Anos Rebeldes chega ao DVD
Bruno Ribeiro [brsamba@yahoo.com.br]
Produzida e exibida pela Rede Globo, no início da década de 90, Anos Rebeldes é um marco na história da TV brasileira. Escrita por Gilberto Braga e dirigida por Denis Carvalho, a trama trazia no elenco Cássio Gabus Mendes, Malu Mader e Cláudia Abreu em atuações memoráveis e mereceu todos os elogios que lhe foram feitos. Poucas minisséries tiveram uma trilha sonora tão marcante, composta por canções emblemáticas dos anos 60 e 70 – Alegria, Alegria, de Caetano Veloso, escolhida como o tema de abertura, se tornaria, quinze anos mais tarde, um hino das manifestações estudantis contra o governo Collor. O reconhecimento à influência exercida pela minissérie na vida nacional veio uma década depois. Ainda que não tenha merecido uma análise mais atenta dos sociólogos de plantão, Anos Rebeldes ofereceu referências à uma geração que, naquele momento, estava começando a namorar e a se interessar por política. A declaração de Jorge Bornhausen, líder do governo na ocasião, ilustra muito bem o grau de penetração da minissérie entre a juventude brasileira: "Roberto Marinho acaba de dar um tiro no próprio pé", teria dito, não sem alguma razão. Nada do que a Rede Globo produziu até hoje se compara a Anos Rebeldes, minissérie com linguagem televisiva, mas construída com a fotografia e o olhar do cineasta Silvio Tendler, responsável pelas vinhetas semi-documentais que misturavam imagens da época com cenas de ficção rodadas em preto-e-branco. Realidade e novela dialogam a todo momento. Os personagens participam da missa ao estudante Edson Luiz, freqüentam o Zicartola e o Teatro Opinião, assistem a chegada do homem à lua e vão ao cinema ver filmes de Godard e Glauber Rocha. O personagem Queiróz (Carlos Zara) é uma clara referência ao editor Enio Silveira, da Civilização Brasileira. Destacou-se também o elenco escolhido a dedo, os textos inteligentes e, sobretudo, o modo como o tema da luta armada foi tratado. Sem julgamentos morais, a condução da trama destoava da linha geralmente conservadora da emissora. Nas palavras do deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ), uma das mais importantes lideranças estudantis na época do Fora Collor, a minissérie pautou o imaginário da juventude militante daquele período: "A série lançou o tema do romantismo na luta contra a ditadura e nós soubemos aproveitar; na primeira passeata escrevemos numa faixa: Anos Rebeldes. Próximo capítulo: Impeachment. E nós íamos com esse discurso para as salas de aula. Os personagens do Cássio Gabus e da Cláudia Abreu viraram ícones daquela geração. Nos discursos, seus personagens eram citados como exemplos. Eu não tenho problema em dizer que aquela minissérie ajudou o movimento a ganhar força e espaço". Não por coincidência Anos Rebeldes surgiu justamente quando aquele que deveria ser o líder natural do processo democrático – o primeiro presidente da República eleito por voto direto após 33 anos, Fernando Collor de Mello –, se revelou uma enorme farsa. Para as lideranças da época, a minissérie ajudou a trazer os jovens para as ruas durante as passeatas contra o governo. É evidente que a insatisfação já existia e que uma pressão social aconteceria de qualquer maneira; mas também é certo que muitos jovens, conforme afirma Lindbergh, passaram a rejeitar o rótulo de alienados, numa atitude nitidamente inspirada no protagonista João Alfredo. "As palavras engajado e alienado, que até então estavam datadas, voltaram a fazer sentido e a dividir os estudantes". Tal envolvimento conseguiu até mesmo transformar numa minoria silenciosa os admiradores de Maria Lúcia, a namorada egoísta do "herói". O próprio autor Gilberto Braga, surpreendeu-se com a repercussão: "Fiquei surpreso