As brumas da guerra
Mario Sergio Conti, de Paris
NoMínimo, 17 de janeiro, 2004


“The fog of war” é uma autobiografia cinematográfica de Robert S. McNamara, o secretário de Defesa de John Kennedy e Lyndon Johnson. O documentário de Errol Morris deixa McNamara falar. Deixa que ele conte sua vida, se justifique, se explique, se questione, expie alguns de seus remorsos e quase se desculpe.

O longo depoimento de um dos guerreiros mais frios da guerra fria é entremeado com imagens de televisão e gravações inéditas, inclusive telefônicas, de presidentes americanos decidindo como matar mais e mais gente. As imagens não conflitam com – não tentam ironizar – o que McNamara diz e defende. Elas ilustram uma interpretação da história.

Errol Morris não é Michael Moore. Não é um diretor militante nem populista. É evidente a sua simpatia, senão com McNamara, com certos dilemas, com angústias que o ex-secretário de Defesa expõe. Ele não se distancia nem critica o que é narrado na tela. Seu filme pode até ser considerado condescendente com um homem que ajudou a matar centenas de milhares de pessoas.

Mas “As brumas da guerra” ultrapassa a condição de defesa da política do Império, feita por um dos seus artífices e operadores mais capazes. Ele é o filme americano mais assustador dos últimos tempos. Não há alienígenas, robôs, monstros pré-históricos, explosões formidáveis e fantasias de destruição em massa que possam ombrear com a frieza racional de Robert S. McNamara.

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Ele apresenta sua versão de três eventos momentosos do século passado: o bombardeio do Japão na Segunda Guerra Mundial, a crise dos mísseis de Cuba e a guerra do Vietnam. McNamara conta candidamente que apenas numa noite, a de 10 de março de 1945, bombardeios americanos mataram cem mil civis em Tóquio. Em poucos meses, durante o bombardeio de 67 cidades japonesas, morreram quase um milhão de pessoas. Isto antes das bombas atômicas serem jogadas em Hiroshima e Nagasaki.

McNamara racionaliza e, até certo ponto, justifica as mortes em massa. Mas reconhece que a destruição era completamente desproporcional às necessidade americanas para vencer os japoneses. E admite que, se os Estados Unidos fossem derrotados, ele e o general que comandou os bombardeios, Curtis LeMay, seriam considerados criminosos de guerra.

A interpretação que ele faz da crise dos mísseis é curta e cortante. Nações inteiras estiveram muito próximas de desaparecer. Por que então a guerra nuclear não começou? Por sorte, diz McNamara. E ele mesmo se assusta: Kennedy era um homem racional, Khrushchev era um homem racional, Fidel Castro era um homem racional; os três agiram racionalmente durante a crise e, precisamente por serem racionais, a lógica das suas ações levava à guerra. E ele pergunta: é justo que nações possam ser destruídas devido ao poder de um só homem?

A seção dedicada à guerra no Vietnam é a que contém mais mentiras. McNamara diz que só veio a entender a natureza do conflito, do ponto de vista vietnamita – a de uma guerra de libertação nacional – décadas depois. Ele dá a entender que era uma pomba disfarçada de falcão, um político que, vejam só, defendia a retirada das tropas americanas do Vietnam.

No final, “As brumas da guerra” cai na lengalenga da natureza humana: a humanidade está condenada à destruição porque o homem é intrinsecamente violento. É um ponto de vista que não se coaduna com nada do que foi mostrado antes: a política imperial em ação.

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“As brumas da guerra” assusta porque capta a normalidade da política imperial. O seu lançamento simultâneo à ocupação do Iraque e à “guerra contra o terror” serve para sublinhar a continuidade da política externa americana. Kennedy e Johnson foram presidentes democratas que agiram racionalmente. E, o filme deixa claro, agiram como bárbaros para defender os interesses americanos numa guerra que, ao fim e ao cabo, acabou em derrota. George W. Bush, caricaturizado como uma besta-fera, é igualzinho a eles.
 

Mario Sergio Conti é editor do NoMínimo [msconti@nominimo.ibest.com.br]


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