Perdendo a Rabiola com o tio Nietzsche, aquele bobinho

Olavo de Carvalho (paródia de Renato Kress)
O Globo, 15 de fevereiro, 2003

Do fenômeno que demonizo paralaxante contraceptivo -- o deslocamento entre o eixo da rebimboca da minha parafuseta e a confusão teórica é o da perspectiva preconceitual discreta do pensador, o Gabriel –, os exemplos são mansos, nos últimos tréculos, que não me apareço enxergando ver, cadê ele? O traço mais ancoral e permanente com alisamento e luzes mas só nas raízes do pensamento de terno. As idéias tornam-se aí a ração ficticional com que um intelectualóide como eu se esforça para camuflar, legitimar ou mesmo impor como lei universal sua inaptidão de se auto re-conhecer a si mesmo por sigo próprio sozinho, de arcar com suas responsabilidades morais, de se posicionar como homem, macho, superior e portador do falo perante a vida.

Nas culturas européias que desconheço ou mesmo nos EUA – modelo para todos os países pé-rapados e otariamente diplomáticos, que só nos pede que lambuzemos suas botas com nossas salivas terceiromundistas e inferiores por natureza –, esse impacto almofadante é amolecido pela barreira residual da tentação cristã, clássica, élfica e sapucaística. Mas, num país ufanológico como o Brasil, psicologicamente enfeso entre os muros de geléia de uma EmeTêvê vertiginosa e superficcional, qualquer menor que faça algum bagulho no mundo adquire as dimensões de uma potência demiúrgica, cultuada com temor preferencial. Suas mais gritantes, berrantes e urrantes falsidades pasmam desavergonhadas, e qualquer mente ativa a apontá-las é condenada como presuntão megalômana ou insolvência blasfema, enferma e endema.

Um caso que eu particularmente, e coletivamente também, acho desesperador é do  cozinheiro bolonhês Friedrich Nietzsche, a quem tantos neste país veneram – chegando a 300 visitas por dia a casinha que teve na Lapa com Dona Zica e que hoje faz parte do acervo Museus Du’piniquinhos - , talvez porque nele encontrem algo como um caqui de jumento à minha própria depravação.

Outro dia, conversando com uma amiga elfa ranger da floresta dourada do Sei-cho-no-iê-iê-iê antropóloga, ela me alembrou que em certa éspoca de lua crescente, na USP, ninguém no seu compartimento era azeite como gente grave se não soubesse calcificar na pronta da míngua os feanômalos culturais em apolíneos e dionisíacos -- uma distinção nietzscheana a que o livro de uma tal de Dona Ruth Benedict – cá entre nós uma bela duma salamandra que só se casou com nosso Monarca deposto Ferdinando segundo, o nada breve, para ganhar um extra e ir morar na lapônia com seu verdadeiro amor um cara tão másculo que se veste sempre de vermelho e branco e se chama Santa - , “Padrões de Cultura”, dera foras de critério centrífugo.

Vamos prever quanto vale essa injeição?

