Anos Rebeldes chega ao DVD
Bruno Ribeiro [brsamba@yahoo.com.br]
Consciência.Net, 20 de janeiro, 2004


E se o golpe militar de 64 não tivesse acontecido? E se a revolução sexual não estourasse? E se não houvesse um mundo dividido em direita e esquerda? E se rótulos como alienado, engajado, revolucionário e reacionário jamais tivessem tido peso? E se os hippies não começassem a usar calças jeans? E se a individualista Maria Lúcia jamais se apaixonasse pelo idealista João Alfredo? E se a doce burguesa Heloísa não partisse para a luta armada? E se uma certa minissérie não fosse exibida em 1992, no momento em que os estudantes pintavam a cara para pedir o impeachment do presidente Fernando Collor? Os caminhos para as respostas de tais perguntas estão na minissérie Anos Rebeldes, que acaba de ganhar uma brilhante adaptação para DVD, lançado pela Som Livre.

Produzida e exibida pela Rede Globo, no início da década de 90, Anos Rebeldes é um marco na história da TV brasileira. Escrita por Gilberto Braga e dirigida por Denis Carvalho, a trama trazia no elenco Cássio Gabus Mendes, Malu Mader e Cláudia Abreu em atuações memoráveis e mereceu todos os elogios que lhe foram feitos. Poucas minisséries tiveram uma trilha sonora tão marcante, composta por canções emblemáticas dos anos 60 e 70 – Alegria, Alegria, de Caetano Veloso, escolhida como o tema de abertura, se tornaria, quinze anos mais tarde, um hino das manifestações estudantis contra o governo Collor.

O reconhecimento à influência exercida pela minissérie na vida nacional veio uma década depois. Ainda que não tenha merecido uma análise mais atenta dos sociólogos de plantão, Anos Rebeldes ofereceu referências à uma geração que, naquele momento, estava começando a namorar e a se interessar por política. A declaração de Jorge Bornhausen, líder do governo na ocasião, ilustra muito bem o grau de penetração da minissérie entre a juventude brasileira: "Roberto Marinho acaba de dar um tiro no próprio pé", teria dito, não sem alguma razão.

Nada do que a Rede Globo produziu até hoje se compara a Anos Rebeldes, minissérie com linguagem televisiva, mas construída com a fotografia e o olhar do cineasta Silvio Tendler, responsável pelas vinhetas semi-documentais que misturavam imagens da época com cenas de ficção rodadas em preto-e-branco. Realidade e novela dialogam a todo momento. Os personagens participam da missa ao estudante Edson Luiz, freqüentam o Zicartola e o Teatro Opinião, assistem a chegada do homem à lua e vão ao cinema ver filmes de Godard e Glauber Rocha. O personagem Queiróz (Carlos Zara) é uma clara referência ao editor Enio Silveira, da Civilização Brasileira. Destacou-se também o elenco escolhido a dedo, os textos inteligentes e, sobretudo, o modo como o tema da luta armada foi tratado. Sem julgamentos morais, a condução da trama destoava da linha geralmente conservadora da emissora.

Nas palavras do deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ), uma das mais importantes lideranças estudantis na época do Fora Collor, a minissérie pautou o imaginário da juventude militante daquele período: "A série lançou o tema do romantismo na luta contra a ditadura e nós soubemos aproveitar; na primeira passeata escrevemos numa faixa: Anos Rebeldes. Próximo capítulo: Impeachment. E nós íamos com esse discurso para as salas de aula. Os personagens do Cássio Gabus e da Cláudia Abreu viraram ícones daquela geração. Nos discursos, seus personagens eram citados como exemplos. Eu não tenho problema em dizer que aquela minissérie ajudou o movimento a ganhar força e espaço".

Não por coincidência Anos Rebeldes surgiu justamente quando aquele que deveria ser o líder natural do processo democrático – o primeiro presidente da República eleito por voto direto após 33 anos, Fernando Collor de Mello –, se revelou uma enorme farsa. Para as lideranças da época, a minissérie ajudou a trazer os jovens para as ruas durante as passeatas contra o governo. É evidente que a insatisfação já existia e que uma pressão social aconteceria de qualquer maneira; mas também é certo que muitos jovens, conforme afirma Lindbergh, passaram a rejeitar o rótulo de alienados, numa atitude nitidamente inspirada no protagonista João Alfredo. "As palavras engajado e alienado, que até então estavam datadas, voltaram a fazer sentido e a dividir os estudantes". Tal envolvimento conseguiu até mesmo transformar numa minoria silenciosa os admiradores de Maria Lúcia, a namorada egoísta do "herói".

