Brasil: A Visão Germinal de Clóvis Moura
Mário Maestri, 10 de janeiro, 2004

Em 1948, aos 23 anos, o sociólogo Clóvis Moura empreendeu pesquisa sobre a luta dos trabalhadores escravizados. Apesar de concluir o trabalho em 1952, e de ter acesso direto à principal editora de esquerda da época, o livro foi publicado apenas em 1959, em editora alternativa. 

Em março de 1949, ao consultar o historiador e editor  Caio Prado Júnior, seu companheiro de militância comunista, sobre o projeto de historiar “as revoltas de escravos no Brasil”, foi dissuadido da empreitada, devido a eventuais dificuldades logísticas e à pouca relevância do projeto. 

Caio Prado afirmou em carta não pretender “desanimá-lo” e aconselho-o a procurar a “sua volta assuntos de maior interesse” – a vida no “sertão”, a “população”, as “tradições locais”. Se fosse “realmente comunista”, recomendava que empregasse “seu esforço de escritor [...] para resolver os grandes problemas [...] da miséria e da exploração”, sobretudo os que encontraria “aí à sua volta”, em Juazeiro. 

Em 1952, Caio Prado devolvia com “atraso” os originais do livro, que elogiava como “grande contribuição para assunto que anda esparso em nossa literatura” e por abordar “aspectos de conjunto da luta dos escravos ainda não [...] tratados de maneira sistematizada”. Caio Prado comunicava que a Brasiliense não editaria o livro por questão “comercial e financeira”. Estava comprometida com outras obras e com as “edições de Monteiro Lobato”.

Editora dissidente
Rebeliões da senzala: quilombos, insurreições, guerrilhas foi lançado apenas em 1959, pelas Edições Zumbi, micro-editora fundada por militante comunista para publicar obras rejeitadas pela Editora Vitória, do PCB.  Conheceria reedição ampliada, pela Ciências Humanas, em 1971, e duas outras reapresentações, a última pela editora Mercado Aberto, de Porto Alegre, em 1988. 

No livro, em parte ainda tributário da visão de Gilberto Freyre da escravidão negra como produto da inaptidão cultural do americano ao cativeiro, Moura assinalou que o “estabelecimento da escravidão" subvertera “em suas bases o regime de trabalho até então dominante”. 

Propunha o caráter dominante da escravidão, assinalando que, “do ponto de vista sociológico”, a instituição dividira “a sociedade colonial em duas classes fundamentais e antagônicas", a dos senhores, "ligados economicamente à Metrópole" e a da "massa escrava", formada pela "maioria da população", que "produzia toda [sic] a riqueza social”.

Sobre a produção mercantil da Bahia de inícios do século 19, extremando, dizia que “era toda baseada no trabalho escravo” e que as “relações escravistas determinavam todo o conjunto da sociedade baiana”. Defendia que os “escravos, os pequenos lavradores, sitiantes, pecuaristas, intelectuais e artesãos” vivessem “asfixiados pelos senhores de engenhos e [de] escravos que usufruíam vantagens desse sistema de economia colonial”.

Brasil escravista
Defendeu a importância fundamental da Abolição, que apresentou, em última instância, como decorrência do fim do tráfico. Em forma germinal, assinalou a cisão do abolicionismo em uma “ala moderada” e uma ala “radical”, que se dirigia “para os próprios escravos, organizando-os para que lutassem com suas próprias forças [...].” 

Destacou a participação da “pequena” “classe operária” e a evolução da consciência do cativo durante a luta abolicionista. Sua visão arguta da Abolição encontra ainda hoje profundas resistências na historiografia brasileira e o movimento negro que desvalorizam o sentido revolucionário da superação do escravismo, em 1888, devido à péssima situação atual do afro-descendente.

Clóvis Moura inquiriu sumariamente a participação dos cativos nos principais “movimentos políticos” do passado – Inconfidência Mineira, Revolução de 1917, etc. –, destacando que “eram aliciados e engrossavam” movimentos senhoriais. Assinalou o caráter singular da conspiração baiana de 1798.

Minimizando a resistência “individual” e orgânica dos cativos à escravidão – fuga, justiçamento, etc. –, enfatizou a análise das “revoltas” coletivas nas quais o cativo lutaria “por objetivos próprios” – quilombos, guerrilhas e insurreições. Propôs que os quilombos assumiriam “forma defensiva” e “insurrecional, com o objetivo de esmagar seus senhores”.