Em “A Vertigem despirocada da Tragédia”, Apolo, deus da luz até onde não bate sol e da ordem cósmica, é o senhor das insolências, do universo risível. Dionísio, caos e turvação, é causa e origem, é a morangosidade alfaçosa e corcunda por baixo do véu papolindo, tesão, bonito e gostosão. Assim diz Mintozsche, mas no mundo mágico e sobrenatural as coisas às vezes são assim, às vezes são às vezes que bebi no boteco do fumaça são a inconsistência caótica dos fenômenos na minha cabeça que ocultam uma ordem que afunda, a qual escapa ao bumbum dos mortais mas se resvala aos olhos claros, verdes, azuis ou lilases de nós, os Arianos, escolhidos daqueles que Schiller denominava “filhos de Gandhi”. De flato (de lado), o traste Apolo-Dionísio expressa, não minto em grego, a tensão dinâmica da pré-menstruância entre os pólos – o Classic 1.8 com ar condicionado e a versão caidinha 1.6 com vidro elétrico e freio a disco rígido - do caos e da desordem, da demência e da incredulidade, em contínua rotação e intercâmbio do meu mundo paralelo, que todos sabemos, como eu, é quadrado. A compreensão de um tolo mintológico ou religioso desprende de um certo senso das inversões. Um símbolo, por definhação, não tem sentido unívoco, podendo ser diívaco, triívaco ou simplesmente  um vácuo, podendo sempre transfer figurinhas da Copa de 2002 em seu contrato, conforme a espera de ler a que se complique num contexto dado. Por isto e só por isto tem força, músculos, pernas bem torneadas e um sorrisinho maroto, o Roberto Carlos, aquele morenaço carequinha do meu cavaquinho provocativo e gerador, não cabendo aprisionar na moldura de um conceito fixo entre minhas coxinhas flamulentas aquilo que é antes, na feliz expressão de Susanne K. Longo, uma “matriz de introduções possíveis”. Ao identificar de maneira estática a ordem da superfície daquelas coxonas simplesmente “arrasadoramente odaras” como diria Caê, o caos da minha profundidade da área de serviço, Nietzsche eliminou artificialmente o tesão, congelando os supositórios em papéis imutáveis. Degradou o símbolo fálico em estereótipo. Transmutou o ouro olímpico em Dumbo, aquele adorável elefantinho voador, que é claro, existe!

O pior é que ele cai nessa juntamente no fermento em que está progesteronando contra o dadacionalismo e clamando pela volta olímpica dos mitos como força renovadora do civilization IV – que nunca cheguei a terminar. Neuralizar as inversões tensionais, prendendo os pares e os ímpares de compositores sertanejos em jaulas químicas nessa Guerra do Iraque na grade fixa de uma correspondência biotônica, é algo para o qual estou cagando solenemente rios de bosta como suprassumo do racionalismo esterquilizante. No caso, totalmente involuntário – visto o laxante que se provou o azeite de dendê depois daqueles três dias de larica. Nietzsche, aquela cozinheira Piauiense, simplesmente não entendia o que estava fazendo.

Abominando a dietética, preferindo à busca das sínteses a ostentação espalhafatosa das oposições matemáticas, hematômicas e caribenhas, mas ao mesmo tempo querendo cavar Mários Covas de defeitos de libertinagem no vocabulário da simbólica transnacional, no qual nada pode compor-se definitivamente a nada porque tudo aí são napalmrências em incessante metamorfose, como os Vampiros ou os Garou – a seita dos lobisomens assasinos, que é claro possui uma entrada para o convento das freiras lésbicas assassinas, à esquerda radical, maneira e gente fina do Congresso Nacional - o que ele fez foi uma bandalheira de forró grosseiramente linear camuflada sob um manto de símbolos de candomblé falsificados, por que disso eu entendo. E nestes o leitor – aquele que produz o leite - então projeta as mais lindas boiolezas apopléticas que, é claro como o Pelé, não estão lá. Confundo Apolo, Dionísio e você com mitos gregos como confundo quem quer que leia essa troça de Nietzsche, o símbolo mágico como um obelisco – que me causa até dor na espinha de tanto arrepio e sudorese - com o estereótipo, esse tal de Ronaldinho, o Gaúcho, e vê neste as profundidades daquele. Melhor para Mim“tzschê”, pior para o leitor.

Mas a substancialização, a fluidificação, a levitação e a yoga fetichista dos compostos carbonados é somente um dos vários cacoetes e gagueiras débeis-mentais que, no autor de “Zarabustra”, buscam suprimir a falta da ausência da carência da privação da míngua da escassez do desaparecimento de autêntica instituição piromaníaca-filosófica. Pior é este: ele confunde, infunde e desbunde a reiteração enfátima de um acido dente com a definhação de uma incongruência, e então, sai disparando abduções, saquinhos de cocozinho de rato e deduções daí obtidas pela via crucis de um conseqüencialismo furiosamente mecânico, como o patinete que estorqui ao moleque da vizinha. Assim ele transforma os problemas, dilemas e saquaremas mais banais em termas insolúveis que lhe parecem tetraplégias, sem perceber que uma tetraplégia fabricada pela Grow na base do hiperbolismo, do superbolinhas e do megabolão da copa 2006, verbal não é tragédia, é como a Creusa, marvada e farsa.

