Mudança de hábito
Thiago Visconti, 3 de janeiro, 2004

Em época de ano novo a ladainha é sempre a mesma. Muita gente viaja pra casa de parentes, aluga casas em outras cidades, e principalmente vão às praias ver a queima de fogos da virada. Todos comemoram, sabe-se lá o por quê, a entrada de um novo ano, ou será que comemoram o fim do péssimo ano que se passou?

A verdade é que o povo está sempre sem dinheiro e reclamando (apesar de muitos reclamões estarem sempre viajando e gastando), passando dificuldades e, muitos, necessidades, fechando o ano no vermelho, vivendo e criando suas proles em meio a crescente violência, desempregado, sem educação pública de qualidade. Entretanto o povo sempre dá um jeitinho para comemorar, repito, sabe-se lá o quê.

Todos no primeiro minuto do ano aclamam por uma melhor temporada; o povo não se cansa de ter esperança, pois a cada ano a cena se repete. Pedem por paz, amor, felicidade, "muito dinheiro no bolso, saúde pra dar e vender" ou simplesmente pedem por "saúde e paz que o resto agente corre atrás". Mas está difícil, companheiros e companheiras. Esse negócio de correr atrás está se tornando uma maratona infindável para a grande maioria.

O detalhe que vale ser destacado é que cada um pede por si individualmente ou no máximo por sua família, mesmo assim aquela bem próxima, nada de primo ou tios, só mesmo pais, irmãos e alguns outros por ventura mais chegados. Constata-se, então, que quanto maiores são as dificuldades (que não são poucas) o povo se torna mais egoísta, o que, acreditem, não é uma crítica, pois se trata de uma necessidade de cada um "tirar o seu da reta", "livrar sua cara", se salvar. E nessas circunstâncias a vida ocidental está se encaminhando a cada ano festejado (sabe-se lá por quê) para isso, uma paradoxal sociedade individual.

Se acreditamos em uma força maior que rege e governa o mundo e é o que me parece, seja lá qual for o nome que cada um dê a essa força, aconselho a pedirmos para que essa força ajude o país a crescer e se fortalecer economicamente como um todo. Trata-se de um pedido diferente e incomum, mas o fato é que a mesmice de todos os anos não está dando certo. Vai ver que essa tal força não possa atender milhões de pedidos específicos e 
individuais.

O que defendo é que se o país melhorar economicamente, e não estou falando de 1% ou 2% por que isso é piada, todo o conjunto de fatores carentes na sociedade tem grandes chances de melhorar. Porque o desemprego vai diminuir, a renda vai crescer individualmente, as oportunidades vão aparecer com mais facilidade, a violência vai cair em função de que alguns já não precisarão mais roubar, aumentará então a paz nas ruas, as crianças poderão voltar às escolas ao invés de ficar cheirando cola e vendendo balas ou furtando, as pessoas poderão trabalhar com mais tranqüilidade e as doenças referentes a estresses e preocupações poderão diminuir, haverá mais dinheiro para se ter acesso a medicamentos e a saúde assim aumenta. Isso tudo é um ciclo de retroalimentação.

É sem dúvida mais um sonho utópico, mas não fui eu quem começou em todos os inícios de anos a sonhar. Pelo menos esse é um sonho coletivo e que apesar de um tom "pachecão" tem o  seu grau de racionalidade. O que quero dizer é que queira ou não o que move o mundo não é mais amor, respeito, fraternidade, paz e outras palavras abstratas (que me desculpem as avós e os religiosos). O que move o mundo é  o setor econômico, é um elemento muito concreto: o dinheiro. A idéia é que se todos tiverem acesso ao dinheiro tudo tende a melhorar, porque se obtém mais paz, amor, saúde, felicidade e sem ele as cidades se tornam imensas selvas de pedra.

Pode ser que o dinheiro não compre a felicidade, mas é impossível ser feliz sem dinheiro, caso contrário dê o seu e seja feliz. A realidade é que quem manda é quem assina o cheque. O que comanda então?
 

Thiago Visconti é estudante de Comunicação Social da UFRJ [villelavisconti@ig.com.br]


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