Cultura negra na escola
Carla Bittencourt, 12 de
fevereiro, 2004
Se tudo o que sua escola
lhe ensinou sobre cultura afro-brasileira ou é folclore ou é
clichê, pode cobrar mudança na volta às aulas. Os livrinhos
que não vão além das senzalas e navios negreiros vão
ser trocados por literatura, política, arte e história. Está
tudo garantido pela Lei nº10.639. Ela diz que toda instituição
de ensino fundamental e médio, pública e particular, deve
incluir o assunto no currículo.
Sancionada em janeiro de
2003, a lei ganha força esse ano, quando será colocada em
prática. “Essa é uma lei que chega atrasada, o que mostra
a existência do preconceito na nossa sociedade. Os livros didáticos,
como os que existem até o momento, são um exemplo crucial
disso: omitem a história negra e restringem personagens políticos
apenas à figura de Zumbi”. A avaliação é do
presidente do Centro de Cultura Afro-Oriental (CEAO/BA), Jocélio
dos Santos. Para ele, a lei é base na mudança do imaginário
brasileiro. Na opinião de Marise Ramos, diretora de Ensino Médio
do Ministério da Educação, ela é reflexo de
uma luta histórica do movimento negro: “O jovem terá a chance
de descobrir o que foi negado a gerações como a minha, que
aprenderam uma história eurocêntrica”.
E é justamente aí
que está o desafio: faltam professores e livros. Jocélio:
“Os professores não foram preparados e os livros ainda têm
a visão do colonizador”. Já Marise Ramos aposta que todas
as disciplinas devem tratar do assunto, mesmo matemática ou química.
Segundo ela, o MEC irá promover a formação continuada
dos professores e tem o apoio da Fundação Palmares para lançar
o primeiro livro didático sobre a história dos negros africanos
e seus descendentes no Brasil.
O que pensa quem
ensina
“Já falamos sobre
esse assunto há muito tempo em nossas aulas, não como uma
disciplina, mas como uma componente em diversas disciplinas. Essa lei não
só resgata a nossa cultura, mas faz com que nos conheçamos
melhor”
João Augusto Conrado,
Diretor do Colégio São Paulo
“A
Bahia é um Estado de negros. Mas eu acho que além dessas
discussões sobre movimento negro, cotas e etc, devemos olhar o negro
como um ser humano, igual a todos os outros, de todas as cores. E é
essa igualdade que deve ser ensinada nas escolas”
Eloina Bonfim, Diretora do
Colégio Estadual Luis Vianna
“Claro
que temos que estudar sobre a história dos negros porque isso é
a história de outras pessoas no Brasil. Ano passado eu estudei um
pouco sobre a África nas aulas de geografia, mas nada sobre os negros
daqui”
Fabian Alcântara, 15,
1º ano.
“Nunca
estudei esse assunto na escola. O que sei é porque procurei ler
ou me informar com outras pessoas. Acho que a melhor parte de uma aula
sobre a cultura negra seria falar sobre o mercado de trabalho, porque acontece
muita discriminação. Eu senti falta de uma aula sobre respeito”
Jociene Ferreira, 20, concluiu
o 3º ano e pensa em fazer vestibular para enfermagem ou moda
“O
que a gente aprende sobre cultura negra é muito superficial. A escola
não diz muita coisa. Eu acho que não sei quase nada sobre
isso, o que é uma pena, porque faz parte da nossa origem”
Renata Sonomuga, 16, 3º
ano |
|
Serviço
Uma boa dica para entender
como a cultura negra tem sido ensinada nas escolas brasileiras é
o livro “Desconstruindo a Discriminação do Negro no Livro
Didático”, da pedagoga Ana Célia dos Santos. O livro mostra
como os textos e ilustrações vistas em sala de aula reduziram
o negro a estereótipos e como isso contribuiu com a visão
preconceituosa que a nossa sociedade ostenta. Outros exemplos estão
nas novelas e no “código da boa aparência” exigido pelo mercado
de trabalho. Procure na livraria do CEAO (Terreiro de Jesus) - R$ 15.
Ações
Afirmativas | Educação
Busca
no site | Café
da Manhã | Principal.—.Consciência.Net
Publicidade
.
|