Uma pesquisa macabra
Luitgarde O. Cavalcanti Barros
Tantas vezes, nesses meus 62 anos vividos, vi gente esquálida na morte lenta pela fome, que indaguei quando fizera a última refeição. Às 10 da manhã comera um salgadinho com refresco. Entre a vergonha, a indignação e o enternecimento, ordenei-lhe o único remédio, já que as colegas tinham-lhe dado sal para arrancá-la da palidez gelada típica da queda de pressão: vamos comer alguma coisa quente e nutritiva. Ali estava o discurso demagogicamente científico de políticos, intelectuais, lideranças empresariais, enfim, de governantes deste país que sabem e mostram que os ricos estão nas universidades públicas e os pobres, nas particulares. Ali estava o resultado de anos de assaltos governamentais às políticas populistas na tentativa de destruir o que é classificado hoje como privilégios dos ricos - as instituições públicas de ensino. No nono andar do Bloco João Lira Filho só se produzem professores e assistentes sociais. Apenas gente especializada em cuidar de povo pobre - rejeito das políticas de desenvolvimento elaboradas por especialistas regiamente pagos, com impostos escorchantes sobre os salários, para nos representar e governar. Em silêncio, respeitando a vergonha profunda e digna de quem sai de casa com o vale ou dinheiro da passagem e mais um salgado com refresco, olhava os contornos excessivamente ossudos de uma quase criança na marcha pela vida, pelo engrandecimento do país! - não é assim que os políticos falam em campanha? Caminhei o longo corredor até a cantina, açoitada pelo artigo do economista e suas certezas estatísticas, os discursos inflamados de senadores, deputados, vereadores, prefeitos, governadores e presidentes eleitos pelo povo, contra o povo - cortando verbas da educação e da saúde para aplicarem, com mais justiça, nas áreas sociais. Que pesquisa de campo macabra! Gramsci escreveu num cárcere de Mussolini, preso com companheiros de luta, algo significando: na prisão afloram no homem suas reações mais baixas. Os camponeses resistem muito se segurando na defesa de seus princípios; os operários resistem menos. Mas os intelectuais - como eles são fracos! Tomo a liberdade de acrescentar a suas palavras, outra categoria: mas entre os que chegam ao poder, como tantos se tornam criminosos! Quantos morrem de canetadas publicadas no Diário Oficial dos municípios, Estados e Federação? As estatísticas mostram? Como naquela jovem, a morte por políticas públicas deletérias é lenta, gradual e não deixa provas para instrumentalizar sequer crime de responsabilidade. Recorro à voz de Castro Alves, estudante morto pela tuberculose antes dos 24 anos de idade: Senhor Deus dos desgraçados, onde estás? Senhores governantes, até
quando o povo brasileiro será punido por tê-los eleito?
Luitgarde O. Cavalcanti Barros é antropóloga.
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