Em defesa do quilombo
Clóvis Moura apresentou o fenômeno “quilombo” como  “geral” e “constante” e expressão do “inconformismo do negro”. Destacou sua determinação pela região e pela conjuntura histórica e capacidade de articular-se com índios, cativos e livres pobres. Analisou quilombolas de várias regiões do Brasil e destacou a importância do mocambo do “preto Cosme” na Balaiada.

Assinalou que o quilombo maranhense ainda não tivera seu “historiador” e a desqualificação habitual do “líder quilombola” como “megalômano ou paranóico”. Em Evolução política do Brasil, de 1933, Caio Prado referira-se ao quilombo e a dom Cosme em forma profundamente depreciativa. Não sabemos se a afirmação de Moura fazia parte do original apresentado ao  célebre historiador.

Clóvis Moura definiu o “Quilombo dos Palmares” como “a maior tentativa de auto-governo dos negros fora do Continente Africano” e sintetizou as principais insurreições escravas, enfatizando as baianas. Propôs que a revolta de 1835 fora “revolta planejada nos seus detalhes”, destacando seu projeto “político” necessariamente limitado –  matar “os brancos, pardos e crioulos”.

Em 1951, Clóvis Moura recebera resposta de carta enviada a Édison Carneiro. Ela assinalava o caráter “extremamente  importante” da pesquisa e enfatizava a necessidade de que não esquecesse a “importância” do “motivo religioso” nos levantes servis. Para Carneiro, a “religião” era “o vínculo nacional entre os escravos” e o “substantivo quilombo” significava também “ajuntamento religioso”. Moura não seguiria a recomendação do conhecido pesquisador, também próximo ao PCB.

Ruptura epistemológica
Clóvis Moura concluiu seu trabalho com análise sintética das lutas diretas dos cativos, que propôs não se tratarem comumente de “revoltas” dominadas “por simples paixões momentâneas”, mas planejadas “detalhadamente”. Destacou as debilidades objetivas dos movimentos.

Publicado em 1959, Rebeliões da senzala efetuava ruptura epistemológica ao propor que a “imensa massa escrava” impulsionara a “economia colonial” e esmagara “quase inteiramente o trabalho livre”. Rompia com as visões da historiografia tradicional e do PCB, ao afirmar o caráter sistêmico do trabalho servil e da escravizadão. Questionava, assim, a existência de povo brasileiro e a centralidade de lutas camponesas na pré-Abolição.

Como os trabalhos germinais anteriores de Manuel Bomfim, Manuel Querino e Benjamin Péret, não utilizados por Clóvis, a sua visão germinal do passado não teve desdobramentos imediatos. A seguir, dominaram interpretações que assinalaram a importância e violência da escravidão, o caráter não escravista do passado, a infecundidade da resistência servil – Escola Paulista.

Décadas mais tarde, nos anos 1980, quando o trabalho e a resistência do trabalhador escravizado conquistaram transitoriamente importante status acadêmico, a visão de Moura foi apresentada pelo movimento de reabilitação da escravidão patriarcal como visão romântica de cativo eternamente rebelado.

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Clóvis Steiger de Assis Moura nasceu em 1925, em Amarante, no Piauí. Ingressou no PCB nos anos 1940, trabalhando como jornalista na Bahia e São Paulo. Foi um dos raros intelectuais que acompanhou o PC do B na ruptura de 1962. Nos anos 1970, destacou-se pela militância junto ao movimento negro brasileiro.

Clóvis Moura produziu importante obra sociológica, histórica e poética. Em 2003, publicou-se trabalho coletiva sobre o autor: ALMEIDA, L.S. de [Org.] O negro no Brasil: estudos em homenagem a Clóvis Moura. [www.edufal.br].

Nos últimos anos, comunista sem partido, colaborou com o MST, produzindo ensaios para a Editora Expressão Popular. Faleceu, em fins de dezembro, no Hospital Alberto Einstein, em São Paulo, aos 78 anos. Em 2003, passara longos meses internado devido a câncer na garganta.

Intelectual marxista conseqüente, apaixonado pela vida, a sua e a dos outros, destacou-se pela retidão, perseverança e bom humor desbocado. Deixa saudades entre os que o conheceram pessoalmente ou através de sua obra.
 

Mário Maestri, 55, é historiador. E-mail: maestri@via-rs.net


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