Os sonhos do Lula ficaram na senzala
Petrônio Souza Gonçalves, 21 de novembro, 2003

Gilberto Freire na sua melhor obra, Casa Grande e Senzala, deixou-nos uma frase que ao primeiro momento nos pareceu enigmática. Agora, depois do governo Lula, ela se revela profética: “A senzala não resiste ao perfume da casa grande”. Talvez isto sintetize as desventuras do primeiro ano do novo governo, que veio do meio do povo e que foi enfeitiçado, seduzido, alijado, pelo perfume da casa grande, da matriz.

FHC, que se declarou ser um mulato, um mulatinho bem sem vergonha, servil, nos açoitou por oito anos com o chicote emprestado pelo agente colonizador entrincheirado na cúpula do FMI. Agora, Lula, que até bem pouco tempo se dizia ser contra esta servidão copincha exercida pelo governo neoliberal de FHC, segue os mesmos caminhos trilhados pelo entreguismo neoliberal fernandista, do retrocesso dos 80 anos em oito, como definiu mestre Hélio Fernandes. E, ao que tudo indica, o país já não suporta mais uma política ignominiosa assim, de dilaceramento do Estado, da economia nacional, das perdas dos direitos conquistados durante anos de lutas pela sociedade brasileira, da total falta de esperança em uma mudança futura.

É por estar contra esta conduta, esta política servil apátrida, que o senador Paulo Paim, um dos melhores quadros do Partido do Trabalhador, admite deixar o partido e o apoio ao governo. Ora, os partidos perdem as suas lideranças quando estão perdendo e não quando estão ganhando, e esta lógica só mesmo o PT para explicar. Mas Paim, pelos seus anos de lutas junto do povo e do PT da história, sabe que a vitória não é um fim e sim, um começo e isso, Lula, José Dirceu e Antônio Palocci não tem sensibilidade para saber, para apreender.

Mas Paim, que é autêntico as suas velhas convicções, que tem raiz e não é simplesmente levado por qualquer vento, para qualquer lado, diz por que pode deixar o partido que o ensinou a caminhar com os anseios do povo. Ele falou e as páginas dos jornais do Brasil registraram: “Eu entrei na vida publica em 1984, quando comecei a preparar minha campanha para deputado federal, e em 1979 comecei na vida sindical. Tenho uma frase que me acompanha sempre; que foi o slogan da minha campanha, e diz que a minha vida é a luta em defesa dos trabalhadores da área pública, da área privada, aposentados e pensionistas e todos os discriminados. Eu pautei a minha vida em cima desse tema. É difícil para mim, que lutei tanto contra as reformas do governo Fernando Henrique Cardoso, aceitar que o trabalhador perca a paridade. (...) Outro ponto fundamental é a contribuição dos inativos. Precisamos lembrar que no serviço público, o inativo está há nove anos sem reajuste. A maioria teve apenas 4% de reajuste. Se o camarada ganha R$ 1,5 mil e agora vai ter um redutor de 11%. Não é correto. O trabalhador ficou tanto tempo sem receber nada e agora perde 11%. É disso que eu discordo”.

As reformas propostas pelo governo Lula são as mesmas do governo Fernando Henrique: “A reforma da Previdência é semelhante à que queria o governo anterior. Não dá para negar isso. A reforma trabalhista, se vier também semelhante àquela que o Fernando Henrique mandou, será a mesma coisa. Felizmente ela foi deixada para 2005, pois o ano que vem será de eleições municipais”. (...) “O que eu percebo é que na reforma da Previdência, que interessa à massa dos trabalhadores e ao assalariado brasileiro, não existe a mínima hipótese de negociação. Mas a reforma tributária, que interessa a banqueiros, a empresários, municípios, estados e União, está envolvendo as mais variadas negociações. Essa pode fatiar, pode emendar, pode voltar. Esse tratamento diferenciado já não é certo.” 

Falta coerência histórica a Lula e seus asseclas: “Eu sou do tempo em que o discurso e a prática tinham que ser semelhantes. Nesse país, parece que virou nome feio ser coerente. Mas eu sou, não vou mudar da noite para o dia.” (...) “Não concordo com o fato de que os aliados de última hora, que chegaram agora, são tratados a pão-de-ló, têm um tratamento privilegiado. Os outros estão sendo tratados de forma muito dura. Não queremos cargo, não queremos nada. Mas troca de favores e o fisiologismo nos deixam perplexos. Ao longo desses anos nós sonhamos muito com esse momento de chegar ao poder. Mas infelizmente, o que eu percebo é que se instalou uma imensa confusão”.

A confusão a que se refere Paim é que Lula foi eleito para fazer uma coisa e está fazendo outra, totalmente inversa. É por isso que o pé esquerdo de Lula está quebrado, engessado, amordaçado. O presidente agora só vai caminhar com o pé direito, totalmente à direita do tempo, da história e da política nacional...
 


Petrônio Souza Gonçalves é jornalista e escritor. [petros@brfree.com.br]


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