Veja e o caso Felipe
e Liana
Em 19 de novembro de 2003, Veja trouxe uma reportagem sobre o assassinato do casal Felipe Caffé e Liana Friendenbach. “Quanta covardia!” é o título da matéria. E já nessa escolha, apela ao sentimento de revolta, compreensível no leitor, mas de caráter tendencioso do ponto de vista jornalístico.
Uma delas é por que o ECA nunca fui rigorosamente aplicado no que diz respeito aos direitos ali presentes? Direitos como educação, lazer, cultura, informação. Nesse caso, o jornalista poderia aproveitar sua referência à antiguidade para também chamar a atenção sobre o tempo que foi perdido para a aplicação na prática do ECA. Talvez, até abrir espaço para que se discuta o caráter abstrato que o Estatuto ganhou junto à maioria da sociedade, diante da tragédia social em que nossas cidades se transformaram nos últimos 10 anos. Nada disso. Preferiu referir-se à “inimputabilidade” e à vaga antiguidade de seu caráter polêmico para induzir o leitor a pensar na urgência de se alterar o ponto em questão. FEBEM funciona se ninguém
fugir
Canecchio, então, explica: “Toda essa legislação baseia-se em um antigo princípio do Direito segundo o qual o jovem é uma pessoa em formação e não pode, antes de uma determinada idade, ser responsabilizado por seus atos. Tal doutrina fazia inteiro sentido em épocas distantes em que os adolescentes eram pouco mais do que crianças crescidas, não tinham acesso a informações fora da escola e dependiam dos pais para tudo. Isso mudou tanto na sociedade brasileira contemporânea que, desde a promulgação da Constituição de 1988, é dado a eles, a partir dos 16 anos, o direito de votar. Ou seja, rapazes e moças que nem entraram na faculdade estão aptos para escolher o presidente da República, mas não estão sujeitos a uma condenação penal, cometam o delito que cometerem.” Voto e crime
A única evidência de que o jornalista lança mão é o fato de que desde a Constituição de 1988, “rapazes e moças que nem entraram na faculdade estão aptos para escolher o presidente da República, mas não estão sujeitos a uma condenação penal, cometam o delito que cometerem”. O “nem” da primeira oração implica a necessidade de que o eleitor esteja, pelo menos, fazendo um curso superior para votar. O que o não diria o repórter sobre aqueles que pretendem ser eleitos? Teriam que ter um doutorado, no mínimo. Não satisfeito, Canecchio ainda opõe um direito (votar) a uma punição (a condenação penal). Além de ser facultativo, o voto aos 16 anos nada tem a ver com medidas originadas por uma situação em que o agente (o menor) comete atos que o colocam à margem da cidadania. Ao contrário, dentre os direitos da cidadania, o voto aos 16 anos é o mais tímido e impotente. Não seria mais apropriado dizer que há milhões de “rapazes e moças” que nunca tiveram acesso à infância, à educação, lazer, cultura, diversão? “Rapazes e moças” que, na realidade, foram crianças criadas nas condições apropriadas para se tornarem soldados do crime chefiado por adultos? E que, mesmo assim, ainda podem vir a ser sujeitos a uma condenação penal? O pior é que depois de abordar a questão com toda essa distorção, a reportagem tem a coragem de observar que “evidentemente” a discussão sobre a “necessidade de adaptar a atual legislação à nova realidade do país não deve se dar em razão do clamor público nascido do hediondo assassinato de Felipe e Liana”. Não. De forma alguma. Evidente que não. Óbvio que não. Mas, lembra, ao mesmo tempo, que o cardeal arcebispo de Aparecida, dom Aloísio Lorscheider, “engrossou o coro dos que querem a redução da maioridade.” Ora, o tom da matéria desde o início já é emocional. E a declaração de Lorscheider aparece apenas para reforçar esse tom. Antes e depois, o leitor está cercado. E tem mais. A reportagem diz que, apesar de uma pesquisa da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) revelar que 89% dos brasileiros são favoráveis redução da maioridade, trata-se de “algo que não pode ser resolvido por critérios emocionais”. Mais um exemplo de manipulação. A divulgação da pesquisa, com seus números majoritários a favor da redução da maioridade, transforma em pó a advertência de que não se trata de questão a ser resolvida por critérios emocionais. A falida solução
repressiva
Por outro lado, esse tipo de ofensiva fica mais forte porque muitos dos que defendem o ECA, o fazem de forma abstrata e isolada. Ficam dizendo que foi a sociedade que não deu a devida atenção às crianças. Por isso deve agüentar as conseqüências. Mas que sociedade é essa? Quem é que causa a desigualdade que gera tanta violência? Ela tem nome e identidade. É a maioria dos governos. São os banqueiros, as grandes empresas, fazendeiros, latifundiários. Enfim, todos os responsáveis pela injustiça social do país. Dizer que uma tal de “sociedade”
é responsável pela violência é dividir uma responsabilidade
que é dos ricos e poderosos com os pobres e a classe média
pobre. Os primeiros causam e vivem da violência. Os últimos
são as maiores vítimas dela. Mas esse já é
um tema para outro texto.
Sérgio Domingues, novembro de 2003. Visite www.midiavigiada.kit.net
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