Mentira
cresce: guerra era a obsessão de Bush
Argemiro
Ferreira, da Tribuna
da Imprensa, 12 de janeiro, 2004
Um
par de dias depois que o secretário de Estado Colin Powell reconheceu
não haver prova de ligação entre o regime de Saddam
Hussein e o terrorismo de Osama bin Laden, o ex-secretário do Tesouro
Paul O'Neill contou outra verdade até agora escondida: desde o primeiro
dia o governo Bush planejou o ataque ao Iraque, obcecado em arranjar qualquer
pretexto.
A entrevista
de O'Neill foi veiculada ontem à noite, no mais contundente programa
de jornalismo da TV americana, o "60 minutes", da rede CBS. Já estão
sendo feitas alegações na Casa Branca de que O'Neill fala
por mágoa, por ter sido praticamente demitido. Mas não é
só a entrevista. Além da palavra dele há todo o livro
do jornalista Ron Suskind, ganhador do prêmio Pulitzer no "Wall Street
Journal".
O ex-secretário
do Tesouro é a fonte principal de Suskind no livro "The price of
loyalty" (O preço da lealdade), mas o autor ainda recebeu dele 19
mil documentos internos e completou o material com centenas de entrevistas,
inclusive de vários integrantes do ministério de Bush. O
Iraque não é o único tema, apesar de ser o mais explosivo.
O livro penetra na cortina de sigilo do atual governo.
Aquela
desculpa esfarrapada
Outros
já se dedicaram ao objetivo de expor a teia de mentiras dos atuais
donos do poder para justificar a guerra do Iraque. Autoridades do governo
Bush, ouvidas sobre as declarações de O'Neill pelo "Washington
Post", voltaram à desculpa de que o plano para "mudar o regime"
do Iraque era, na verdade, do antecessor Bill Clinton, que adotara a decisão
ainda em 1998.
O que
ninguém se dá ao trabalho de acrescentar - nem as autoridades
do atual governo e nem a mídia que veicula as informações
- é que as decisões de Clinton na área da política
externa foram quase sistematicamente revertidas por Bush, que recuou no
acordo com a Coréia do Norte, no Protocolo de Kyoto, repeliu o papel
de mediação no Oriente Médio, reviveu o programa Guerra
nas Estrelas, etc.
O rumo
de Clinton foi amplamente ridicularizado pelos republicanos de Bush. Em
1998 - quando ele decidiu apoiar a mudança do regime no Iraque,
com plano para encorajar a oposição dentro e fora do país,
além de ações concretas contra a al-Qaeda de Osama
bin Laden -, a oposição republicana o comparou ao personagem
do filme "Wag the dog" [Mera Coincidência], insinuando que tentava
apenas desviar a atenção do caso Lewinsky.
"Me
descubram como fazer isso"
O'Neill
ficou chocado, conforme seu relato, já na primeira reunião
do Conselho de Segurança Nacional, ante a convicção
então manifestada por Bush, oito meses antes do 11 de setembro,
de que Saddam tinha de ser derrubado. "Não se perguntava `por que
Saddam?' ou `por que agora?'. Só queriam descobrir o jeito. Era
esse o tom, com o presidente dizendo `me descubram como fazer isso'".
Obviamente,
não havia como simplesmente atacar o Iraque, sem sequer um pretexto.
O ex-secretário do Tesouro, que também fez declarações
à revista "Time", chega a afirmar ali, textualmente, que nos 23
meses em que serviu ao governo não viu uma só prova de existência
de armas de destruição em massa no Iraque nas reuniões
do Conselho de Segurança Nacional.
Entre
documentos usados no livro de Suskind estão ainda transcrições
de reuniões do Conselho. Numa delas, só 10 dias depois da
posse, o Iraque já era tema central. O'Neill diz que, além
dele próprio, também o secretário Colin Powell (sobre
a Coréia do Norte) e a diretora da EPA (Agência de Meio-Ambiente)
Christine Todd Whitman (sobre o aquecimento global) foram publicamente
desautorizados pelo presidente.
Só
Powell permanece. O'Neill acha que, sendo menos ideológicos, os
três serviam um pouco como vitrine para o governo. Powell sofreu
processo sistemático de desgaste desde o início. A linha
dura usava abertamente o 11 de setembro para forçar a guerra, mas
Powell resistia. Dick Cheney foi a extremos de leviandade sobre a ligação
de Saddam com Bin Laden, Powell negou enquanto pôde.
O
haraquiri de Colin Powell
Foi
certamente esse detalhe, num momento em que o país estava cético
sobre os pretextos de Cheney e seus falcões Donald Rumsfeld e Paul
Wolfowitz, que levou Bush a forçar a apresentação
de Powell perante o Conselho de Segurança da ONU. Foi a rendição
final. Ali, a 5 de fevereiro de 2003, o secretário de Estado praticou
seu haraquiri melancólico. Repetiu como papagaio argumentos nos
quais não acreditava.
O próprio
Powell confessou na última semana não haver prova real de
ligação de Saddam e Bin Laden - uma das coisas que dissera
naquele dia. Quando reconhecerá o resto? São fraudes ainda:
1. documento britânico citado por ele então como sério
(boa parte vinha da internet); 2. versão de que tubos de alumínios
destinavam-se a armas nucleares; 3. tradução forjada de fitas
gravadas de conversas no Iraque.
Essa
última fraude, que Powell terá de reconhecer um dia, levou
o jornalista Gilbert Cranberg a publicar denúncia contundente, dias
depois, no diário "The Des Moines Register". Desde então
cobra a verdade inutilmente do Departamento de Estado, que torceu a tradução,
para significar algo diferente do original árabe - escândalo
tão grave que já justifica capítulo especial nos manuais
de jornalismo.
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