Entre nos EUA sem ser fotografado
ou preso
Emir Sader, Jornal do Brasil, 18 de janeiro, 2004
Por isso esta coluna hoje é de utilidade pública: como contornar as represálias do mais poderoso governo do mundo diante das justas medidas brasileiras em Cumbica. Se você precisa ou deseja entrar nos Estados Unidos, não atenda a nada do que as agências de turismo e a tradição mandam fazer. Oriente-se por quem bem conhece os Estados Unidos: Michael Moore. Ele nos recomenda ''cinco formas engenhosas de entrar nos Estados Unidos''. A primeira é de avião. É absurdo que se gastem milhões de dólares para vigiar a fronteira mexicana, quando a maioria dos imigrantes ilegais chega de avião aos EUA. Moore diz que, se você quiser chegar lá por via aérea, não é necessário passar por grandes aeroportos superpoliciados, como os de Nova York e Los Angeles. Várias pequenas cidades exibem seu ''aeroporto internacional'', como os de Chatanooga, Reno ou Flint. Possuem seu próprio serviço de alfândega, ''cujos agentes não foram necessariamente selecionados entre os indivíduos mais perspicazes da população local''. Você pode, segundo Moore, desembarcar em uma dessas cidades, dizer que é turista ou estudante, e pronto. Se quiser entrar nos EUA pelo México, Moore recomenda evitar os postos de fronteira, onde os candidatos à Presidência costumam tirar fotografias para suas campanhas e que ficam infestados de policiais. (Cuidado também, acrescento eu, com o aeroporto internacional da capital mexicana, onde impunemente agem agentes da polícia dos EUA, com a complacência do governo de Vicente Fox, vigiando os passageiros que partem para os EUA em empresas mexicanas). Moore aconselha atravessar o Rio Grande pelo lado de Brownsville, onde é fácil de ser cruzado a pé, ou em Los Ébanos, no Texas, onde basta um bote puxado por cordas. Chegado ao lado norte-americano, você será recebido por um tipo do serviço de imigração que se interessa sobretudo pela pesca e que lhe fará passar rapidamente pela alfândega. Uma terceira possibilidade é chegar pelo outro lado dos EUA, pelo Canadá. Se estiver chegando da Europa, Moore recomenda aterrissar em Toronto ou em Montreal, dizer aos agentes da alfândega que vai visitar as cataratas do Niágara e se dirigir para a fronteira norte-americana. Não há praticamente vigilância entre Quebec e Vermont, segundo ele. Se quiser um bom lugar para cruzar, ele indica o campo ao lado do McDonald's instalado na estrada 87 do Estado de Nova York, na fronteira com Vermont. Chegado aos EUA, passe diretamente para Vermont, onde há menos patrulhas de fronteira, tome a I-89 até a saída nº 10, depois a estrada 100, para o Norte, até Waterbury, e pronto. É possível ainda chegar por mar, pelo mais próxima fronteira Sul desde o México. A não mais de 80 quilômetros da costa da Flórida, a ilha de Bimini, nas Bahamas, é de fácil acesso. Uma embarcação pode lhe deixar clandestinamente na Flórida pelo preço de 950 dólares (pergunte por Lou, no segundo cais, que ele faz o servicinho). Há também um vôo de hidroavião até Miami, que sai por 156 dólares, mais as taxas. Moore não recomenda chegar à Flórida em ski aquático, porque o motor tem autonomia apenas para cerca de 15 quilômetros. Finalmente, existe um lugar pelo qual, segundo Moore, pode-se entrar nos EUA com a certeza de jamais encontrar um patrulha. Não há nenhum agente de imigração nas ilhas Diomede, no Estreito de Behring. No inverno, quando o mar está gelado, pode-se tranqüilamente cruzar a pé da Rússia aos EUA. As indicações
se encontram no livro de Moore Downsize this, publicado nos EUA. Podem
evitar aborrecimentos nos aeroportos norte-americanos para nossos sofridos
cidadãos, assim como evitar situações de conflito,
que causam tantas ansiedades em prefeitos, juízes e outros indivíduos
tão preocupados com as contrariedades eventualmente provocadas em
turistas norte-americanos pelo exercício do - superado, pela globalização
neoliberal - conceito de soberania.
Emir Sader é sociólogo.
Opinião
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