Não vai pegar bem
Luis Fernando Verissimo, O Globo
14 de dezembro, 2003


Havia uma lógica perfeitamente racional por trás do Muro de Berlim. Seus idealizadores tinham motivos defensáveis para construir uma barreira que impedisse a população inteira de Berlim Oriental — na qual, afinal, o governo comunista investira tanto em educação e saúde — de passar para Berlim Ocidental, onde se instalara uma vitrine fulgurante e irresistível das delícias do capitalismo. Pode-se imaginar o desprezo com que seria recebida, entre os burocratas do Leste, a observação de que os benefícios pragmáticos e a longo prazo do muro não compensariam o desgaste simbólico que ele traria, que a má impressão derrotaria qualquer justificativa — enfim, que o muro não pegaria bem.

Na discussão entre as várias correntes, se é que houve alguma, a frase “o fim justifica os meios” deve ter sido muito repetida para defender o muro, e ninguém se lembrou de mandar buscar a proverbial criança de três anos do Groucho Marx para enxergar o que os adultos não enxergavam. O muro foi, pior do que um crime, um erro. Um desastre de relações públicas. E o que parecia ser o seu efeito mais abstrato, e portanto desprezível, foi o que valeu, no fim. Não por acaso, a queda do Muro de Berlim simbolizou o desmoronamento da opção comunista. O que foi erguido como uma imposição do real caiu como símbolo, e o símbolo levou o real junto.

Não sei, enquanto escrevo, que destino o PT dará a seus rebeldes. As razões para expulsá-los são perfeitamente racionais. Disciplina partidária, união por propósitos finais mesmo ao custo de alguma resignação passageira e outros benefícios pragmáticos a longo prazo. Mas que vai pegar mal, vai. No plano simbólico —- aquele que não tem nada a ver com duras decisões políticas mas costuma prevalecer sobre a realidade e até derrubar impérios, ou pelo menos a empáfia de quem o desdenha — o que vai ficar é que um dia o PT baniu os seus mais combativos e coerentes.

Não os quis nem como excêntricos nem como amáveis lembranças do que foi um dia, nem sequer como práticos antídotos caseiros para o perigo de se pessedebizar demais e esquecer o que foi fazer em Brasília.

Não sei o que aconteceu na reunião do PT mas espero que a criança de três anos tenha chegado a tempo.
 


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