O próprio autor Gilberto Braga, surpreendeu-se com a repercussão: "Fiquei surpreso com a magnitude alcançada pelo personagem João, porque a maioria das pessoas leva uma vida como a da Maria Lúcia; eu achava que a maioria das pessoas iria se identificar com os problemas dela, mas, no entanto, o público acabou ficando ao lado do idealista, que abandonou tudo para tentar mudar o mundo com as próprias mãos", disse.

A trama em Anos Rebeldes se desenrola entre 1964 – ano do golpe militar – e 1979/80, ano da abertura política e do retorno dos exilados ao Brasil. É dividida em três momentos distintos: Anos Inocentes (época das turmas e dos namoros de colégio, no início do golpe), Anos Rebeldes (quando começam as prisões e torturas) e Anos de Chumbo (quando, após o AI-5, uma parcela da população decide cair na clandestinidade e adotar a luta armada como bandeira).

Os protagonistas são João Alfredo (Cássio Gabus Mendes) e Maria Lúcia (Malu Mader), que estudam juntos no Colégio Pedro II, no Rio, e se apaixonam, apesar da diferença ideológica que os separam. É então que a minissérie passa a falar sobre a importância das escolhas que temos de tomar ao longo da vida. Do primeiro ao último capítulo, em diversas situações, João Alfredo é levado a optar entre seu idealismo e uma vida tranqüila e convencional ao lado da mulher amada. Maria Lúcia, a menina individualista cujo maior sonho é ter um quarto onde possa se trancar, não abre mão de seu mundo; e tampouco João, que vai preferir a luta até o final. Mesmo depois de terminada a ditadura.

Recheada com diálogos fortes e elaborados, misturando ficção e História, Anos Rebeldes é uma minissérie densa para os padrões globais. Há mais choro do que riso e não há final feliz. Pelo menos não o final feliz que se espera de uma série feita para a televisão. A mensagem que encerra a última cena – a personagem de Malu Mader aos prantos e de costas para o sol radiante que entra pela janela do quarto –, é a de que a falta de um ideal conduz ao vazio existencial; e que o sonho, por mais utópico que seja, promove o encontro do homem consigo mesmo, tirando-o da mesmice e alçando-o á uma condição imaginária de perfeição. Embora não tenha conseguido mudar a ordem estabelecida, João, ao final, mantém sua integridade e pureza intactas, em meio a amigos que venderam a alma em troca de dinheiro e status.

Heloísa (Cláudia Abreu), a menina rica que entra para a luta armada, é responsável pela cena inesquecível da minissérie – a de sua morte, metralhada numa batida policial. "Eu sempre quis morrer como Che Guevara, lutando por uma causa; e, de certa forma, pude me realizar vivendo a Heloísa, que acabou se tornando uma heroína daquela geração. As pessoas me paravam na rua e me cobravam uma postura política como a da personagem", lembra a atriz.

Seu discurso, tentando explicar o Brasil para o embaixador da Suíça seqüestrado, também é memorável. Ao fazer uma original alusão entre o país e a Casa Turuna, famosa loja carioca especializada em fantasias de carnaval, chega a uma conclusão poética e realista: este é um país que só sobrevive graças à ilusão.

O elenco de Anos Rebeldes contou ainda com Pedro Cardoso, Marcelo Serrado, Gianfrancesco Guarnieri, Bete Mendes, Geraldo Del Rey, Norma Blum, Francisco Milani, Débora Evelyn, José Wilker, Bete Lago e Kadu Moliterno, entre outros.

Sobre a atualidade da minissérie comentou o jornalista Zuenir Ventura, autor de 1968, O Ano que não Terminou, livro que inspirou a criação do roteiro: "Anos Rebeldes conseguiu devolver o valor essencial daquele momento, que é a paixão. E acho que a grande atualidade da série, principalmente para os jovens, é mostrar que a política pode ser ética". O DVD triplo tem 680 minutos de duração e custa, em média, R$ 110. 

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