Os brasileiros da riqueza invisível
Xico Vargas, NoMínimo
Os construtores dessa riqueza, que forrou o bolso da elite, na hora da ceia foram retirados da mesa e mandados dormir na favela. As contas que o IBGE serviu aos brasileiros neste fim de ano mostram que mais de 10 milhões de trabalhadores vivem em quase 2,5 milhões de barracos de 19.631 favelas cadastradas no país. São os donos de um patrimônio invisível, como os moradores de Rio das Pedras, favela das que mais crescem no Rio de Janeiro. Ali, há dois anos, a arquiteta Lu Petersen, funcionária da prefeitura, tentava negociar com moradores instalados à margem da lagoa da Tijuca indenização pelos barracos e transferência para lugar próximo e melhor. Na discussão, um impasse: como o terreno não tinha consistência, era normal que as construções afundassem na lama. Assim, podiam-se encontrar barracos que, na verdade, tinham dois, três andares chão adentro, como se fossem alicerces. “Na hora de acertar o preço, o morador queria cobrar pelo barraco e pelos andares que estavam enterrados na lama”, conta Lu. Não havia dinheiro que chegasse. Esses são os brasileiros do movimento a esperança-é-a-última-que-morre. Puseram gerações no mundo e as ensinaram a trabalhar. Tudo o que botam de pé torna-se acerto de políticas governamentais, como se a nação fosse o governo e não o seu povo. O que levam para casa, além de não entrar na conta, às vezes, desaparece na lama. Com sorte, sobra-lhes a cama onde descansam o esqueleto. Ensurdeceram na ditadura ouvindo que deveriam bater a massa para ganhar uma fatia do bolo crescido. Quando cresceu não receberam nem biscoito. Pior: foram empurrados para os mocambos, palafitas e barracos que se amontoam em 80% das cidades nas regiões metropolitanas do país. Na prática, não há cidade brasileira com mais de 500 mil habitantes sem um portentoso conjunto de favelas. Em São Paulo e no Rio de Janeiro, nessa ordem, mora o maior contingente favelado. Mas o IBGE encontrou no Sul a maior concentração de favelas (mais de 7 mil). Justamente na região onde o poder público oferece as maiores facilidades para investimento na produção de bens e serviços. Ou seja: é ali que a elite proporcionalmente mais ganha e menos leva a mão ao bolso para distribuir. A extraordinária riqueza de São Paulo também não alcança as 700 mil pessoas que se amontoam em cortiços, na capital, nem os 2 milhões que vivem nas favelas em 31 das 39 cidades da Região Metropolitana. Nada muito diferente do Rio de Janeiro, onde só não há favela em um dos 19 municípios da Região Metropolitana. O Rio ganhou uma favela por mês nos últimos 10 anos. A Rocinha, uma das grandes da cidade, cresce à média de 300 famílias a cada dois anos, segundo levantamentos da Light. Em outra grande, a do Rio das Pedras, em Jacarepaguá, a associação de moradores avalia a expansão em cinco barracos por semana. Ali, nos últimos anos, a prefeitura desenvolve em ritmo lento um programa chamado Favela Bairro, conjunto de iniciativas destinado a corrigir distorções e conter o crescimento das favelas cariocas. Segundo moradores, porém, a parte relativa a “conter o crescimento” está suspensa até as eleições. São assim também as favelas brasileiras: bolsões de votos administrados pelos governantes. “Há sempre uma troca de favores a serviço do interesse político”, como diz o sociólogo Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro, professor da UFRJ e autor de “O futuro das metrópoles”, um dos textos mais competentes já produzidos sobre o assunto. Como não param de
crescer e multiplicar-se, as favelas brasileiras tendem a confirmar a previsão
do relatório da ONU, segundo o qual essa população
no mundo dobrará de tamanho nos próximos 25 anos. Em São
Paulo, na última década, 1,5 milhão de pessoas tornou-se
morador de loteamentos ilegais, áreas desprovidas de qualquer sinal
de infra-estrutura básica. No Rio, o bairro do Itanhangá
é bom exemplo desse ritmo. Em 10 anos ganhou 11 favelas. No bairro
ao lado, Jacarepaguá, o maior símbolo de degradação
urbana é Rio das Pedras. Há 10 anos era um modesto aglomerado
de casas de funcionários e aposentados de um clube de golfe e do
Jockey Club. Deitou braços sobre terrenos privados num morro e sobre
as margens da lagoa da Tijuca. Em duas administrações municipais
tornou-se um conglomerado de pobreza predominantemente nordestina.
