Transgênicos: Uma ameaça à saúde e ao futuro da nação
Manuel Eduardo Tavares Ferreira, engenheiro agrônomo, janeiro de 2004


O que são transgênicos? Transgênicos são produtos criados pela engenharia genética a partir da introdução de genes de determinados organismos (animais ou vegetais) em outros seres vivos que jamais se cruzariam naturalmente. Essa nova tecnologia permite, por exemplo, introduzir um gene humano num porco, ou um gene de rato, de peixe, de bactéria ou de vírus em espécies de arroz, soja, milho, tomate, batata ou qualquer outro vegetal.

As empresas que mais têm investido na produção de transgênicos são as multinacionais que atuam na produção de insumos para agricultura, produzindo sementes e agrotóxicos.

Como as variedades de plantas melhoradas pelas comunidades indígenas e de pequenos agricultores através dos séculos não podem ser patenteadas, foram criados por essas empresas multinacionais, organismos animais ou vegetais "novos": os transgênicos, que são considerados "invenções" e, portanto, passíveis de patente.

Assim sendo, ao plantar uma semente transgênica, o agricultor sempre deve pagar pelo direito de uso ao dono da patente da semente.

As multinacionais, que durante anos condicionaram a agricultura ao uso indiscriminado de agrotóxicos, preparam-se para tomar o pouco que restava da autonomia do produtor rural um - a posse da semente.

Note-se que as grandes multinacionais, que não por mera coincidência, são também produtoras de agrotóxicos, nos últimos anos compraram quase a totalidade das empresas nacionais que de forma independente produzem sementes, em flagrante tentativa de monopólio global que vai ser concretizado através das patentes dos transgênicos.

A detentora dessa tecnologia, apoiada pelos mecanismos de globalização do FMI e OMC, pretende deixar sobreviver apenas as grandes monoculturas comerciais do chamado "agribusiness", condenando à marginalização milhões de pessoas envolvidas com a agricultura familiar.

No Brasil, a empresa que mais pressiona pela liberação dos transgênicos, utilizando até métodos excusos como o contrabando de sementes da Argentina e Paraguai, é a "Monsanto".

A "Monsanto" desenvolveu uma variedade de soja transgênica que é resistente ao herbicida Roundup, produzido pela própria empresa. Um gene retirado de algas e bactérias foi transferido para a soja a fim de que ela não morra como conseqüência do herbicida Roundup que é usado para eliminar as plantas indesejáveis que invadem a lavoura.

Além disso, as multinacionais do "Agribusiness" já estão preparando novos cultivares com o gene "terminator", cuja função é fazer com que a semente colhida pelo agricultor se "suicide" ao ser semeada, obrigando-o a comprar novas sementes vendidas pelo produtor de transgênicos.

Os EUA são atualmente o maior produtor mundial da soja, seguido de perto pelo Brasil. Enquanto os Estados Unidos se dedicam à plantação de soja exclusivamente transgênica, o Brasil, até o ano passado tinha a sua produção totalmente não transgênica, o que lhe garantia a exportação, principalmente para a Comunidade Européia, Japão e China, que relutam em importar produtos transgênicos.

A introdução da soja transgênica no Brasil vai favorecer unicamente aos EUA, que atualmente tem dificuldades em exportar a sua soja para a Europa, e vamos perder esse diferencial importante e ficar à mercê dos interesses das grandes multinacionais, que querem obrigar os consumidores europeus a aceitar a soja americana transgênica, por falta de opção.

É com pesar que vemos nosso governo submeter-se aos interesses do grande poder econômico e tecnocrático sem pátria, editando medida provisória, inconstitucional e imoral, que fere decisões judiciais e chega ao cúmulo de conferir legalidade a uma safra de soja transgênica resultante do plantio de sementes contrabandeadas, já que sua produção estava proibida no país.

Riscos para a sua saúde.

Aumento das alergias: Quando se insere um gene de um organismo em outro, novos compostos podem ser formados, alterando principalmente proteínas e aminoácidos do organismo que recebeu o gene.

