Falência da lei
Mauro Braga, Tribuna da Imprensa
26 de janeiro, 2004


Para atender a uma exigência expressa do Fundo Monetário Internacional, reforçada pelo lobby montado pela Federação Brasileira das Associações de Bancos (Febraban) e conduzido pelo presidente do Banco Central em pessoa, Henrique Meirelles, um dos itens da pauta da convocação extra do Congresso é a reforma da Lei de Falências.

Submetida a pressões de toda sorte, no ano passado a Câmara acabou aprovando o projeto sem debatê-lo com a profundidade necessária. Ou seja, ao invés de consagrar o anteprojeto original, redigido pelos maiores especialistas do País, tendo à frente o jurista Alfredo Bumachar, os deputados aceitaram o substitutivo do relator, Osvaldo Biolchi (PMDB-RS), que por duas vezes admitiu publicamente não ter tido condições de resistir ao lobby dos banqueiros.

O texto aprovado na Câmara contém dispositivos verdadeiramente discricionários, redigidos de forma a beneficiar as instituições financeiras. Na condição de maiores credores, os bancos pretendem passar a administrar a seu bel prazer as empresas em dificuldades, caso o Senado confirme o texto aprovado na Câmara. Se isso acontecer, não teremos uma nova Lei de Falências, mas a própria falência da lei.

Batendo cabeça
É impressionante que um assunto de tamanha gravidade esteja passando despercebido ao Ministério da Justiça, à Advocacia-Geral da União e à Casa Civil da Presidência, onde ninguém tem a real noção do que significa a nova versão da reforma da Lei de Falências. Esse fato mostra que ainda continua valendo o comentário do presidente da Câmara, João Paulo Cunha (PT-SP), feito no início da gestão de Lula, quando disse que o governo estava batendo cabeça. Ainda está.

Relator I
A pretensão do FMI e da Febraban vai morrer na beira da praia. O senador Ramez Tebet (PMDB-MS), presidente da Comissão de Assuntos Econômicos, avocou a si a função de relatar a reforma da Lei de Falências e não admite se curvar às pressões.

"Pretendo analisar esse projeto com toda a calma e com toda a ponderação, de tal forma que o Senado exercite o seu papel realmente revisor ", disse Tebet, acrescentando ter convicção de que o projeto será alterado pelos senadores.

Relator II
Em outras palavras, não há a menor condição de a reforma da Lei da Falências ser aprovada na convocação extraordinária, pois o senador Ramez Tebet deixou claro que vai ouvir os maiores especialistas do País, entre eles o jurista Alfredo Bumachar, conselheiro federal da OAB, que presidiu a comissão de notáveis encarregada de redigir o anteprojeto original. Bumachar vai colocar as coisas em seu devido lugar.


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