Apenas 13 devolvem verba
de convocação
Agência
Folha, 20 de janeiro, 2004
Apenas 13 dos 513 deputados
vão devolver a primeira parcela dos R$ 25.440 que receberão,
além do salário de R$ 12.720, por trabalharem 20 dias úteis
em janeiro e fevereiro, período do recesso parlamentar. O prazo
para pedir a devolução do dinheiro acabou hoje. O restante
dos parlamentares tem até amanhã para doar a verba a alguma
instituição.
No início da convocação
extraordinária, os deputados recebem um salário extra como
´ajuda de custo" e no final do período recebem outro depósito
no mesmo valor, caso tenham comparecido a dois terços mais uma sessão,
ou seja, 15 dias. Na prática, porém, os deputados recebem
presença automática nas segundas e sextas-feiras, quando
não há votações, então eles só
precisam comparecer na Câmara sete dias da convocação.
Vão devolver os primeiros
R$ 12.720 os deputados: Orlando Desconsi (PT-RS), Henrique Fontana (PT-RS),
Tarcísio Zimmermann (PT-RS), Luciano Zica (PT-SP), Orlando Fantazzini
(PT-SP), Chico Alencar (PT-RJ), Antonio Carlos Biscaia (PT-RJ), Mauro Passos
(PT-SC), Dr. Rosinha (PT-PR), Walter Pinheiro (PT-BA), Paulo Rubem (PT-PE),
Fátima Bezerra (PT-RN) e João Alfredo (PT-CE). No Senado,
apenas uma em 81: a Senadora Serys Slhessarenko (MT), também do
PT.
O prazo para que os deputados
informem à Presidência da Câmara que não querem
receber acabou hoje porque essa é a data em que foi enviada a lista
de pagamento para o banco. O depósito será feito na sexta-feira.
Os parlamentares que quiserem doar a quantia para um projeto social ou
alguma instituição devem enviar o nome da entidade e o número
da conta bancária até amanhã à Presidência
da Casa.
Durante a convocação
extraordinária, doze deputados viajarão para o exterior em
missão oficial com passagens aéreas e diárias pagas
pela Câmara. Como estarão trabalhando, eles terão sua
presença registrada na Casa, o que lhes permitirá receber
os extras.
Esse é o caso do deputado
Barbosa Neto (PMDB-GO), que irá para a França, Espanha e
Alemanha conhecer o trem bala. O deputado Maurício Rands (PT-PE)
está na Universidade de Oxford dando palestras sobre ´As Reformas
Sociais do Governo Lula". Ele será o relator da PEC paralela na
CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) mas
só chega ao Brasil quinta.
Convocação
extra, abuso repetido
Lideranças do PT, 16 de janeiro,
2004
O extraordinário virou
ordinário e mais uma vez o Congresso Nacional é chamado a
trabalhar no recesso. Nenhum problema quanto ao trabalho, mas o que precisa
acabar de vez é essa indústria das convocações,
que valem para senadores e deputados dois salários adicionais, num
total de R$ 25 mil a mais por menos de um mês de labuta.
Fazendo o que é nosso
dever, um grupo de deputados (os senadores, como de hábito, estão
quietinhos), Chico Alencar (PT-RJ) e Walter Pinheiro (PT-BA) à frente,
está exigindo que se coloque na pauta deste período extraordinário
o projeto que reduz o recesso de 90 para 45 dias. Esses deputados, claro,
apesar de coerência andar um pouco fora de moda, não vão
receber essa grana, cobrando de todos os parlamentares que façam
o mesmo. Chico Alencar estava designado para ir ao Fórum Social
Mundial, na Índia, mas com esta convocação e estas
aberrações decidiu ficar aqui. Segunda-feira estará
em Brasília, na luta.
Cidadãos-contribuintes
se mobilizam
Neste sábado, às
15h, na Paróquia São José, em frente à estação
do Engenho de Dentro, Chico Alencar participa de um debate onde será
lançado um movimento pela redução do recesso parlamentar
e contra os jetons. Os organizadores recomendam que todos deixem, nos 0800
da Câmara (619619) e do Senado (612211), uma mensagem:
Sr. Congressista:
votem a diminuição do recesso e não embolsem os R$
25 mil extras, pois nós não somos bestas. Estamos de olho
e vamos nos lembrar na hora de votar!
Os aerogramas gratuitos "Escreva
ao Deputado", disponíveis nas agências de Correio, também
devem ser remetidos com este texto.
