O buraco é aqui!
Ricardo Faria, 26 de janeiro, 2004

Nem mais em cima, nem mais embaixo. A mídia amestrada, jornalões, rádios e tvs estão de quatro. Exatamente como cachorros caídos do caminhão de mudança ou os herdeiros do pai falido. E o Observatório da Imprensa até apresentou um debate na TV Cultura. E daí? Casa onde falta pão todo mundo grita e ninguém tem razão. De repente, o nosso barbudo Lula, depois de umas e outras, é capaz até de chamar o Graziano de volta e propor um Fome Zero através do Ministério das Comunicações porque não há BNDES que agüente.

Ao publicar neste OI, "Governo bate e Geni não reclama", Alberto Dines afirma:

"A nova investida do governo contra a imprensa - a segunda no mês - tem circunstâncias que a tornam ainda mais grave:

** Foi vocalizada pelo ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, ao que consta um político racional, negociador hábil, pouco inclinado a explosões emocionais e que, pela soma de poderes e atributos pessoais, é quase um primeiro-ministro.

** Foi ele o primeiro a manifestar publicamente - antes mesmo da posse do presidente Lula da Silva - a idéia de que a imprensa era assunto de interesse nacional.

** A partir dessa manifestação, considerada como sinal verde, o empresariado da mídia brasileira animou-se a apresentar um pleito formal junto ao BNDES para uma linha de crédito privilegiada.

** O ataque, desta vez, foi desfechado também contra o Ministério Público, que estaria mancomunado com a imprensa para a divulgação de suas investigações. Acontece que as entidades que representam o MP (a Conamp e a ANPR) pronta e briosamente contestaram as acusações do ministro José Dirceu (O Globo, segunda, 19/01, pág. 3). O mesmo, no entanto, não fizeram as entidades que representam a imprensa. Enfiaram o rabo entre as pernas..."


Com todo respeito que merece o Dines, o moço de Passa Quatro (MG) tido como bonitão na juventude e disputado nos bailinhos não é tudo isso, se fosse estaríamos funhanhados. Como o próprio presidente é mais um filhote órfão que se segura apenas nos blás, blás que iludem a plebe ignara. E aí deles se descumprem a cartilha. A um mineiro de Camanducaia o presidente Juscelino Kubitischeck certa vez afirmou;"o político manda quando é prefeito, manda menos como governador e como presidente não manda nada." Respondendo porque estava incentivando a construção de rodovias em detrimento das ferrovias e hidrovias. Um Carlos Lessa da vida não representa absolutamente nada, é apenas um boneco de ventríloquo.

Faz tempo que o conluio dos jornalões, emissoras de rádio e televisão estabeleceu-se para a manutenção da camarilha política no comando da administração pública onde chefes e subordinados garantem-se nos postos com super salários e regalias. O fenômeno desses caras de pau, com raríssimas exceções e guardadas as proporções, repete-se desde Brasília até as pequenas cidades do interior onde é muito difícil um jornal ou uma rádio que não leve uma grana da câmara municipal ou prefeitura. O dinheiro público é injetado na mídia que por sua vez convence o eleitorado a votar na camarilha. É a lei do me dá, me dá. O império jornalístico com fantásticos tentáculos aí está, fácil de ser identificado, pelo menos a meia dúzia que dá a cara para bater e divide o comando da comunicação no país via agências. Só o estouro da Globopar nos States ultrapassa um bilhão de dólares.

A distribuição das cartas marcadas das concessões dos canais de televisão e emissoras de rádio segue critérios estritamente políticos. À frente, o nome de algum governador, senador ou deputado e, se não for o caso, com facilidade, identificaremos um laranja a serviço de algum pilantra. É como a coisa vem funcionando, especialmente durante e após o Estado Novo do presidente-pigmeu. Aquele do "mar de lama". De lá para cá, fizeram de tudo, deitaram e rolaram, transformaram água em vinho, viraram intelectuais da Academia Brasileira de Letras com fardão bordado, chapéu de plumas e tudo mais. Entre eles, definiram quem era quem, os títulos, prêmios, merecimentos com direito a publicação no Globo, Estadão, Folha, Correio Brasiliense, JB, Zero Hora, no jornal do ACM, do Sarney e outros pais da pátria de norte a sul Brasil afora.

Mas, como não há mal que sempre dure, o teatrinho de marionetes tipo UDN x PSD desgastou-se, mesmo transformado em Arena, MDB, PDS, PMDB, PFL, PSDB, PRONA, PT,PSTU e outras na dança das siglas. As bundas e peitos, gugus, faustões, hebes, leões etc já não conseguem audiência, credibilidade e até o velho Roberto Marinho bateu as botas. A moçada da cobertura precisa encontrar novas fórmulas. Quem tem ânus tem medo! E viva a propagação da violência e a comercialização da "segurança", um produto obrigatório na terra onde a distribuição de renda nos morros e favelas é feita através do tráfico e do  jogo do bicho. E tome carnaval e futebol. Um incentivo ao crescimento dos esfarrapados que já somam setenta milhões, não é mole não. O bicho vai pegar bem antes do mar virar sertão, só não vê quem não quer. Outro dia presenciei uma conversa de dois garotos de uns oito anos:

- Seu pai já levou tiro?
- Não!
- O meu já, ficou com cego de um olho, eu é que não quero levar tiro...

Com certeza, preocupado, o supimpa comando do torrão verde-amarelo deve ter-se reunido na busca de uma solução rápida e alguém deve ter sugerido: "O melhor é utilizar a religião, ainda é algo em que o povo acredita, vamos trocar os apresentadores pelos representantes divinos e teremos tempo para segurar a bronca enquanto não aparece algo melhor".

Enquanto isso, a indústria do ensino ai está e precisa faturar. A da saúde idem e o brasileiro, no buraco, vai ficando ao "deus dará".
 

Ricardo Faria é jornalista em São José dos Campos (SP) [ricardo@vejasaojose.com.br]


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