A comunicação (é o) que realmente importa
Rosa Alegria, Novae, 23 de dezembro, 2004


Os desafios dessa nossa época não têm precedentes na história da humanidade. Nunca antes estivemos à beira do colapso planetário. Estamos ficando assustados pelas ameaças ecológicas à nossa biosfera e inconformados pelas injustiças humanas. Epidemias “econômicas” passaram a ameaçar o bem comum de toda a população mundial, dando tudo para poucos, e quase nada para muitos.

Estamos assistindo com os olhos vidrados de perplexidade à desconstrução de velhas verdades e ao rompimento de antigos paradigmas reinantes durante pelo menos sete séculos. Mirando o espelho das novas realidades do século 21, está mais do que provado: dinheiro não é riqueza, consumo não é felicidade e informação não é conhecimento.

Não poderíamos ingressar nesse terceiro milênio de forma mais instigadora. É só lembrar: na apoteose das festividades do ano 2000, nossos ouvidos estiveram atentos às passagens musicais e aos ruidosos fogos de artifício. Na seqüência desse repertório festivo, acordamos no início do século com o ensurdecedor bater de asas de grandes fortunas. Depois do anoitecer, o colapso da bolha e o avesso da realidade da Internet que levou a economia mundial a uma prolongada recessão. Virando as páginas do calendário para 2001, o pesadelo do 11 de Setembro e logo em seguida, os escândalos corporativos Enron, Andersen e falcatruas correlatas. Para coroar as marcas indeléveis desse marcante início de século, fomos testemunhas da estupidez quase inesperada dos poderes mundiais com a guerra do Iraque.

Com toda essa dinâmica delineando o nosso futuro, que podemos esperar para as futuras gerações? Mais do que esperar, é preciso fazer. E fazer - não como sempre se fez – a passos largos e lentos, mas com o sentido de urgência que esse momento histórico exige.

Nossa inteligência evolucionária nunca foi tão testada. Vamos sucumbir às profecias e previsões ou dar um salto em nossa consciência coletiva no resgate de um mundo perdido com o qual temos tanto sonhado?

Nesse ponto decisivo da civilização humana todas as ações corretivas e construtivas são válidas, mas não são suficientes! É preciso acelerar o passo, é preciso correr contra o próprio tempo para responder com a velocidade necessária para mudar essa situação. Acredito sim na responsabilidade social crescente, me comovo com o crescimento dos movimentos civis em sua inquietação com relação aos desmandos institucionais e distorções do poder, me empolgo com as novas tecnologias de cunho social, deposito fé na consciência ecológica das novas culturas de consumo e assisto com entusiasmo ao desenvolvimento de novas formas de energia renovável. Mas ainda não me tranqüilizo enquanto não houver mais velocidade nessas mudanças. Para mudar esse mundo precisamos ser rápidos, na velocidade das redes neurais dos meios de comunicação.

Não vejo outro caminho que não o de uma nova comunicação, a comunicação transformadora, que constrói novos saberes, que mobiliza novas frentes coletivas, que conscientiza, favorece a paz, e legitima um futuro coletivo sustentável.

Nesses 6 anos de existência da Novae e nesses 4 anos do MOVIMENTO MÍDIA DA PAZ eu me fortaleço de esperança e renovo minha fé no poder da comunicação como processo emergente e catalisador de uma nova consciência humana.

A família humana precisa de NOVAES e MÍDIAS DA PAZ, no acesso democrático às informações que fazem a diferença e fortalecem a cidadania, na construção do diálogo interinstitucional, na proliferação de pensamentos visionários e positivos e na insistente capacidade de sua brilhante equipe em manter integra e firme a qualidade editorial.

O trabalho iluminador do Manoel e da Cris só nos faz seguir adiante nessa convocação: devemos influenciar a coletividade planetária através de novas formas de comunicação, construtivas, fortalecedoras, mobilizadoras, edificadoras de uma nova cultura, criadoras de um novo projeto de civilização.

A revolução humana vai ser a revolução da comunicação. Já estamos vendo a varredura de um passado sombrio dando lugar a uma nova história – através da integração de todos os meios, TV's, computadores, satélites, telefones, fibras óticas e mentes coletivamente enredadas num só projeto planetário através de sistemas potenciais de comunicação instantânea e conscientizadora.

Mas no compasso dessa revolução, um paradoxo quase indecifrável: que mídia é essa que estamos consumindo? Que valores são esses que nos alimentam através da publicidade? Que realidade é essa que estão tentando nos mostrar ou ocultar pelas notícias da hora? Que referências éticas são essas a que estamos expostos através de imagens e mensagens distorcidas?

Aviltamento diário da espécie humana , exploração irresponsável de imagens violentas, afrouxamento dos valores éticos, estímulos fortificantes para o consumo compulsivo.

Que mídia é essa que se reveste de um falso discurso ético e aglutina seus poderes corporativos para pedir financiamento público, tentando perpetuar essa assombrosa realidade humana?

BNDES, acorde. Empresários da mídia despertem. Vocês ainda não chegaram a perceber que existe uma nova civilização à espera de um novo projeto de comunicação.

Enquanto isso não acontece, enquanto os patrocinadores ainda não valorizarem a legitimidade da comunicação alternativa, nós aqui continuamos a fortalecer a comunidade NOVAE, com a força da alma e com o poder dos sonhos, com a energia da fé e com a obstinação de quem quer ver esse mundo mudar.

Nós que temos a força e o poder de consumir, ler, opinar, dialogar e protestar, não podemos só ficar esperando o futuro. Precisamos influenciar esse futuro, com velocidade  e delicadeza.

Está claro e evidente o que nos espera. Não são suficientes os movimentos sociais e ecológicos para dar conta desse recado milenar. O caminho é o da COMUNICAÇÃO.

Devemos mobilizar a coletividade planetária através de novas formas de comunicação, construtivas, fortalecedoras, inspiradoras, pacificadoras,mobilizadoras, edificadoras de uma nova cultura, criadoras de um novo projeto de civilização.

Tempo de Novae! Tempo de uma mídia para a paz! É a convocação que faço aos empresários ainda desatentos à mais importante revolução da humanidade: a revolução da comunicação!
 


Rosa Alegria [alegria@uol.com.br] é futurista, pesquisadora de tendências, comunicadora, graduada na Faculdade de Filosofia, Ciencias e Letras da USP, com curso de mestrado em Estudos do Futuro pela Universidade de Houston. co-diretora do Projeto Millenium no Brasil, iniciativa global da Universidade das Nações Unidas, diretora de pesquisa do NEF - Núcleo de Estudos do Futuro da PUC-SP, membro profissional da World Future Society, co-fundadora do Movimento Mídia da Paz, da SSF - Sociedade dos Saberes Femininos e diretora da empresa de consultoria Perspektiva - tendências, cenários e estratégias.


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