"Otimismo exagerado" freia
juros
Lula abandona a política, se rende à farsa da economia ou macroeconomia. Helio Fernandes, Tribuna da Imprensa, 23 de janeiro, 2004
Os sinais de que a queda dos juros sofreria um golpe eram tão evidentes que ninguém, mas ninguém mesmo, saiu da previsão de aumento de meio por cento. Analistas respeitados, nos bastidores, falavam da manutenção em 16,5%, mas publicamente não diziam nada. Não se pode culpá-los. O risco era enorme. Dizer que não haveria queda dos juros, responsabilidade que ninguém queria ou poderia assumir. Um grande empresário, uma analista respeitado, um parlamentar com liderança comprovada, não poderia vir a público embalançar os alicerces e garantir: "Não haverá continuidade na queda dos juros, o Copom determinará paralisação por algum tempo". Se essas previsões-projeções não se confirmassem, os juros continuassem caindo, quem tivesse dito o contrário seria esquartejado em pleno Campo da Lampadosa. Portanto, houve dúvida, mas ninguém manifestou essa dúvida em público. Para que fique bem claro, não se alimente a euforia da "informação", não se diga "eu sabia" ou então "eu não disse, eu não disse?", a posição deste repórter. Captei todos os sinais emitidos das torres da mais deslavada subserviência, submissão ou servidão, mas em nenhum momento admiti até para mim mesmo que o governo tivesse a coragem e até a audácia de manter os juros nesse mesmo patamar da inconsciência, da dependência, da imprudência. Fechei o artigo e a coluna às 5 horas, como sempre faço diante do rigor do horário jornalístico. Não caminhei por esse terreno minado onde se reunia o Copom. Não arrisquei uma linha, contra ou a favor. Às 8 da noite, como quase todos, fui surpreendido pela decisão do governo. Foi um choque essa posição do Copom. Diga-se a bem da verdade: menos meio por cento "trazendo" os juros para 16% ou a manutenção em 16,5%, nenhuma importância fundamental. Importante e fundamental é o que isso representa. Na próxima reunião, esses juros podem ser elevados, como aconteceu no início do governo do próprio Lula, aí o desastre consumado embora não anunciado. 16 meses depois estamos quase no mesmo camarim ou camarote em que estava FHC. O senhor Horacio Lafer Piva, como empresário e como presidente da Fiesp, classificou a decisão do governo de "deletéria". Não é uma palavra da minha predileção, mas mesmo diante da dúvida da filologia tenho que combater essa perigosa satisfação pela macroeconomia. Haverá muita discussão sobre esse "meio por cento", e o que pode significar nos próximos tempos. Mas uma coisa é certa. O governo abandonou a POLÍTICA com a qual vinha trabalhando (vide acordos com o PMDB e outras legendas), se rendeu ao que chamam de MACROECONOMIA. PS - Para terminar por hoje, nada melhor do que citar Aristóteles: "Política é a arte de governar os povos". Desconhecido Aristóteles, se vivesse hoje não ganharia nenhum Nobel. PS 2 - De economia, política, macroeconomia. Como professor, intelectual ou pensador. Não tem nenhum PhD nem pertence ao "sistema". Na contramão da realidade O mundo reduz juros com medo da inflação, o Brasil "inventa". Helio Fernandes, Tribuna da Imprensa, 24 de janeiro, 2004
Economistas do FMI: "Estamos preocupados com a VALORIZAÇÃO DO EURO". Economistas do FMI: "Estamos preocupados com a DESVALORIZAÇÃO DO REAL". Economistas dos EUA: "Temos que baixar mais o juro por causa de uma possível alta da inflação". Economistas do Brasil, com notáveis ligações no FMI e no Consenso de Washington: "Temos que elevar mais os juros por causa de uma possível alta da inflação". Do economista Alan Greenspan, presidente do FED: "Para conter a inflação, não me preocupo em baixar mais os juros, posso colocá-lo até em zero". Do senhor Henrique Meirelles, presidente do Banco Central: "Não podemos ceder a esse otimismo exagerado, temos que aumentar mais os juros para combater a inflação". Por enquanto manteve esses juros em 16,5%. O maior do mundo, que orgulho. Fato: a China estava prevendo um aumento do PIB para 2003 em 7,8%. Foi de 9,8%. Crescimento de 2% a mais. Explicação: o consumo interno aumentou, a produção cresceu, o comércio também, elevando o PIB, colocando-o acima do esperado. Fato: no Brasil o PIB ficou abaixo do previsto, do esperado, do necessário. Foi de quase zero, correspondendo ao ano perdido. Explicação do Banco Central e do Ministério da Fazenda: "O consumo ameaçou aumentar, tivemos medo da inflação de demanda, puxamos o freio". E não reduziram os juros. O primeiro-ministro do Japão ocupou cadeia de rádio e televisão (anteontem), comunicou à população: "Acabou a recessão de 4 anos, vinha desde o ano 2000". E não teve dúvidas em confessar: "Obtivemos essa vitória com o aumento do consumo interno". Os juros lá estão em 1% ao ano. O nosso, 16 vezes e meia, acima. No Brasil, economistas que fizeram carreira nos mais diversos governos, e hoje ostentam "riquíssima riqueza" (isso não é redundância e sim advertência) em bancos privados, ameaçam a todos: "O consumo não pode crescer, esse consumo elevará a inflação de demanda, os preços irão lá pra cima". E aplaudem a "manutenção" dos juros. Impressionante. Todos os países sabem que a mola, a alavanca ou a plataforma do desenvolvimento tem que se basear no poder do consumidor interno. A exportação é necessária em alguns casos, como o do Brasil, subjugado penosamente pelos compromissos externos. Essa exportação pode ser necessária mas não indispensável. Já o consumo interno é necessário, indispensável, desejável e estimulável. Ora, são os órgãos oficiais e isentos que dizem: "O Brasil tem 80 milhões de pessoas (metade da população) nestas categorias. 1 - Desempregados.
Chega a ser vergonhoso, perigoso, calamitoso, pecaminoso e horroroso admitir publicamente que essa legião de miseráveis subitamente passe a comprar não se sabe com que recursos. Se passassem a comprar, seria a oitava maravilha. Pois é o consumidor que eleva a indústria, estimula o comércio, aumenta os serviços, diminui a inadimplência, produz o chamado círculo da prosperidade. O contrário é o círculo do empobrecimento, da miséria, da revolta surda, até que deixe de ser surda e ameace a todos com o barulho "ensurdecedor". PS - Não adianta espalharem e com bastante veracidade. "O presidente Lula não gostou da manutenção dos juros, esperava queda". O presidente não tem que esperar e sim determinar. Que alternância é essa num Poder que o presidente não exerce?
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