Se esse produto, um transgênico, for alimento, as substâncias modificadas nele contidas podem provocar alergias em parcelas significativas da população. Na Inglaterra, uma pesquisa constatou um aumento de 50% dos casos de alergia aos produtos à base de soja geneticamente modificada.

Aumento de resistência aos antibióticos: Para se certificar de que a modificação genética deu certo, são inseridos nos transgênicos os chamados genes marcadores de bactérias resistentes a antibióticos. Com isso, pode ocorrer o aumento da resistência a antibióticos nas pessoas que consumirem esses alimentos, ou seja, em casos da necessidade do uso de antibióticos, pode ocorrer a redução ou anulação da eficácia desses medicamentos, o que é um sério risco para a Saúde Pública.

Aumento das substâncias tóxicas nos alimentos: Existem plantas e microorganismos que produzem substâncias tóxicas para se defender de seus inimigos naturais, como os insetos, por exemplo. Se genes desses organismos forem introduzidos em alimentos transgênicos, o nível dessas toxinas aumenta muito, o que irá causar danos à saúde das pessoas que consumirem esses produtos. Até o momento, são poucos os estudos sobre a avaliação da toxicidade dessas substâncias introduzidas intencionalmente nas plantas. Tais substâncias estão entrando na composição dos nossos alimentos sem qualquer estudo prévio que garanta a segurança como é obrigatório para outros aditivos tais como corantes, acidulantes, aromatizantes etc.

Riscos ao meio ambiente: Os perigos que os transgênicos podem oferecer ao meio ambiente são muitos e não foram suficientemente avaliados.Com a inserção de genes de resistência aos agrotóxicos em certos produtos transgênicos, as pragas e plantas invasoras poderão adquirir a mesma resistência, o que vai exigir a utilização de quantidades cada vez maiores de agrotóxicos nas plantações, contaminando os alimentos, a água e o solo.

Através da polinização, vários dos genes introduzidos nas plantas podem ser introduzidos em plantas nativas ou outras plantas cultivadas não transgênicas, havendo o risco de causar a extinção de espécies e modificações nos ecossistemas.

A introdução de genes para produção de substâncias tóxicas nas plantas, com o intuito de controlar as pragas, pode levar à extinção de espécies do mundo animal. Tal fato ocorreu com o milho bt, nos EUA, que praticamente extinguiu a espécie de borboleta monarca, que não é praga do milho, mas sim um agente polinizador.

Para concluir, deve-se ressaltar que não há estudos suficientes sobre os riscos que os transgênicos oferecem ao meio ambiente. Em várias partes do mundo, pesquisadores alertam para o perigo que representa a introdução de uma espécie transgênica, pois o gene modificado pode se propagar sem controle, trazendo alterações imprevisíveis em um ecossistema.

Manoel Eduardo Tavares Ferreira é Engenheiro Agrônomo e Presidente da Associação Cultural e Ecológica Pau Brasil.
 
 

Transgênicos são tema de encontro indígena e campesino
Laura Cassano, janeiro de 2004

A cultura dos Organismos Geneticamente Modificados está sendo amplamente discutida no I Encontro Internacional de Resistência dos Povos Indígenas e Campesinos, em Caracas. A abordagem que os movimentos sociais fazem dos transgênicos vai além dos males que estes alimentos podem causar à saúde e ao meio ambiente. O enfoque privilegiado é o impacto sócio- político e econômico que culturas modificadas podem trazer aos países.

A discussão sobre o cultivo de transgênicos vem sempre acompanhada da reflexão sobre soberania alimentar, a principal bandeira da Via Campesina. A introdução de culturas geneticamente modificadas é geralmente defendida pelo argumento de que esta seria uma forma de aumentar a produção e assim acabar com a fome no mundo, através da chamada Revolução Verde. No entanto, a professora Lorna Haynes, ex-coordenadora da Rapal-Venezuela, explica que o problema da fome não é um problema de quantidade, mas de redistribuição da produção e de vontade política. Afirma, ainda, que este modelo não responde às aspirações dos pequenos agricultores, somente das grandes multinacionais que investem nesta tecnologia, como a Monsanto, por exemplo. 

