| Quem venceu o medo?
Petrônio Souza Gonçalves, 6 de dezembro, 2003 Quando um time muda de camisa, deixa de acreditar, de suar por ela, o público, a platéia, que ninguém engana, reclama. A brava ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, saída das lutas e batalhas no meio da floresta, durante a Conferência Nacional do Meio Ambiente, realizada em Brasília, na semana passada, fez uma reflexão pública deste governo lulista. Governo que foi eleito com uma proposta, com uma camisa, e agora, no poder, está vestindo e jogando com outra. Tendo a exata noção do seu tamanho e de sua participação neste novo governo, a ministra, munida de um senso crítico incomum, sentenciou: “Hoje integro o time do meio ambiente que está em campo, mas, quando não estiver mais neste time, vou para a torcida, onde ninguém muda de camisa". Esta história de que o time petista mudou de camisa quando o jogo já havia começado, circula mundo afora e importantes lideranças responsáveis pela consciência crítica mundial, depois de terem acreditado, apoiado e comemorada a vitória de Lula, começam a se manifestar contra as mudanças do governo que deveria ser popular. O lingüista e ativista norte-americano, Noam Chomsky, que sempre ressaltou em suas palestras mundo afora, sua preocupação com os governos servis da América Latina, encabeça um abaixo-assinado organizado pelo jornal Socialist Resistance, de Londres, contra as expulsões de parlamentares do PT. Além de Chomsky, assinam o manifesto Kean Loach (cineasta inglês), Michael Albert (editor da Znet), e Robin Blackburn (da revista New Left Review), entre outros. O abaixo-assinado é acompanhado de um manifesto em apoio à senadora Heloísa Helena e aos deputados João Batista Araújo (Babá), Luciana Genro e João Fontes. Os manifestantes temem que as expulsões enviarão um sinal à esquerda mundial de que “o PT perdeu a sua orgulhosa tradição de democracia, de pluralismo e tolerância”. O texto do documento é o seguinte: “Nós o subscrevemos, como milhões em todo o mundo, que compartilharam da alegria do povo brasileiro ano passado, quando Lula foi eleito presidente do Brasil. Após mais de uma década de políticas neoliberais que devastaram os povos do mundo; após mais de quatro anos de um movimento novo, diverso, internacional, que diz que um outro mundo é possível - no qual Lula, o PT e os Fóruns Sociais Mundiais de Porto Alegre desempenharam um papel crucial - parecia que finalmente haveria uma chance de mostrar que haveria uma alternativa". "É claro que as circunstâncias são difíceis, o legado é pesado, e o tempo foi curto. Mas é com uma profunda surpresa e desânimo que nós vemos que o PT está agora considerando expulsar três de seus membros mais destacados do Congresso, por se oporem publicamente às reformas da Previdência do governo. Não é o nosso objetivo aqui expressar uma opinião sobre o detalhe das políticas do governo brasileiro. Porém, nós sabemos que a reforma da Previdência, não somente na América Latina, mas também aqui na Europa e em toda parte, tem sido uma questão chave que opõe os governos neoliberais e o FMI aos movimentos organizados dos trabalhadores. Apenas um dia depois do PT decidir iniciar o processo disciplinar contra estes três membros da Câmara dos Deputados, milhões de trabalhadores na França e na Áustria fizeram atos contra a reforma da Previdência em seus países. Nós compreendemos também que o próprio PT se opôs a reformas da Previdência similares, quando propostas pelo governo anterior, de Fernando Henrique Cardoso". "Parece-nos, conseqüentemente, muito grave que o diretório do PT esteja estudando agora a punição drástica contra aqueles que continuam a defender as políticas tradicionais do PT. Claro que, como falou Emir Sader, do Conselho Internacional do Fórum Social Mundial, o governo Lula tem o direito de mudar sua visão sobre tais questões, mas punir aqueles que não mudaram sua opinião seria como mandar uma mensagem terrível para o mundo. Para aqueles milhões de trabalhadores nas ruas na França e na Áustria, e para os muitos outros milhões que se mobilizaram contra o neoliberalismo e a guerra, isso soará como: "desculpem, nós não nos importamos com tudo aquilo, nós nos decidimos que realmente não há alternativa". Isso sugerirá também que o PT perdeu a sua orgulhosa tradição de democracia, de pluralismo e tolerância". "Nós, portanto, conclamamos que você repudie qualquer expulsão e reafirme o papel do PT como uma esperança para todos nós ao redor do mundo, que queremos trabalhar com você para realizar nosso sonho comum - de que um outro mundo é certamente possível”. O manifesto, em inglês e português, e o abaixo assinado estão disponíveis nos sites da Socialist Resistance (www.socialistresistance.net) e do Movimento dos Amigos de Heloísa Helena (www.amigosdaheloisa.com.br). Enquanto isso, o medo, a
decepção, a mentira e a servidão vão ganhando
de dez a zero da esperança, que ainda vive de esperar.
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