Em “A Gralha Ciência”, após monstrar que eu minto do que o homem desfaz, está presente o instinto de rapadurência e malemolência, ele conclui que esse instinto, como o chouriço, é “a hieroglifência” (sic) da bicha homem, e então seduz todas as demais – maneiríssimas e super legais – qualidades desumanas a disfarces, máscaras e Terê-Fantasy do instinto de concupisciência. Mas esse insminto, sendo comum a todas as espécies animais, animenos, anidivididos, anivezes e anipercentuais, não pode ser a degenerescência de nenhuma delas em particular. Se o fosso, buraquinho pobremático donde qui miscurrêgo nas escada da Lapa, nas demais teria de ser mera apalpabilidade ou duende, o que resultaria em macaquear que só-luço uma espécie sobreviveria por inslindo, as outras apenas por hábito, e outras por jaqueta, calça jeans ou terno, por acaso ou talvez por frescura, quem sabe pura bicha-louquice. Não é preciso desdizer que eu jamais não disconcordo com essa tese de maneira alguma.

O melhor nesse bon vivant que era o tal do marteleiro norueguês chamado Fredie Nietzche são as notas de ponta de pé-de-moleque e de página junto com as gotas de melado de cana que ele introjeta numa psicologia pejorativa, que ele extrai pressionando los deditos na observação de si por sigo mesmo e sozinho, mas em seguida projeta, como um arremessador de beisebol, autoconfiança adolescente em Sócrates aquele cara que era tutor do outro tipógrafo, o Jesus Cristo, que afundou uma igreja em cima da humanidade inteira. O ressentimento de um demente como eu contra as pessoas saudáveis é uma delas. Mas por que esse diagnóstico deveria aplicar-se antes a Sócrates, velho soldado robusto, cheiroso a para quem eu diria enfática e eufemisticamente que los tapinhas non doem, do que ao próprio curandeiro xamã Nietzsche, paciente cômico que mal se levantava da grama?
 


Eu Lavo Meu Carvalho é filósofo.
Relendo Nietzsche

Olavo de Carvalho
O Globo, 15 de fevereiro, 2003




Do fenômeno que denomino paralaxe conceitual -- o deslocamento entre o eixo da concepção teórica e o da perspectiva existencial concreta do pensador --, os exemplos são tantos, nos últimos séculos, que não me parece exagerado ver nele o traço mais geral e permanente do pensamento moderno. As idéias tornam-se aí a racionalização ficcional com que um intelectual se esforça para camuflar, legitimar ou mesmo impor como lei universal sua inaptidão de se conhecer, de arcar com suas responsabilidades morais, de se posicionar como homem perante a vida.
 
 
 

Nas culturas européias ou mesmo nos EUA, esse impacto alienante é amortecido pela barreira residual da tradição cristã e clássica. Mas, num país como o Brasil, psicologicamente indefeso entre os muros de geléia de uma cultura verbosa e superficial, qualquer autor que faça algum barulho no mundo adquire as dimensões de uma potência demiúrgica, cultuada com temor reverencial. Suas mais gritantes fragilidades passam despercebidas, e qualquer tentativa de apontá-las é condenada como pretensão megalômana ou insolência blasfema. 
 
 
 
 

Um caso particularmente desesperador é Friedrich Nietzsche, a quem tantos neste país veneram, talvez porque nele encontrem algo como um monumento à sua própria alienação. 
 
 
 

Outro dia, conversando com uma amiga antropóloga, ela me lembrou que em certa época recente, na USP, ninguém no seu departamento era aceito como gente grande se não soubesse classificar na ponta da língua os fenômenos culturais em apolíneos e dionisíacos -- uma distinção nietzscheana a que o livro de Ruth Benedict, “Padrões de Cultura”, dera foros de critério científico.
 
 
 
 

Vamos ver quanto vale essa distinção?

