As capas de Veja: dos cães
raivosos ao imperador Bush, passando por Gisele
Dezembro de 2002. Depois
de colocar um cão raivoso simbolizando o PT na capa de sua edição
de 23/10, vésperas do 2º turno, a Veja da semana de 30/10 trouxe
na capa o rosto sorridente de um Lula eleito com mais de 52 milhões
de votos. A manchete: “Triunfo histórico”.
Mas não nos enganemos.
A tal capa vinha com os seguintes dizeres "Seu desafio: retomar o crescimento
e corrigir as injustiças sociais sem colocar em risco as conquistas
da Era FHC." Essa é boa! Conquistas pra quem, cara pálida?
Recessão, desemprego, miséria, aumento da dependência
externa e até a inflação de volta. Eis as conquistas
da Era FHC, que, felizmente, já era.
Na semana seguinte, uma capa
amena, com Palocci, Gushiken e Zé Dirceu como os três mosqueteiros
da transição:.“A cúpula da nova corte” é a
manchete.
Uma provocaçãozinha,
sugerindo que a corte muda mas o reinado do neoliberalismo seguirá
sendo o mesmo. Depois disso, a política nacional sumiu das capas
da revista. Auto-ajuda, paqueras, Gisele Bündchen foram os assuntos
das três semanas seguintes. Temas cruciais!!
Quando já achávamos
que a Veja iria ficar nesse chove não molha, nesse “tô me
guardando pra quando o carnaval chegar” (desculpas ao Chico), a revista
volta ao ataque. Ou melhor, quem volta é o dragão. Na capa
da edição de 04/12, um réptil nada simpático
rasga a cena ao lado do título: “Ele Voltou. Com a alta de preços,
os brasileiros voltam a sofrer com o pesadelo do dragão inflacionário.”
Deve ter sido grande a tentação de colocar “Ele voltará.
Quem mandou votar no Lula”.
A César o que é
do Brasil
Já de volta à
velha forma, a capa de 11/12 dizia “Lula vai a César. O encontro
de Lula com George Bush em Washington marca o início de uma longa
negociação que vai definir o tipo de nação
que o Brasil será”. Ora, quem vai negociar o “tipo de nação
que o Brasil será” com um César, só vai negociar em
quanto vai ser explorado. Claro que existe muita de realidade na imagem
de uma negociação desigual, já que com a única
potência do planeta. Mas, Veja deixa transparecer sua torcida pelo
pior e um certo sabor de vingança. E nesse caso, nada melhor que
o anjo(?) vingador sonhado por Veja para a derrota de Serra seja George
W. Bush. Eles se merecem.
Pequena consideração
Não leio Veja toda
as semanas por falta de tempo, paciência e dinheiro. Não necessariamente
nesta ordem. Acompanho as capas nas bancas e com isso acabo adotando o
ponto de vista daquele leitor que também não tem tempo, paciência
e, principalmente, dinheiro. Um público que não é
o da Veja, mas pode se deixar influenciar pelas vistosas capas de suas
edições.
Sérgio Domingues,
dezembro de 2002. Visite www.midiavigiada.kit.net
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