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Da
Solidão, por Renato Kress
“A solidão aguda... é a forma mais dolorosa de ansiedade que pode atacar a psique humana” – Erich Fromm Ontem e hoje – alguns telefonemas sem resposta, mensagens sem retorno e desculpas mais cortantes que falsas – desconfiou que a solidão, em alguma época da vida, pode se elevar a pânico, paralisia do comportamento. Era só defesa. De pânico, não orientava tempo nem espaço, reflexos torpes, pensanubla e a lágrima latente. Talvez solidão venha de sólido, um bloco, monólogo. Impressionante em como as mãos ficam leves quando o peito pesa. O corpo é um saco de cálcio, carbono e vácuo. Depois de aprender a usar a máquina de lavar – atitude que lutava para procurar metaforizar, encobrir o que só preenchia tempo -, não contente com o sol que também lhe fugira, quis passar a roupa, secar aquelas gotas que insistiam, do sol que não vinha. Se sentia ridículo, útil. Pensava na angústia. Essa falta enclausurante de quê? A fantasmagoria era que a respiração se ejaculava do peito cada vez que tocava o telefone, ou passos no corredor. Fora isso a solidão era a punheta cármica. Ele que reprimia a solidão negando a afeição. Sempre. Era a defesa. Não ligaria mais para ela - talvez conseguisse por um ou dois dias - sem recados no celular - como se ela sequer tivesse ouvido algum. Talvez o que fira mais seja a completa ausência de respostas, sequer um pé-na-bunda bem dado, um fora, dedo no olho, um “foda-se” silábico e sonoro. Nada. É dessa solidão que ele morria. Da solidão dos crentes. Eles sabem, por mais que rezem, por mil penitências. Sequer ouvirão um pigarro de Deus. Não sei se morreu. Que importa? Com certeza Ele já não se importa mais. Mas ele, só, se importa. Ainda não perdeu o veio, o pulso, a carne que se estira madrugada adentro atrás dos olhos, do beijo, presença que não foi. “Deus criou o homem e, não o achando bastante só, deu-lhe uma companheira para o fazer sentir melhor sua solidão” – Paul Válery E se cada beijo importante naquela vida tivesse durado mais dez segundos, onde ele estaria agora? E tentava pensar em outras coisas, se ocupar. Fosse qual fosse a saída: amigos, dança, álcool, outras mulheres, extratos descartáveis de noite, a obsessão continuava pairando, encosto, à espera dele, alvo eterno, liga podre do tecido social. Aquele que relativiza a felicidade comum, e se amaldiçoa: infeliz. Quando tenta trabalhar, experimenta escrever, ouve a risada mefistofélica, ou o corvo de Poe: nunca mais! Cedo ou tarde ele teria de parar, cansado, precisaria desfalecer sobre o teclado, então viria a espada. Mesmo no cinema, a cada intervalo entre quadros, percebia a agulha, fervente, na íris, lhe esperava na rua. Não encontra fonte de energia, nem oásis. Onde chega nem psicólogo, vidente, cartomante ou xamã. Se cada beijo importante durasse mais dez segundos? Onde chegasse, o texto cala. “Tudo é só,
a montanha é só, o mar é só.
Renato Kress, 2004-01-05
Atitude
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