Nos cortiços da rua da Abolição, no Centro de São Paulo, o aluguel não sai por menos de R$ 300,00, mais R$ 60,00 de “condomínio” que cobrem as despesas de água e luz (quando existe) nas áreas comuns. Na favela do Vidigal, no Rio, a passagem do Favela-Bairro valorizou os imóveis e alargou a trilha da especulação imobiliária. Como na favela do Jacarezinho, onde os aluguéis subiram de R$ 170,00 para R$ 220,00, ali romperam o teto de R$ 300,00 para R$ 350,00, mesmo preço de um apartamento de quarto-e-sala no condomínio Parque dos Passarinhos, na estrada de Jacarepaguá, bairro do Anil. Aluguéis são o cravo final no calvário desses brasileiros. É o item do orçamento que a cada ano amplia a leva de excluídos dos excluídos. No Rio das Pedras criou o “pessoal do charco”, localizado ano passado por uma pesquisa da PUC vivendo em barracos de papelão e madeira junto ao canal que despeja os esgotos da favela na lagoa da Tijuca. Nas favelas da Zona Sul, quem já não consegue pagar aluguel mora nas areias das praias, sob as marquises ou nos buracos e cavernas da avenida Niemeyer. Em São Paulo, a Companhia de desenvolvimento Habitacional e Urbano calcula em 13,5% o percentual de imóveis alugados nas favelas. No Rio, o Instituto Pereira Passos, ligado à prefeitura, acredita que não ultrapasse 12%. Há cinco anos, quando a prefeitura passou o trator na favela Roque Santeiro, construída sobre a pista de uma avenida, em Jacarepaguá, dos 86 barracos derrubados 29 pertenciam a Manoela Paes, moradora da rua Hilário de Gouvêa, Copacabana. A propósito, foi a única que obteve uma liminar na Justiça e ficou com seus barracos em pé por mais 15 dias. Sem solução
à vista, a saída talvez esteja na defesa veemente que faz
do jeito favelado de morar o arquiteto Sérgio Magalhães.
Gaúcho, instalado numa rua do Jardim Botânico, bairro da Zona
Sul do Rio onde não resta espaço à favelização,
Magalhães foi secretário de Urbanismo na administração
Luiz Paulo Conde. De sua cadeira assistiu à degração
de Rio das Pedras. Recentemente escreveu um livro ("Sobre a cidade: habitação
e democracia no Rio de Janeiro") em que declara a falência de todos
os programas governamentais que até hoje tentaram dar casa digna
ao brasileiro pobre. Magalhães defende o “protagonismo da família
na decisão sobre a moradia”. Segundo ele, caberá a cada família
a decisão sobre como, onde e em que condições morar.
Ao poder público restará seguir atrás, “para construir
cidade onde as famílias já construíram suas casas,
mesmo que precárias”. Na prática, Magalhães prega
a destruição das cidades tal como as conhecemos. À
primeira vista, pode parecer insanidade. Quando teve a oportunidade de
fazer algo pelo Rio, não fez muito mais do que dar passagem ao caos
urbano que ainda hoje se vê. Mas talvez valha a pena prestar atenção
no que ele diz. Nessa área a sabedoria popular é pródiga
em frases e exemplos. Uma delas diz: “Maluco e relógio parado duas
vezes por dia estão certos”.
Xico Vargas é
colunista da revista NoMínimo. [xicovargas@nominimo.ibest.com.br]
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