Heranças malditas
Verissimo, 25 de dezembro, 2003

Já se disse que é um bom negócio perder uma guerra para os Estados Unidos. O Plano Marshall para a reconstrução da Europa arrasada pela Segunda Guerra Mundial foi altruísta na medida que o FMI, hoje, é altruísta — são dois casos de bons sentimentos camuflando interesses específicos — mas ajudou, e a Alemanha foi seu beneficiário principal. Ainda mais que era preciso desenvolver o lado ocidental para contrastar com o lado comunista, pois a guerra quente ainda não tinha acabado e já estava começando a fria. A Alemanha se desenvolveu tanto com a ajuda americana depois da Segunda Guerra e antes da Comunidade Européia que seu Bundesbank chegou a ser uma espécie de banco central extra-oficial da Europa. E a modernização e o explosivo crescimento econômico do Japão se devem em boa parte à ocupação americana — que impôs, por exemplo, uma reforma agrária radical no país, comandada pelo arqui-reacionário general Douglas MacArthur, veja você.

Se conseguirem controlar a insurreição e evitar que o fundamentalismo islâmico ocupe o vácuo deixado pelo partido Ba’ath do Saddam, os Estados Unidos se dedicarão com todos os dólares a fazer do Iraque, em linguagem publicitária, um case das vantagens de ser americano mesmo de segunda mão. Ao contrário da União Soviética, que perdeu a guerra fria mas só foi ocupada por economistas americanos como Jeffrey Sachs dando maus palpites — e pulou do capitalismo de Estado diretamente para o gangsterismo privado — o Iraque terá uma presença militar americana presumivelmente prolongada, igual à que continua na Alemanha, no Japão e na Coréia, para assegurar que a transformação não fuja ao controle.

E para garantir que a reconstrução do país comece sem qualquer “herança maldita” parecida com a deixada por vinte anos de liberalismo econômico na América Latina, um enviado americano esteve percorrendo o mundo pedindo aos credores do Iraque que perdoem as suas dívidas. O que nos leva a pensar que, se em vez de nos submetermos, de Zélia a Palocci, ao receituário econômico de Washington, cujo custo em vidas humanas e desolação foi equivalente ao de anos de batalhas, tivéssemos estado em guerra aberta com os Estados Unidos, poderíamos hoje esperar um socorro parecido. O país ser ocupado por tropas americanas não seria tão traumático assim. Já está quase tudo em inglês mesmo, e poderíamos pensar na rendição como uma espécie de delivery. E imagine como seria divertido ver nossos latifundiários sendo convencidos por algum general MacArthur que a reforma agrária é necessária e não é um complô comunista contra a propriedade.


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