que não concorda com ele, tenta em vão dar recados a um povo que não entende recados mais do que entende uma matéria fundamentalista da mídia. E a base do fundamento que eles representam é simples: diga o que eu quero, não faça nunca o que eu não quero. Já imaginou cada pessoa tendo um horta em funcionamento? O que seria dos produtores/políticos/cúmplices do sistema? E olha que desbancar essa trupe está longe demais, mas se alguém começa, pode funcionar... O mundo que o Lula sonha é o mesmo que eu sonho e que muitos outros sonham. Aquele da liberdade verdadeira. E não da oportunidade/oferta/procura impostas. Continuamos tutelados por um sistema que "arrecada e oferece e arrecada novamente", e se pararmos para entender a equação, vamos perceber que não existe como o capital se movimentar sem o efeito bumerangue de sempre, a não ser que nós decidamos que SIM, é possível um dia isso acontecer. Enquanto isso Lula dá
seus recados, ditos contraditórios, porquê é tudo o
que ele pode fazer, além de ter de conviver com a certeza de que
é uma luta muito árdua essa de tentar derrubar um sistema
que já dá sinais de queda e por isso mesmo esperneia à
céu aberto.
Ana Peluso, officinadopensamento.com.br
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