Governo só destina R$ 1,1 bi
a investimentos
Catia Seabra, O
Globo, 17 de novembro, 2003
A 45 dias do fim do ano,
o governo só liberou 7,99% do total previsto para investimentos
(obras e novos projetos) este ano. Até agora, foi gasto R$ 1,1 bilhão
dos R$ 14,2 bilhões previstos. Dos chamados restos a pagar despesas
herdadas do ano passado foi liberado apenas R$ 1,2 bilhão dos
R$ 3 bilhões autorizados.
Na noite de quinta-feira,
um emissário do chefe da Casa Civil, José Dirceu, telefonou
para líderes aliados prometendo para o dia 20 o início da
liberação de recursos previstos para o atendimento de emendas
parlamentares ainda do ano passado. O ministro da Fazenda, Antonio Palocci,
avisou, no mesmo dia, que deverá garantir verbas para que ao menos
as emendas individuais apresentadas por deputados e senadores para o Orçamento
deste ano sejam liberadas, ainda que em janeiro. Uma das promessas é
o comprometimento de R$ 250 milhões em emendas do Ministério
da Saúde.
Esperamos que haja alguma
liberação ainda este ano
Naquela mesma noite, o chefe
da assessoria Parlamentar do Palácio do Planalto, Waldomiro Diniz
da Silva, telefonou para os líderes aliados convocando-os, separadamente,
para diferentes reuniões amanhã com Dirceu. Com essa operação,
o governo segurou por uma semana a implosão na base. Mas terá
de agir rápido para se poupar de surpresas ainda no processo de
votação. A causa está na tímida aplicação
de recursos em investimentos no primeiro ano de governo Lula.
Estamos vivendo uma angústia.
Os deputados, corretamente, reivindicam o atendimento das emendas. E esperamos
que haja alguma liberação ainda este ano admite o vice-líder
do governo na Câmara, Professor Luizinho (PT-SP).
A aspereza fiscal está
criando um mal-estar endossa o líder do governo no Congresso,
senador Amir Lando (PMDB-RO), que enfrenta dificuldades para garantir a
tramitação do Orçamento.
Na quinta-feira, a manobra
teve como alvo o PP que, reunido naquela tarde, ameaçou deixar a
base de apoio do governo antes mesmo de entrar. O líder do partido,
Pedro Henry (MT), levou ao Palácio uma lista de prioridades da bancada
com emendas de 50 deputados, que chegam a R$ 40 milhões. Mas, segundo
ele, nada foi liberado. O líder procurou o PL e o PTB para pedir,
então, uma audiência com Dirceu.
Estamos perdendo o controle.
Se houver surpresas num processo de votação, é bom
que o governo esteja avisado queixa-se Pedro Henry.
Contida na semana passada,
a crise pode alastrar-se agora. Há um mês na liderança
do PTB, José Múcio Monteiro (PE) reclama:
Há três semanas
levo ao Palácio as reivindicações da bancada. Sempre
é o mês que vem. Só que estamos em novembro, véspera
de um mês que, na prática, tem 15 dias. Daqui a pouco, mês
que vem é 2004 alerta.
Não sei até
quando será possível conter a bancada diz Bispo Rodrigues
(PL-RJ).
Concessões necessitam
de autorização do Tesouro
Para acomodar sua base, o
governo montou uma comissão composta por Dirceu, Palocci e o ministro
do Planejamento, Guido Mantega. O trio se reunirá esta semana para
buscar alternativas para que, já a partir desta semana, seja possível
abrir os cofres. A concessão depende, no entanto, de uma autorização
do Tesouro. Como a negociação tem sido difícil, os
ministros temem que não haja tempo hábil para a assinatura
de convênios e liberações ainda este ano.
Em jantar com os petistas,
Dirceu ouviu as ponderações do deputado Devanir Ribeiro (SP).
Está havendo uma
insatisfação muito grande das bases. Os prefeitos estão
pressionando disse o deputado.
Em resposta, Dirceu prometeu
convencer Palocci a liberar parte dos recursos ainda este ano. Segundo
o relator do Orçamento, Jorge Bittar (PT-RJ), há uma disposição
do governo de investir ainda este ano.
