Quem derrota Lula em 2006?
Milton Temer, 21 de janeiro, 2004


No seu último texto dominical, o ministro Tarso Genro encerra civilizado contraponto aos que contestam as guinadas ideológicas do governo Lula e do PT com um exemplo oportuno. Invoca o cenário político italiano, lembrando que, na sucessão do moderado D'Alema, na Itália, não teriam vindo os radicais de esquerda mas, sim, Berlusconi - o grande admirador de Mussolini.

Vou mais longe, na lembrança de exemplos recentes, e cito o socialista francês Lionel Jospin. Excluído até do segundo turno do embate por sua sucessão, lá não estavam também nenhum dos candidatos da esquerda radical, independentemente de seu significativo crescimento eleitoral. A disputa foi entre a direita fascista, de Le Pen, e a direita republicana de Chirac. Se Le Pen foi barrado na reta final, o mundo deve agradecer à mobilização do eleitorado socialista histórico que, decepcionado com as concessões de seu governo aos ''mercados'', se abstivera no primeiro turno do pleito.

O certo, nas duas situações, é que não foi por conta das críticas de esquerda que tais governos foram varridos. Pelo contrário. Foram varridos exatamente por não terem levado em conta a contestação dos segmentos sociais conseqüentes quando resolveram, a partir da instalação nos palácios governamentais, dar continuidade ao que faziam seus antecessores de direita ou centro-direita.

Porque, caro ministro, embora os eleitores só tenham direito à cidadania plena nos momentos, separados por anos, em que depositam seus votos nas urnas, nem sempre o fazem como se estivessem diante de algo inexpressivo. A verem seus representantes reproduzindo o que condenavam, ou se abstêm no pleito seguinte ou os punem pela recondução dos autores originais do projeto político em curso. Ou seja, os governos ditos da esquerda, ou da centro-esquerda, européia não foram derrotados pela falta de compreensão da militância combativa e coerente. Foram derrotados exatamente por terem navegado no sentido contrário ao que haviam prometido aos que os conduziram ao governo.

Nesse mesmo contexto, a conjuntura brasileira destes últimos dias está rica de episódios que empanam a argumentação de Tarso Genro quanto ao prejuízo à credibilidade do governo Luiz Inácio Lula da Silva. Por acaso são os primeiros movimentos para a reestruturação partidária de uma esquerda socialista e democrática que criam problemas para o Planalto? Certamente que não. Estaria aí, ao contrário, um instrumento de pressão positiva para que o partido do presidente se obrigasse a rever a mudança de identidade que se impõe a partir das opções do seu governo.

O que ameaça o governo Lula é jogar ladeira abaixo os índices de emprego e de renda dos trabalhadores, ao mesmo tempo em que garante, a cada trimestre, o lucro pantagruélico dos banqueiros. O que ameaça o governo Lula é ver um irreconhecível ministro José Dirceu ameaçar o Ministério Público com o relançamento da perspectiva de uma Lei da Mordaça. Afinal, foi a partir do apurado pelo outrora ''corajoso'' Ministério Público que o PT tomou grande parte de suas iniciativas no combate contra as ''maracutaias'', no governo FHC. Uma delas, inclusive, proposta exatamente pelo então deputado e presidente do partido, José Dirceu - o pedido de ''CPI das privatizações''. O que ameaça o governo Lula, enfim, é ver o presidente atual do PT, José Genoino, abraçando, enternecido, o ex-governador Marcelo Alencar - o que foi denunciado em CPI da Alerj pela privatização do Banerj, da CEG e do Terminal Menezes Cortes, apenas para lembrar os casos mais expressivos - no lançamento de candidatura comum, PT-PSDB, à Prefeitura de Nova Iguaçu.

Em 2006, ministro Tarso, os 60% do Lula de 2002 poderão estar ameaçados, na verdade, por um novo Lula. O Lula composto com os ex-adversários, numa ampla aliança de legendas sem identidade. Que não surpreenderá ninguém se mostrar, no palanque de então, José Genoino abraçado, não a Marcelo Alencar, mas ao próprio ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Se até lá, é claro, a abstenção eleitoral não se instalar. Ou um valor mais alto não se alevantar.
 

Milton Temer é jornalista e escreve no Jornal do Brasil às quartas-feiras.


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