A esquerda persistente
Dora Kramer, 27 de dezembro, 2003
E, de certa forma, por fora também, dada as esperanças desse grupo numa alteração de rumos provocada por pressão da sociedade. ''O governo, como se vê em recuos quanto a medidas de repercussão negativa, é um tanto midiático-plebiscitário. Os efeitos do desemprego, da violência e a crítica da academia e da imprensa o afetam'', argumenta Alencar, acrescentando que, além de tudo, não há unidade de pensamento no governo. ''As visões internas não são homogêneas, há Furlan (Luis Fernando, ministro do Desenvolvimento), e Lessa (Carlos, presidente do BNDES). Há Rodrigues (Roberto, ministro da Agricultura) e há Rosseto (Miguel, da Reforma Agrária).'' Para reforçar, o deputado cita um trecho do pronunciamento do ministro da Fazenda durante a última reunião do Diretório Nacional do PT, onde Antônio Palocci considera a estabilidade econômica apenas um ''pressuposto'' insuficiente para servir de base a um governo do PT. Na opinião de Chico Alencar, a intenção pode ter sido meramente discursiva, dada a contradição com as práticas em curso. Mas ele lembra que ''no PT, toda fala é cobrada e gera demanda, mesmo sendo uma satisfação à banda inquieta''. Quanto às expulsões, o deputado não as vê como divisor definitivo de uma fronteira, mas como ''alívio para áulicos inconseqüentes, vítimas da doença senil do governismo acrítico''. Entre os referidos áulicos, Alencar não inclui gente de peso no governo como José Dirceu, Marco Aurélio Garcia, Luiz Dulci e Tarso Genro. Todos presos de ''angústias'' e fiéis à tarefa de desafiar os descontentes para ''bom debate quanto a novos rumos''. Como massa crítica e instrumento de pressão, ele cita ainda os movimentos sociais, comunidades eclesiais de base, ''sindicatos livres'' e toda uma rede de vida alternativa - ''a seiva que inspirou o PT'' - à qual o governo não será, na opinião dele, insensível ''por mais pragmático e menos programático que esteja''. Deixar o partido nesse momento seria, por essa análise, uma precipitação. Chico Alencar acha que no caso dos intelectuais, esse tipo de posição é até ''democraticamente instigante''. Dos políticos, sejam eles militantes de base ou detentores de mandatos, ''exige-se mais cautela'', entre outros motivos ''porque não se abandona uma construção de um quarto de século em função dos impasses e incoerências de um quarto de governo''. Além de acreditar que ainda não há uma demanda social pela criação de um novo partido sério e com expressão eleitoral, Chico Alencar considera importante manter a sustentação ao governo Lula exercitando a inquietação, de modo a impedir a consolidação do continuísmo. ''Um fracasso levaria o povão a descrer na política como instrumento real de mudança de sua vida, a esquerda se desmoralizaria como alternativa de poder e o senso comum diria que, para manter tudo como está, é melhor ficar com o bloco conservador, dono do projeto original''. Entre as tarefas desse grupo estaria a defesa daquele projeto de governo petista anterior à ''Carta aos Brasileiros'', a reconstrução da bancada ''politizada, crítica, propositiva e não dispersa apertadora de botão'' e o debate de temas polêmicos como autonomia do Banco Central, reforma agrária e mudanças na legislação trabalhista. Ou seja, tudo o que o governo não quer. Na conclusão, o deputado lembra a existência de ''uma formalidade democrática''. Qual seja, a obrigatoriedade de o PT passar por um processo orgânico de revisão programática com a realização de um congresso, a partir da base. Só assim, pondera Chico Alencar, ''o PT pode abdicar em plenitude de seu ideário histórico e se transformar num partido social-liberal e de centro''. Caso isso venha a acontecer - e o debate já está marcado para ocorrer em 2005 num encontro nacional do partido -, aí sim o deputado considera que a esquerda poderá procurar um novo endereço. Enquanto isso, continuará reagindo à possibilidade de estatização do PT e trabalhando contra a imposição - sem revisão teórica amplamente discutida - da ''ética da responsabilidade governamental''. Um caminho, de acordo com o pensamento traduzido pelo deputado petista, de redução da história e da submissão do partido a um mandato presidencial.
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