Politicamente, há
a intenção de liberar uma parte das emendas. O governo está
fazendo as contas garante Bittar.
Emendas propõem
gastos de R$ 27 bi
Valderez Caetano, de Brasília
O dinheiro é curto
apenas R$ 2,5 bilhões para acolher as emendas dos parlamentares
no Orçamento Geral da União para 2004 mas o apetite de
deputados e senadores para conseguir um naco do Orçamento é
grande. É o que mostram os números preliminares das emendas
apresentadas por senadores às comissões permanentes do Senado,
que até a última sexta-feira já totalizavam R$ 27
bilhões.
PMDB e PFL apresentaram
o maior número de emendas
São pedidos de recursos
para obras de apelo eleitoreiro, como as de saneamento, construção
de estradas ou hospitais. Essas emendas passarão por um filtro no
plenário das comissões e parte delas será rejeitada.
Mas uma coisa é certa: nessa corrida, o PMDB e o PFL ganham longe
dos demais partidos.
Entre os campeões,
pelo menos no valor das emendas, estão os senadores Romero Jucá
(PMDB-RR), relator da reforma tributária; Ney Suassuna (PMDB-PB)
e José Agripino Maia (PFL-RN). Mas o exagero terá que se
adequar à realidade porque o relatório preliminar do relator
Jorge Bittar (PT-SP) só reservou R$ 2,5 bilhões para as emendas
dos 513 deputados, dos 81 senadores, das comissões e das bancadas
estaduais.
Eu acho que essa forma
de fazer Orçamento tem que ser modificada. Já está
superada. Não se discute o conteúdo, mas o valor e qual o
parlamentar que apresenta a emenda disse o deputado Sérgio Miranda
(PCdoB-MG), membro da Comissão Mista de Orçamento.
Ele criticou também
o direito que foi dado pelo governo aos senadores de apresentar emendas
individuais por bancadas com número acima de 18 parlamentares.
Isso vai aumentar a degradação
do Orçamento. Acaba o sentido da emenda coletiva disse Sérgio
Miranda.
Comissão de Educação
foi a que teve mais propostas
Segundo os números
preliminares, as comissões permanentes que tiveram mais emendas
foram a de Educação (R$ 9 bilhões), a de Relações
Exteriores (R$ 4,7 bilhões) e a de Assuntos Econômicos (R$
4,3 bilhões). Não significa que todas serão encaminhadas
para serem incluídas no Orçamento.
Entre as emendas pode-se
encontrar propostas no mínimo estranhas ou pouco objetivas: Apoio
à implementação de infra-estrutura social e econômica
nos municípios da faixa de fronteira nacional, diz uma delas, de
R$ 80 milhões.
Doações para
o Fome Zero ajudam a pagar superávit
Fundo de Erradicação
da Pobreza deixa de gastar mais de R$ 1 bi. Marta Salomon, Folha
de S. Paulo, 25 de dezembro, 2003
Passaram de R$ 7 milhões
as doações feitas ao governo por empresas e pessoas físicas,
até no exterior, atraídas pelo "mutirão contra a fome"
lançado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O caminho
do dinheiro, percorrido pela Folha, revela, porém, que os doadores
ajudaram o governo, ainda que indiretamente, a pagar a dívida pública.
Depois de depositadas nas
agências do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal, as
doações seguem para o Tesouro Nacional, na conta do Fundo
de Combate e Erradicação da Pobreza, criado em 2000 para
garantir "níveis dignos de subsistência" aos brasileiros.
Acontece que o governo não
usou todo o dinheiro disponível no fundo em 2003. Mais de R$ 1 bilhão
chega ao final do ano intocado. E dinheiro não usado é sinônimo
de superávit primário -nome da economia de gastos que mostra
a disposição do país de honrar sua dívida.
Até a última
terça-feira, dos quase R$ 5 bilhões de despesas autorizadas
pelo Orçamento da União no fundo, R$ 2,9 bilhões haviam
sido gastos. Uma parcela de cerca de R$ 800 milhões estava para
ser liberada até a data limite para os chamados empenhos. Os dados
são do Siafi (sistema informatizado de acompanhamento de gastos
federais).
Perfil dos doadores
Um perfil traçado
pelo Banco do Brasil dos doadores ao Fome Zero revela algumas surpresas.