com a magnitude alcançada pelo personagem João, porque a maioria das pessoas leva uma vida como a da Maria Lúcia; eu achava que a maioria das pessoas iria se identificar com os problemas dela, mas, no entanto, o público acabou ficando ao lado do idealista, que abandonou tudo para tentar mudar o mundo com as próprias mãos", disse. A trama em Anos Rebeldes se desenrola entre 1964 – ano do golpe militar – e 1979/80, ano da abertura política e do retorno dos exilados ao Brasil. É dividida em três momentos distintos: Anos Inocentes (época das turmas e dos namoros de colégio, no início do golpe), Anos Rebeldes (quando começam as prisões e torturas) e Anos de Chumbo (quando, após o AI-5, uma parcela da população decide cair na clandestinidade e adotar a luta armada como bandeira). Os protagonistas são João Alfredo (Cássio Gabus Mendes) e Maria Lúcia (Malu Mader), que estudam juntos no Colégio Pedro II, no Rio, e se apaixonam, apesar da diferença ideológica que os separam. É então que a minissérie passa a falar sobre a importância das escolhas que temos de tomar ao longo da vida. Do primeiro ao último capítulo, em diversas situações, João Alfredo é levado a optar entre seu idealismo e uma vida tranqüila e convencional ao lado da mulher amada. Maria Lúcia, a menina individualista cujo maior sonho é ter um quarto onde possa se trancar, não abre mão de seu mundo; e tampouco João, que vai preferir a luta até o final. Mesmo depois de terminada a ditadura. Recheada com diálogos fortes e elaborados, misturando ficção e História, Anos Rebeldes é uma minissérie densa para os padrões globais. Há mais choro do que riso e não há final feliz. Pelo menos não o final feliz que se espera de uma série feita para a televisão. A mensagem que encerra a última cena – a personagem de Malu Mader aos prantos e de costas para o sol radiante que entra pela janela do quarto –, é a de que a falta de um ideal conduz ao vazio existencial; e que o sonho, por mais utópico que seja, promove o encontro do homem consigo mesmo, tirando-o da mesmice e alçando-o á uma condição imaginária de perfeição. Embora não tenha conseguido mudar a ordem estabelecida, João, ao final, mantém sua integridade e pureza intactas, em meio a amigos que venderam a alma em troca de dinheiro e status. Heloísa (Cláudia Abreu), a menina rica que entra para a luta armada, é responsável pela cena inesquecível da minissérie – a de sua morte, metralhada numa batida policial. "Eu sempre quis morrer como Che Guevara, lutando por uma causa; e, de certa forma, pude me realizar vivendo a Heloísa, que acabou se tornando uma heroína daquela geração. As pessoas me paravam na rua e me cobravam uma postura política como a da personagem", lembra a atriz. Seu discurso, tentando explicar o Brasil para o embaixador da Suíça seqüestrado, também é memorável. Ao fazer uma original alusão entre o país e a Casa Turuna, famosa loja carioca especializada em fantasias de carnaval, chega a uma conclusão poética e realista: este é um país que só sobrevive graças à ilusão. O elenco de Anos Rebeldes contou ainda com Pedro Cardoso, Marcelo Serrado, Gianfrancesco Guarnieri, Bete Mendes, Geraldo Del Rey, Norma Blum, Francisco Milani, Débora Evelyn, José Wilker, Bete Lago e Kadu Moliterno, entre outros. Sobre a atualidade da minissérie comentou o jornalista Zuenir Ventura, autor de 1968, O Ano que não Terminou, livro que inspirou a criação do roteiro: "Anos Rebeldes conseguiu devolver o valor essencial daquele momento, que é a paixão. E acho que a grande atualidade da série, principalmente para os jovens, é mostrar que a política pode ser ética". O DVD triplo tem 680 minutos de duração e custa, em média, R$ 110. Saiba mais sobre Bruno Ribeiro
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