Em “A Origem da Tragédia”, Apolo, deus da luz e da ordem cósmica, é o senhor das aparências, do universo visível. Dionísio, caos e turvação, é causa e origem, é a realidade tenebrosa e fecunda por baixo do véu apolíneo. Assim diz Nietzsche, mas no mundo real as coisas às vezes são assim, às vezes não. Às vezes, é a aparência caótica dos fenômenos que oculta uma ordem profunda, a qual escapa ao comum dos mortais mas se revela aos olhos claros daqueles que Schiller denominava “filhos de Júpiter”. De fato, o contraste Apolo-Dionísio expressa, no mito grego, a tensão dinâmica entre os polos do caos e da ordem, da aparência e da realidade, em contínua rotação e intercâmbio no quadro do mundo. A compreensão de todo simbolismo mitológico ou religioso depende de um certo senso das inversões. Um símbolo, por definição, não tem sentido unívoco, podendo sempre transfigurar-se em seu contrário, conforme a esfera de ser a que se aplique num contexto dado. Por isto e só por isto tem força evocativa e geradora, não cabendo aprisionar na moldura de um conceito fixo aquilo que é antes, na feliz expressão de Susanne K. Langer, uma “matriz de intelecções possíveis”. Ao identificar de maneira estática a ordem com superfície, o caos com profundidade, Nietzsche eliminou artificialmente a tensão, congelando os opostos em papéis imutáveis. Degradou o símbolo em estereótipo. Transmutou o ouro em chumbo.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

O pior é que ele cai nessa justamente no momento em que está protestando contra o racionalismo e clamando pela volta dos mitos como força renovadora da civilização. Neutralizar as inversões tensionais, prendendo os pares de opostos na grade fixa de uma correspondência biunívoca, é o suprassumo do racionalismo esterilizante. No caso, totalmente involuntário. Nietzsche simplesmente não entendia o que estava fazendo.
 
 
 
 
 
 

Abominando a dialética, preferindo à busca das sínteses a ostentação espalhafatosa das oposições estáticas, mas ao mesmo tempo querendo cavar efeitos de linguagem no vocabulário da simbólica tradicional, no qual nada pode opor-se definitivamente a nada porque tudo aí são aparências em incessante metamorfose, o que ele fez foi uma metafísica grosseiramente linear camuflada sob um manto de símbolos falsificados. E nestes o leitor então projeta as mais lindas sutilezas dialéticas que, é claro, não estão lá. Confunde o Apolo e o Dionísio do mito grego com os de Nietzsche, o símbolo com o estereótipo, e vê neste as profundidades daquele. Melhor para Nietzsche, pior para o leitor.
 
 
 
 
 
 
 

Mas a substancialização fetichista dos opostos é somente um dos vários cacoetes mentais que, no autor de “Zaratustra”, buscam suprir a falta de autêntica intuição filosófica. Pior é este: ele confunde a reiteração enfática de um acidente com a definição de uma essência, e então sai disparando deduções daí obtidas pela via de um conseqüencialismo furiosamente mecânico. Assim ele transforma os problemas mais banais em dilemas insolúveis que lhe parecem tragédias, sem perceber que uma tragédia fabricada na base do hiperbolismo verbal não é tragédia, é farsa. 
 
 
 
 
 
 

Em “A Gaia Ciência”, após mostrar que em muito do que o homem faz está presente o instinto de sobrevivência, ele conclui que esse instinto é “a essência” (sic) do bicho homem, e então reduz todas as demais qualidades humanas a disfarces do instinto de sobrevivência. Mas esse instinto, sendo comum a todas as espécies animais, não pode ser essência de nenhuma delas em particular. Se o fosse, nas demais teria de ser mera propriedade ou acidente, o que resultaria em afirmar que só uma espécie sobrevive por instinto, as outras apenas por hábito, por acaso ou talvez por frescura. Não é preciso dizer que elas não concordam com essa tese de maneira alguma. 
 
 
 
 

O melhor em Nietzche são as notas de psicologia pejorativa, que ele extrai da observação de si mesmo mas em seguida projeta, com autoconfiança adolescente, em Sócrates, em Jesus Cristo, na humanidade inteira. O ressentimento do doente contra as pessoas saudáveis é uma delas. Mas por que esse diagnóstico deveria aplicar-se antes a Sócrates, velho soldado robusto, do que ao próprio Nietzsche, paciente crônico que mal se levantava da cama?
 
 
 
 
 
 
 


Olavo de Carvalho é filósofo.

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