A fome e o mito da vontade
política
Diagnóstico da ONU sobre causas do aumento da fome no mundo repete fórmula mistificadora da “falta de vontade política”. Expressão oculta relação do problema com o predomínio de um modelo econômico global que inviabiliza políticas públicas. Marco Aurélio Weissheimer, Agência Carta Maior, 26 de novembro, 2003
A expressão “vontade política” é utilizada a torto e a direito, à esquerda e à direita, quando se trata de disparar uma crítica rápida a um determinado grupo político no poder. Ela é simplificadora porque reduz uma série de causas econômicas, políticas e sociais a um aspecto voluntarista. Por que a fome cresce? Falta de vontade política. Por que as vítimas da Aids continuam aumentando? Falta de vontade política. Por que a natureza segue sendo alegremente destruída? Falta de vontade política. E a relação prossegue, tediosa e interminável. E é desmobilizadora e mistificadora porque esconde o caráter complexo das causas e sua relação com um determinado modelo político e econômico definidor da natureza das políticas públicas ou da ausência destas. Ausência de perspectiva
histórica
A ausência dessa perspectiva histórica, substituída pela fórmula mágica da “vontade política”, aponta para a manutenção e agravamento do problema. Tal substituição é absolutamente ideológica. Sua lógica interna é simples e eficaz: esqueçamos a história recente e não tão recente, omitamos as conseqüências das políticas econômicas implementadas nos países que mais sofrem com a fome, deixemos de lado “rancores ideológicos anacrônicos”; tudo o que temos de fazer é cobrar mais vontade política de nossos governantes para “que se resgate uma dívida histórica para com os humilhados e ofendidos”. Outra coisa que é conveniente esquecer são os editoriais de Zero Hora e da esmagadora maioria da grande mídia, que, durante a “era de ouro” da globalização e do fim da história, no final dos anos 80, despejaram milhares de linhas defendendo, com graus diferenciados de entusiasmo, as vantagens do Estado mínimo, das privatizações, da desregulação dos serviços públicos e da natureza intrinsecamente incompetente da esfera pública para resolver os problemas dos “humilhados e ofendidos”. Tudo se passa como se tais discursos e as políticas correspondentes (e o cenário histórico que compôs sua moldura) jamais tivessem existido. Políticas públicas
e o stress dos mercados
Outro exemplo: estatísticas de organismos internacionais revelam que cerca de 80 milhões de pessoas na América Latina não têm acesso a água potável e pelo menos 120 milhões permanecem sem serviços de saneamento básico. Segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), na América Latina as fontes de água sofrem um crescente processo de deterioração causado por atividades humanas (econômicas, principalmente) e por um também crescente processo de concentração da população. Outro órgão da ONU, a FAO, advertiu que a região está seriamente ameaçada por um processo progressivo de contaminação das fontes de água potável por dejetos residenciais, industriais, resíduos de minerais e herbicidas agrícolas. A organização União Mundial para a Natureza estima que são necessários investimentos da ordem de US$ 50 bilhões/ano para começar a reverter esse quadro. No entanto, os investimentos atuais estão na casa dos US$ 30 bilhões. O cenário de problemas
e ameaças no setor inclui a ausência de estruturas públicas
para prevenir desastres e de políticas de gestão integrada
de recursos, além da escassa regulação dos serviços
públicos, cada vez mais ameaçada por uma desenfreada ambição
de privatização do setor. Tudo isso, mais uma vez, custa
dinheiro, dinheiro que esses países não têm. E para
saber por que não têm é imprescindível não
varrer a história para debaixo do tapete, não fechar os olhos
para a história recente desses países, para as políticas
econômicas “inevitáveis” que lhes foram recomendadas pelos
organismos financeiros internacionais. Onde está a raiz do problema,
então? Falta vontade política aos governos desses países
ou sobra vontade política (e força, portanto) aos mercados?
Marco Aurélio Weissheimer é correspondente da Agência Carta Maiorem Porto Alegre (e-mail: gamarra@hotmail.com)
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