No Brasil, a maior parcela das doações partiu da região
Centro-Oeste, e o Nordeste colaborou mais do que o Sul. Só no Japão,
foi arrecadado o equivalente a quase a metade do volume de doações
feitas na região Sudeste (R$ 351 mil, até meados de novembro).
O gerente regional da Ásia
do Banco do Brasil conta que as mais de 8.000 doações colhidas
no Japão foram feitas por brasileiros que trabalham temporariamente
no país. "O perfil do doador confunde-se com o brasileiro que frequenta
nossas agências para remeter dinheiro aos familiares no Brasil e
tem consciência do problema da fome", disse Roberto de Camillo.
A imagem externa do combate
à fome no Brasil também estimulou doações na
Inglaterra, em Portugal, nos Estados Unidos, na Alemanha e na Holanda.
O "mutirão contra a fome" é apresentado como um grande movimento
nacional de solidariedade voltado aos que têm fome e não podem
esperar pelos resultados de mudanças profundas nas estruturas econômicas
e sociais do país.
O Mesa (Ministério
de Segurança Alimentar), a quem cabe gerir o Fundo de Combate e
Erradicação da Pobreza, não divulgou mais detalhes
sobre o perfil dos doadores a pretexto de preservar o sigilo bancário.
Levantamento feito pelo fundo
e disponível na internet indica que o maior volume de doações
veio de fora do país ou de pessoas físicas e empresas não-identificadas.
O levantamento mostra que as doações se aceleraram até
setembro, e depois perderam velocidade.
O Fundo de Combate e Erradicação
da Pobreza banca algumas das grandes despesas feitas na área social
do governo. É ele quem paga os benefícios da bolsa-escola
e do Peti (Programa de Erradicação do Trabalho Infantil),
por exemplo.
Uma análise dos gastos
do fundo mostra que alguns dos projetos que deveriam ser sustentados por
ele não saíram do papel ou andaram a passos lentíssimos.
Eles garantiram a economia de gastos registrada no Siafi.
Exemplos: os programas de
saneamento e abastecimento de água dos ministérios da Cidade
e da Integração Nacional, os investimentos em energia nas
pequenas comunidades, vinculado à pasta de Minas e Energia, e a
despoluição de bacias hidrográficas, ligado ao Meio
Ambiente.
Ministério nega
que dinheiro faça superávit e espera mais doações
O Mesa (Ministério
de Segurança Alimentar), responsável por administrar o Fundo
de Combate e Erradicação da Pobreza, informou que todos os
recursos do fundo haviam sido usados no decorrer do ano.
"Diante disso, não
há a mínima possibilidade de os recursos serem utilizados
como superávit primário pelo governo", afirmou o ministro
José Graziano, por meio de sua assessoria.
A Folha insistiu em que não
era isso o que mostrava o Siafi (sistema informatizado de acompanhamento
de gastos federais), alimentado com dados oficiais, do Tesouro Nacional.
O próprio site do
Fome Zero, numa prestação de contas do fundo, informa que
haviam sido gastos até o final de novembro R$ 2,8 bilhões
dos cerca de R$ 5 bilhões disponíveis.
Do dinheiro vinculado diretamente
ao Mesa, apenas 10,01% haviam sido gastos, segundo o levantamento.
Diante da insistência,
o Mesa reconsiderou a primeira resposta e informou que o dinheiro não
usado neste ano voltaria ao Fundo de Combate e Erradicação
da Pobreza no ano que vem, embora isso não esteja previsto no Orçamento
da União.
Tecnicamente, só as
despesas empenhadas são transferidas para o ano seguinte na forma
de restos a pagar. Quanto ao dinheiro não-empenhado, continuará
sendo sinônimo de superávit fiscal.
Mais doações
O ministério espera
que o fundo receba mais doações em 2004. "Há uma tendência
para isso. E torcemos para que isso se multiplique de fato, pois toda a
sociedade irá se beneficiar com este crescimento", disse Graziano.
De acordo com o Mesa, as
doações atingiram na última quinta-feira a marca de
R$ 7,2 milhões. Mais R$ 200 mil haviam sido doados na segunda semana
de dezembro. |