É um imperativo ético-político
que as entidades dos servidores, que cobram, com razão, a votação
imediata da PEC paralela da Previdência, assumam esta campanha contra
a super-remuneração dos congressistas, um acinte num país
com tantas carências.
Denunciar quem quer
manter essa situação e fazer dos seus mandatos um meio de
enriquecimento é dever da cidadania. Que tal os cartazes, agora
com os - representantes do povo - que não aceitam reduzir o recesso
e seus ganhos extraordinários?
O extraordinário virou
ordinário
Chico Alencar e Walter Pinheiro,
16 de janeiro, 2004
Indignação.
Este é o sentimento que toma conta do cidadão contribuinte
quando lê, mais uma vez, que senadores e deputados receberão
R$ 25 mil para trabalharem um mês durante o recesso parlamentar —
90 dias pela Constituição.
Vergonha. Este deveria ser
o sentimento de todos os representantes do povo que conservam algo que
o saudoso Norberto Bobbio destacava como essencial à democracia:
espírito público. Colocar o Congresso em funcionamento agora
custará aos cofres públicos cerca de R$ 50 milhões,
sendo 30% desta elevada soma só para pagamento dos jetons.
Não se trata de proclamar
demagogicamente que os legisladores devam receber salário-mínimo,
o que só favoreceria os ricos. A remuneração adequada
daqueles que se dedicam integralmente à atividade política,
mandatados pelo sufrágio universal, foi uma conquista histórica
da classe trabalhadora. Daí a se criar um estamento cercado por
privilégios e demasias vai enorme distância. Do tamanho, aliás,
daquela que separa a pessoa comum da mal chamada “classe política”...
Não por acaso o Congresso está com sua credibilidade bastante
abalada, segundo confirmam todas as pesquisas de opinião.
Sim, aparecerão aqueles
que, de forma voluntária e meritória, não aceitarão
o pagamento extra, provando que nem todos trabalham apenas por que ganham
reforço de caixa em ano eleitoral. Mas a questão precisa
ser resolvida definitiva e institucionalmente: as sucessivas convocações
extraordinárias, ano após ano, revelam que o Poder Legislativo
não comporta mais aqueles três meses sem atividade regular.
Os modernos meios de locomoção e comunicação,
ademais, asseguram uma relação contínua, semanal,
dos parlamentares com suas bases.
O extraordinário virou
ordinário: já se perde na memória do Congresso Nacional
um recesso integralmente cumprido. A remuneração adicional,
por outro lado, transformou-se em anomalia repudiada pelo bom senso mais
elementar.
Note-se o escândalo
neste país de carências: apenas nesta legislatura, os parlamentares
que não abrirem mão dos ganhos extraordinários de
agora terão recebido, em 1º de fevereiro, quando completarem
um ano de mandato, 19 contracheques de R$ 9.640 líquidos cada um...
A solução deste
problema, que desgasta o Congresso, é um imperativo ético-político
e está nas mãos dos presidentes do Senado e da Câmara.
Por óbvio, contará com a simpatia do Executivo, que convocou
o Parlamento.
José Sarney (Senado)
e João Paulo (Câmara) têm o dever de colocar na alentada
pauta do período extraordinário —- que certamente não
será cumprida de forma conclusiva — o projeto de emenda constitucional
produzido por uma comissão especial da Câmara, presidida pelo
deputado Orlando Desconsi (PT/RS) e relatada pelo deputado Isaías
Silvestre (PSB/MG). Ele estabelece um recesso anual de 45 dias; o jeton,
em caso de convocação nesse período, cai para uma
remuneração, ao invés das duas atuais.
Nenhuma austeridade espartana,
portanto. Trata-se de um projeto que busca o consenso para a aprovação,
de rápida tramitação, contra o qual nenhum líder
partidário haverá de se insurgir, apenas emendá-lo
para que, eventualmente, ele fique ainda melhor, escoimado de qualquer
regalia com o dinheiro público.
A indignação
de muitos e a vergonha de outros, ainda que nem tantos, há de tocar
os dirigentes daquele que é o Poder mais próximo da sociedade.
O Legislativo sabe que da população tem se pedido sacrifício
e compreensão para a penúria de recursos do Estado numa conjuntura
de desemprego crescente e aparelho público — único amparo
dos pobres — ainda desmantelado. E então fará a sua parte,
simples e objetiva, tornando o ano legislativo adequado às exigências
atuais e reduzindo os seus gastos. Será uma vitória da decência
e das instituições democráticas, ainda tão
frágeis em nossa República.
Chico
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