Olhar de animal assustado
Os estrangeiros enxergam e relatam lá fora nossas mazelas sociais – e não só elas, mas também certas pitorescas características nacionais – simplesmente porque seus olhos não se acomodaram aos descalabros que os nossos já encaram com naturalidade. Arthur Dapieve, 25 de janeiro, 2004, revista NoMínimo, original aqui


No último 31 de outubro, o quinteto de rock galês Super Furry Animals fez um belo show no TIM Festival, no Rio de Janeiro, numa noite que contou também com os americanos White Stripes e Rapture. A edição de fevereiro da revista inglesa “Q” – com a sensação meta-farofa metaleira The Darkness na capa – traz um relato da passagem da banda pelo Brasil, assinado por Michael Odell e fotografado por Jason Joyce.

O repórter abre sua matéria narrando o trajeto do Super Furry Animals, doravante abreviado para SFA, do Aeroporto Internacional Tom Jobim até o hotel. É assustador. A van é dirigida por um louco que corre demais (“Ele não deveria diminuir um pouco?”, pergunta-se, assustado, o vocalista Gruff Rhys. “E talvez usar as quatro rodas na hora de virar esquinas?”). Nas favelas do Complexo da Maré, crianças brincam perto de enormes porcos pretos fuçando excrementos. Mais adiante, duas mulheres brigam rolando no chão.

Em Copacabana, as casas melhoram, o policiamento melhora, as aparências melhoram, mas logo os membros da banda notam menores de idade sendo prostituídas nas ruas. A maior presença do policiamento não lhes serve de alívio, pois Odell sabe que “a polícia local matou 621 civis desarmados apenas na primeira metade de 2003” – o que a torna pior que os gângsters. “Eu me sinto um pouco como uma criança”, declara Rhys. “Você vê coisas que piram, que deixam sem fala. Quisera eu saber mais palavras de português.”

Ultrajante, não? Vêm esses gringos ao Brasil faturar nossa grana e, em troca, queimar nosso filme em suas terras. Onde estão a Prefeitura, o Governo Estadual e o Itamaraty que não se manifestam contra mais essa odiosa campanha para denegrir a pátria amada salve salve?

Esse seria o cacoete patriótico.

Acontece que, entre relatos da bizarra experiência do SFA no programa “Caldeirão do Huck”, do show no TIM festival e da recepção blasé que Rhys dá a fãs paulistas que lhe pedem para autografar uma bandeira do País de Gales, tudo isso é verdade. É assim mesmo quando se chega ao Rio, pelo Tom Jobim ou por uma das estradas. Pelo Aeroporto Santos Dumont ou pelo ancoradouro de transatlânticos é um pouco menos dramático, só isso. Há sim trânsito assassino, favelas em condições subumanas, prostituição infantil, polícia inconfiável. No Rio de Janeiro e em praticamente todas as outras cidades brasileiras.

Para azar dos patriotas, a banda de Rhys é muito consciente do entorno social. Seu único CD lançado no Brasil, por exemplo, “Phantom power”, traz faixas como a aparentemente doce “Hello sunshine”, que cospe sobre o primeiro-ministro britânico Tony Blair, chamado de desgraça para seu país. (Pausa para uma pequena digressão: é engraçado o modo como ingleses, galeses, escoceses e irlandeses do norte se relacionam com a idéia de “país” – conforme o contexto, por mais nacionalistas que sejam, seu país é o oficial, a Grã-Bretanha. Fim da pausa para pequena digressão.) “Phantom power” foi considerado o 16º melhor CD lançado lá por cima em 2003 por outra importante revista de música, a “Mojo”. Nada mal naquele mercadão com clima de farinha pouca, meu pirão primeiro.

Freqüentemente nos indignamos com o modo preconceituoso como os estrangeiros vêem nosso país, considerado “apenas pelo lado negativo”. Às vezes, ao contrário, parecemos mais sensíveis ao fichamento dos americanos nos aeroportos do que eles próprios, disciplinados (a não ser no caso de uma tripulação malandra-otária da American Airlines) em nome da segurança e da reciprocidade. Ou seja, no final das contas, talvez a gente sempre se preocupe com a nossa imagem no exterior pelas razões erradas.

Foi patético, por exemplo, quando anos atrás a Prefeitura do Rio começou a brigar com o seriado “Os Simpsons” por causa da visita da família amarelona. Dizia-se que o desenho animado inventava coisas, como a existência de macacos pelas ruas. Olha, não moro na Floresta Amazônica, moro em Laranjeiras, e todas as manhãs ouço os silvos dos miquinhos na vizinhança. Quando dou sorte, os vejo a brincar nos telhados vizinhos. Um privilégio.

Os estrangeiros enxergam e relatam lá fora nossas mazelas sociais – e não só elas, mas também certas pitorescas características nacionais – simplesmente porque seus olhos não se acomodaram aos descalabros que os nossos já encaram com naturalidade. O fato de os integrantes do SFA e a equipe da “Q” se aterrorizarem com o trânsito carioca (e, por extensão, o paulistano, o belo-horizontino etc.) é sintomático. Nos acostumamos a ainda ter, mesmo seis anos após a entrada em vigor de um bem-intencionado Código Nacional de Trânsito, cinco dígitos de mortos por ano: 35.000. Nos acostumamos às ruas e estradas serem retrato fiel da lei do mais forte que impera, em todos os níveis, na sociedade brasileira.

Cinco galeses e dois ingleses que nunca tinham estado no país, não. E, assim, têm os olhos bem abertos. Arregalados até. Quem dera fôssemos capaz de importar, além de produtos supérfluos, e não é este o caso dos discos do Super Furry Animals ou da revista “Q”, ao menos parte desse olhar ex-ótico e estranharmos o que nos é habitual.


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