As brumas da guerra
Mario Sergio Conti, de Paris
O longo depoimento de um dos guerreiros mais frios da guerra fria é entremeado com imagens de televisão e gravações inéditas, inclusive telefônicas, de presidentes americanos decidindo como matar mais e mais gente. As imagens não conflitam com – não tentam ironizar – o que McNamara diz e defende. Elas ilustram uma interpretação da história. Errol Morris não é Michael Moore. Não é um diretor militante nem populista. É evidente a sua simpatia, senão com McNamara, com certos dilemas, com angústias que o ex-secretário de Defesa expõe. Ele não se distancia nem critica o que é narrado na tela. Seu filme pode até ser considerado condescendente com um homem que ajudou a matar centenas de milhares de pessoas. Mas “As brumas da guerra” ultrapassa a condição de defesa da política do Império, feita por um dos seus artífices e operadores mais capazes. Ele é o filme americano mais assustador dos últimos tempos. Não há alienígenas, robôs, monstros pré-históricos, explosões formidáveis e fantasias de destruição em massa que possam ombrear com a frieza racional de Robert S. McNamara. *** Ele apresenta sua versão de três eventos momentosos do século passado: o bombardeio do Japão na Segunda Guerra Mundial, a crise dos mísseis de Cuba e a guerra do Vietnam. McNamara conta candidamente que apenas numa noite, a de 10 de março de 1945, bombardeios americanos mataram cem mil civis em Tóquio. Em poucos meses, durante o bombardeio de 67 cidades japonesas, morreram quase um milhão de pessoas. Isto antes das bombas atômicas serem jogadas em Hiroshima e Nagasaki. McNamara racionaliza e, até certo ponto, justifica as mortes em massa. Mas reconhece que a destruição era completamente desproporcional às necessidade americanas para vencer os japoneses. E admite que, se os Estados Unidos fossem derrotados, ele e o general que comandou os bombardeios, Curtis LeMay, seriam considerados criminosos de guerra. A interpretação que ele faz da crise dos mísseis é curta e cortante. Nações inteiras estiveram muito próximas de desaparecer. Por que então a guerra nuclear não começou? Por sorte, diz McNamara. E ele mesmo se assusta: Kennedy era um homem racional, Khrushchev era um homem racional, Fidel Castro era um homem racional; os três agiram racionalmente durante a crise e, precisamente por serem racionais, a lógica das suas ações levava à guerra. E ele pergunta: é justo que nações possam ser destruídas devido ao poder de um só homem? A seção dedicada à guerra no Vietnam é a que contém mais mentiras. McNamara diz que só veio a entender a natureza do conflito, do ponto de vista vietnamita – a de uma guerra de libertação nacional – décadas depois. Ele dá a entender que era uma pomba disfarçada de falcão, um político que, vejam só, defendia a retirada das tropas americanas do Vietnam. No final, “As brumas da guerra” cai na lengalenga da natureza humana: a humanidade está condenada à destruição porque o homem é intrinsecamente violento. É um ponto de vista que não se coaduna com nada do que foi mostrado antes: a política imperial em ação. *** “As brumas da guerra” assusta
porque capta a normalidade da política imperial. O seu lançamento
simultâneo à ocupação do Iraque e à “guerra
contra o terror” serve para sublinhar a continuidade da política
externa americana. Kennedy e Johnson foram presidentes democratas que agiram
racionalmente. E, o filme deixa claro, agiram como bárbaros para
defender os interesses americanos numa guerra que, ao fim e ao cabo, acabou
em derrota. George W. Bush, caricaturizado como uma besta-fera, é
igualzinho a eles.
Mario Sergio Conti é editor do NoMínimo [msconti@nominimo.ibest.com.br]
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