Também somos o que comemos, por Mylton Severiano
1. Aperitivo

Eu sou da terra do vatapá
Muqueca, sinhô!
Muqueca, sinhá!
(Trecho de lundu da revista musical Bendegó, de J. A. Pinto, que, celebrando a mulata, fez sucesso nos salões em 1888.)

2. Entrada
    Dia 19 de abril de 2000, às 10 da manhã, uma bomba explodiu na lanchonete McDonald’s da cidade francesa de Dinan, matando um funcionário. Atentados contra McDonald’s vêm se tornando comuns. Você não acha curioso? McDonald’s é uma cadeia de lojas de alimentação que vende lanches gordurosos, de alto teor calórico, sem fibras; é americana. Até aí, tudo normal; antiamericanismo está na moda de novo. Mas por que não atacam um banco americano, por exemplo, e sim uma loja de comida?

3. Prato principal
    Vamos voltar 106 anos atrás, 5 de fevereiro de 1895, 4 da madrugada em Milão. Carlos Gomes, saudoso da pátria, sentindo findar-se a vida, escreve para casa, comunicando que vai voltar e como quer ser recebido. Emocionante. Leia, com a grafia original: "Preparem um quitute levado do diabo; não se esqueçam do revirado, paçoca, pirão, cambuquira, picadinho, quibebe, cuscus de guaraguaru e lambary do Tamanduatahy, caranguejos, pipóca, quingonbô, canjica, mingao de araruta. Içá, tanajura, cará, mandioca, angu de fubá, camarão com palmito, ropa velha com malagueta (ahi!). No fim a garapa, rapadura, pé de muleque, cocada, torrada, mandoby e mangaritos, batata doce." Só faltou feijoada porque ainda não era prato nacional, mas não esqueceu a mandioca velha de guerra. São conhecidas as lendas indígenas sobre sua origem. Ora é a menina desprezada pelo pai que pede à mãe para enterrá-la e, assim, ser útil à sua gente, renascendo do chão na forma da planta comestível; ora é o veado a salvar da morte o peixe bagadu, que o presenteia com segredo guardado no fundo do rio: mudas de mandioca, divididas com os humanos.
    Portugal nosso avozinho e África nossa avozinha logo se adaptaram à alimentação dos índios – o "pão brasileiro". Ora veja que agora o deputado federal Aldo Rebelo (PC do B-SP), depois de causar polêmica com projeto em defesa da língua "brasileira", propõe adicionar farinha de mandioca ao pão de padaria. Diz que já fizeram os testes, e que o novo pão brasileiro ficou mais gostoso ainda.

4. Sobremesa
    Devemos defender nossa culinária como se fosse nosso próprio território. Romanos diziam "onde se falar latim, aí estará Roma". Americanos podem dizer "onde se comer um big-mac, aí estarão os Estados Unidos". Eis uma explicação para os atentados contra McDonald’s. Comida: símbolo nacional mais forte que bandeira ou moeda.

Mylton Severiano é jornalista

Fonte: Caros Amigos
 


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