Pensamintos de Kress
Janeiro de 2004

     Da canalhice, ou acerca dos desejos.
Quando nossos olhos estão abertos, percebemos que na sexualidade o objeto não é a mulher literalmente, mas a mulher simbólica. O que queremos é sempre outra coisa. Nada é mais transcendente do que o objeto.

     Do empirismo tresloucado, ou acerca da juventude tardia.
É preciso a sorte do jogo verbal para nos conscientizarmos de nós mesmos correndo à frente. Isso é também uma ironia. “Vivemos à frente, entendemos para trás”, disse Kierkegaard.

    Do “ops!”, ou acerca da responsabilidade.
Tenho pensado que os seres humanos nascem com uns quatorze anos de antecedência. Nenhum outro animal fica tanto tempo na dependência dos pais. De repente, a certa altura da vida, variando conforme a cultura, entre os 12 e 21 anos de idade, espera-se que a criança se torne adulta e todo o seu sistema psicológico, sintonizado e treinado para a dependência, é forçado a responder com responsabilidade aos desafios da vida. Os estímulos não visam mais a produzir pedidos de ajuda ou submissão à disciplina paterna ou materna, mas uma ação responsável adequada ao papel social de cada um. Em sociedades primitivas, das mais diversas e nos recônditos mais inexplorados e inacessíveis, os ritos (a nosso ver ‘cruéis’, ‘loucos’, ‘divertidos’, ‘úteis’ ou ‘inúteis’) de puberdade tinham a função de efetivar e confirmar essa transformação. Hoje, olhando nosso mundo pós-moderno, privado dessas iniciações e cada vez mais intimidado pelos jovens – que são educados para serem intransigentes -, pode-se identificar um neurótico simplesmente como um adulto que falhou na travessia do portal da responsabilidade: alguém que responde logo de início a qualquer situação de desafio com “O que papai vai dizer? Onde está mamãe?”, e só depois percebe que “...puxa vida! Eu sou o papai, já tenho 40 anos! A mamãe agora é minha mulher! E sou eu que vou dirigir minha vida e arcar com os ônus!” E a sociedade celerada nem sempre têm o tempo, nem sua velocidade lhe permite que tenha o interesse, suficiente para realocar o indivíduo relutante em assumir os papéis exigidos. 

     De Aquino, ou acerca de São Tomás.
Ta lá no Summa Theologica: Integritas, consonantia e claritas. [Para mostrar que, em se falando de arte, nada nunca fez lá muito sentido mesmo.]

1. Integritas (inteireza): Tomemos, por exemplo, um conglomerado qualquer de objetos. Imagine uma moldura ao redor de alguns desses objetos. A área dentro dessa moldura deve ser vista não como uma conglomerado de coisas disparatadas, mas como uma coisa só: integritas. Se os objetos estão sobre uma mesa mas parte dela é cortada pela moldura, essa parte da mesa é uma “outra”, e a parte dentro da moldura torna-se um componente da “coisa una” da qual todos os outros objetos inclusos fazem parte.

2. Consonantia (harmonia): Uma vez estabelecida a “coisa una” autocontida, a atenção do artista se volta para o ritmo, o relacionamento, a harmonia: a relação de cada parte com cada parte, por exemplo, se o detalhe x está exatamente aqui ou uns milímetros à esquerda ou direita.

3. Claritas (radiância): Quando se consegue o milagre que Joyce chama de “ritmo da beleza”, o objeto assim composto se torna fascinante em si. Prende, imobiliza, absorve e todo o resto desaparece. Na interpretação de Stephen Dédalus a respeito desse “encantamento do coração”: “vemos que ele é a coisa que é [entendeu? nem eu!], e nenhuma outra. [ah, agora sim!]” 


     Da ‘vox’ da Experiência, ou acerca do disco de vinil.
As imagens às vezes precisam de um descanso dos significados. Podemos, por assim dizer, “lavá-las” desses significados para serem reexperimentadas (e não reinterpretadas), como arte.

     Do pescador, ou acerca da roupa íntima em esportes radicais.
O que para a alma jovem são redes “lançadas que a impedem de voar”, para quem acabou de encontrar seu próprio centro são o traje livremente escolhido para a próxima aventura.
 


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