Monsanto é destaque em painéis.

A Monsanto tem uma longa história de práticas irregulares em suas investigações, de coerção para ocultar evidências, de enganar ao público com sua publicidade e tem sido acusada de muitos danos ecológicos e à saúde. Um caso bastante conhecido é o do herbicida Agente Laranja, utilizado durante a guerra do Vietnã. Devido à alta concentração de dióxidos em seu produto, a Monsanto respondeu por grande parte dos pedidos de indenização dos sobreviventes. Outra acusação já conhecida sobre a empresa refere-se à manipulação e omissão de dados sobre a segurança do hormônio r-BGH (Prosilac), produto de sua engenharia genética utilizado para estimular a produção de leite em vacas.

Esta mesma companhia é responsável por 90% das sementes transgênicas e do herbicida glifosfato, o Round up, em todo o mundo, 86% dos cultivos de alimentos modificados e 60% da soja transgênica, resistente ao herbicida Round up. A investigação agrobiológica financiada pelas multinacionais tentam desenvolver plantas resistentes a altas doses de herbicidas. O paradoxo é que as mesmas multinacionais vendem o tal herbicida e a semente melhorada geneticamente, disse Francisco Carreña, da CANEZ (Coordenação Agrária Nacional Ezequiel Zamora).

A especialista venezuelana também apontou a propriedade intelectual como mecanismo de controle da produção dos alimentos por parte das empresas de biotecnologia. Através do uso de técnicas de restrições, elas são capazes de manipular geneticamente a estrutura de um organismo para que somente possa ser reproduzido caso seja ativado. O agricultor fica dependente da aquisição do pacote semente-herbicida. Além disso as sementes são programadas para florescerem somente por uma safra, o que obriga o agricultor ter que comprá-las a cada safra, afirma Maria do Carmo, agrônoma e militante do Movimento dos Pequenos Agricultores.

O perigo da contaminação.

A cultura de transgênicos é preocupante pois impede a coexistência de culturas não modificadas, o que causa sérios danos à biodiversidade. Resulta na rápida extinção de variedades criolas e indígenas ancestralmente selecionadas e adaptadas às condições agroecológicas das regiões produtivas, afirmou Maria Helena Martinez, membro da CLOC (Coordenadora Latino Americana de Organizações Campesinas). A contaminação genética acontece muito rapidamente através dos ventos e agentes polinizadores e é irreversível. Uma vez contaminada, a região praticamente não pode ser recuperada. Daí, os movimentos considerarem imprescindível a disputa por uma agricultura isenta de transgênicos.

Martinez disse também que a contaminação é uma técnica utilizada pelas empresas de biotecnologia e citou o caso do canadense Percy Schmeiser que teve sua plantação orgânica, cultivada há mais de 50 anos, contaminada por uma plantação transgênica vizinha da Monsanto. O canadense ficou arruinado e foi processado pela empresa, que, além de cobrar royalties, o acusou de uso indevido de suas sementes modificadas explicou.

A situação do campo na Argentina.

Francisco Carreño recorreu às palavras do engenheiro Adolfo Boy apresentadas na Mesa Redonda Oposição e alternativas aos cultivos e alimentos transgênicos realizada em Montevidéo, em julho deste ano, para explicar a situação do campo, hoje, na Argentina. A Argentina nunca foi um país industrial, sempre viveu às custas do campo, com o qual deu de comer ao seu povo e ao mundo. Tudo foi arrasado pela soja transgênica, orientada pela agroindústria monopólica que a transforma em álcool, leite ou chocolate, citou literalmente ao engenheiro.

Carreño afirmou, ainda, que este país ao entrar em um processo produtivo acelerado, aumentando cada vez mais a superfície semeada, não melhorando o rendimento por hectare, aprofundou a crise. O resultado desta agricultura de escala foi a exclusão da gente do campo. Quem vive em um campo que não tem árvores, nem galinhas, nem burros? O campo argentino está vazio, concluiu.


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