Da Revista Época
Martha Mendonça,
do Rio
Numa crítica à intenção do presidente George W. Bush de invadir o Iraque, a cantora e militante do Partido Democrata Barbra Streisand fez um discurso em Washington do qual teve de se retratar. Ela citou um texto, que atribuiu ao dramaturgo inglês William Shakespeare, sobre os equívocos de um líder incapaz de 'mensurar o direito dos cidadãos'. Acontece que Shakespeare jamais escreveu tais palavras. No dia seguinte, diante da polêmica nos jornais, a cantora se desculpou: ela havia lido o trecho na internet e acreditara que fazia parte da peça Júlio César.
Não seria justo crucificá-la. Todos os dias circulam em sites e e-mails textos atribuídos erroneamente de propósito ou não a autores famosos. Entre os escritores brasileiros, o cineasta e colunista Arnaldo Jabor já se acostumou à contrafação. Com freqüência, é dele a falsa assinatura de textos agressivos que correm pela rede ofendendo celebridades. O último alvo foi a apresentadora Adriane Galisteu. O ex-big brother Kleber Bam Bam também teria sido criticado por Jabor. Tudo invenção. 'Procuram imitar meu estilo, mas são maniqueístas', diz Jabor, que usa suas colunas publicadas pelos jornais O Globo e O Estado de S. Paulo para desmentir as lorotas. Luis Fernando Verissimo é outra vítima dos piratas da internet. 'Fiquei mal com os goianos depois que um texto com meu nome circulou por aí criticando a música sertaneja e tudo o que vinha de Goiás. Houve outro, sobre dor de barriga, escatológico mas inofensivo', diz.
A escritora e poeta gaúcha Martha Medeiros sofre com outro tipo de equívoco. Muitos textos seus têm saído na internet com a assinatura de importantes nomes da literatura. Sua crônica 'Felicidade Realista' foi atribuída a Mario Quintana. Só quem não conhece o estilo do falecido poeta acredita na farsa, pois o texto traz termos atuais, como 'corpos sarados' e 'spa cinco-estrelas'. Outra crônica de Martha, 'A Morte Devagar', ganhou a rubrica do chileno Pablo Neruda. 'Poderia ficar lisonjeada, mas é um absurdo', diz ela.
Algumas histórias já se tornaram clássicas. Há dois anos, uma enxurrada de e-mails se alastrou pela América Latina dando conta de um adeus do escritor colombiano Gabriel García Márquez. Sofrendo de câncer, o autor de Cem Anos de Solidão despedia-se da vida enumerando as últimas máximas sobre a existência humana. Muita gente chorou. Mas Gabo, Nobel de Literatura de 1982, está vivinho da silva até hoje apesar do câncer. Chegou a convocar a imprensa para negar a autoria. 'O que pode me matar não é o câncer, mas a vergonha de que alguém acredite que eu escrevi algo tão cafona.'
Alguns textos, como o atribuído a García Márquez, são crueldade pura, como os boatos e fofocas convencionais. Outros seguem a linha de auto-ajuda. Com isso, passam de mão em mão ou de tela em tela rapidamente. Recentemente, um e-mail supostamente escrito pela atriz Patrícia Pillar informava que ela fora vítima de um erro de diagnóstico e descobriu o câncer de mama tardiamente. O e-mail, na verdade, era um texto truncado de outra vítima da doença, que escrevera comentários sobre uma entrevista de Patrícia.
Autores anônimos assinam seus textos com nomes famosos para dar peso e credibilidade à divulgação. A quantidade de informação que circula na rede é gigantesca e o aval de uma celebridade é garantia de leitura. Segundo o Departamento de Energia dos Estados Unidos, que tem técnicos especializados em estudar a boataria na internet (em especial assuntos sobre vírus), se cada pessoa repassar um e-mail falso a dez outras, em questão de minutos pode-se chegar a 1 milhão de trotes na rede. E a internet todo mundo sabe é terra de ninguém.
Citações fraudulentas não são criação da rede mundial, porém. A rainha degolada Maria Antonieta, como se sabe, jamais disse 'Se não têm pão comam brioches', frase atribuída a ela pela tradição oral, mas, na verdade, proferida por um nobre francês cuja identidade se apagou na História.
Autor da crônica 'Ter
ou Não Ter Namorado', o senador Artur da Távola não
consegue se livrar do fantasma
de Carlos Drummond de Andrade rondando um texto seu, famoso entre as adolescentes
dos anos 80. A crônica em questão foi misteriosamente publicada
em jornal como uma relíquia deixada por Drummond. Távola
fez o desmentido, mas o erro estava eternizado. Há dois anos, no
Dia dos Namorados, a crônica foi lida num programa de rádio,
de novo atribuído a Drummond. Távola voltou a reclamar. É
só chegar mais um Dia dos Namorados para o engano se repetir. O
incidente, claro, foi parar na internet. No site da Universidade Federal
do Espírito Santo, 'Ter ou Não Ter Namorado' tem a grife
de Drummond, e ponto final. 'Resta dizer que, se fosse o contrário,
a heresia seria muito maior', diz Távola, zombando da própria
modéstia.
Lorotas espalhadas em sites e e-mails
'Não ligue a TV
no domingo; não entre em carros com adesivos 'Fui...' Se te oferecerem
um CD, procure saber se o suspeito foi ao programa da Hebe ou se apareceu
no Gugu (...) Diga não às drogas.'
Atribuído a: Luis
Fernando Verissimo, escritor
Autor: desconhecido
'Outro dia, a Adriane
Galisteu deu uma entrevista dizendo que os homens não querem namorar
as mulheres que são símbolos sexuais. É isto mesmo!
Quem ousa namorar a Feiticeira ou a Tiazinha? As mulheres não são
mais para amar; nem para comer. São para 'ver'. Que nos prometem
elas, com suas formas perfeitas por anabolizantes e silicones?'
Atribuído a: Arnaldo
Jabor, cineasta e jornalista
Autor: desconhecido
'Quem não tem namorado
é alguém que tirou férias remuneradas de si mesmo
(...) Não tem namorado quem não sabe o gosto de chuva, cinema
na sessão das duas, medo do pai, sanduíche de padaria ou
drible no trabalho.'
Atribuído a: Carlos
Drummond de Andrade, poeta
Autor: Artur da Távola,
escritor
'Não basta que
a gente esteja sem febre: queremos, além de saúde, ser magérrimos,
sarados, irresistíveis...'
Atribuído a: Mario
Quintana, poeta
Autora: Martha Medeiros,
escritora
'Pessoas felizes não
têm as melhores coisas. Elas sabem fazer o melhor das oportunidades
que aparecem em seus caminhos.'
Atribuído a: Clarice
Lispector, escritora
Autor: desconhecido
'Aproveite todos os momentos
que você tem. E aproveite-os mais, se você tiver alguém
com quem compartilhar (...) Lembre-se que o tempo não espera nada
nem ninguém.'
Atribuído a: Henfil,
cartunista
Autor: desconhecido
'São tantas as
coisas que pude aprender com vocês, mas, finalmente, não poderão
servir muito porque, quando me olharem dentro deste arquivo, infelizmente
estarei morrendo.'
Atribuído a: Gabriel
García Márquez, Nobel de Literatura, supostamente à
beira da morte
Autor: desconhecido.
Fonte: Revista Época, 11/11/2002
[Nota do editor: Com todo
o respeito a Jabor, eu mudaria um pouco a frase dele: Procuram imitar
o meu estilo, porque são maniqueístas.]
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