Fuga de Creta
Renato Kress, 2003-12-29

“é aqui [na mente] que devo matar o Padre e o Rei” – Ulisses, James Joyce.

E se a vida fosse um espaço de possibilidades podadas? Eu poderia ter estado entre os vencedores de alguma disputa da qual já não me lembro. Poderia ter usado melhor alguns dons, amado melhor algumas pessoas. Ter vivido como noivo fiel, melhor homem. Estar amando...  ou ter comprado aquela camisa, ontem. Falado com ela, por alguns minutos. Estar exposto, colocar meu desejo nu, ou mesmo só não tirar o interesse do sol e regar, deixar florescer desejo. Quando estive em tantos rótulos, por que me retirei de assumir algum? Quando penso no tempo que encruzilha minha vida vejo que há um espaço como um mosaico de memórias que vão ficando, no meu espaço. Porque o que vivi, o que deixei para ser, que eu pudesse ser, essas tantas vidas e possibilidades podadas - mãos, amarguras, carinhos, dores, beijos, angústias, risadas, vergonhas, dúvidas - são o espaço que deixei para estar profundo, lá. Mas e ser? Sei, não soube ter estado livre para ela, que ainda não sei se há. Mas acho que pude ser livre, mesmo não estando. Por que acho que minhas faltas, sumiços, ausências e renúncias dizem mais que meus atos? Talvez fossem mais e maiores do que eles. Ou porventura ainda perfure na veia a sensação de que a profundidade dos feitos não recompense a quantidade das ausências. Será mesmo que tenha renunciado à felicidade tantas vezes quanto pensei? Ou ela poderá, sempre, ser felicidade, que não foi vivida e está pronta para ser imaginada, idealizada? Ou me apoio nisso quando cubro a íris sobre o travesseiro? Sinceramente, não sei. E talvez essa ignorância me fascine e eu ainda ame ter um pouco de medo do passado, ou dúvidas do futuro. Nas palavras do herói de Joyce: “quando a alma de um homem nasce neste país, lançam sobre ela redes que a impedem de voar”. Você me fala de nacionalidade, língua, religião. Tentarei voar por dentro dessas redes. Quem sabe o que para a alma jovem pareçam redes lançadas por outros e “que nos impedem de voar”, para quem encontre seu centro (dinâmico) possam ser o traje livremente escolhido para o próximo intervalo? Hoje no metrô – não sei porquê, não havia crianças por perto – pensei em como minha filha ouviria o som da minha voz, o que significaria. Será que eu suportaria ter estado tão íntimo de mim por tanto tempo quanto fosse preciso para dar a ela o significado (de mim) que nunca vou achar? Por que me fascino tanto com a infância, o que busco resgatar pensando hoje numa filha? O que buscamos resgatar? Por onde eu pude mergulhar e preferi só ver as ondas? Sei que o homem cria a divisão do tempo, o ano novo, as horas, datas importantes – tudo é arbitrário, como as 54 semanas de 2004 e o que será delas. Mas não será também um pouco necessário? As pausas da vida têm sido menos constantes a cada intervalo louco (tem sempre um pouco de loucura no arbítrio – até que seja arbitrado, que seja regra, é fora dela, é contra a norma, anormal, louco), que sejam ao menos profundas. Entre estar e ser, podemos seguir, passo a passo, o vôo de um artista altamente consciente, instruído e soberbamente competente, saindo de Creta, do imaginário naturalista de sua terra natal acidental para o próprio continente.

Se a vida fosse um espaço de possibilidades podadas? Eu tentaria fazer um bonsai.

Feliz ano novo.

Renato Kress, 2003-12-29


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