Tudo que é sólido
se desmancha em... cargos
Francisco de Oliveira, Especial
para a Folha,
14 de dezembro, 2003
"A burguesia não
pode existir sem revolucionar constantemente os instrumentos de produção
e, portanto, as relações de produção, isto
é, todo o conjunto das relações sociais. Esta mudança
contínua da produção, esta transformação
ininterrupta de todo o sistema social, esta agitação, esta
perpétua insegurança distinguem a época burguesa das
precedentes. Todas as relações sociais tradicionais e estabelecidas,
com seu cortejo de noções e idéias antigas e veneráveis,
dissolvem-se; e todas as que as substituem envelhecem antes mesmo de poder
ossificar-se." - Marx e Engels, "Manifesto Comunista", 1848
(destaque do autor).
Este artigo consuma meu afastamento
do Partido dos Trabalhadores, do qual me desligo formalmente. Aqui não
me dirijo a qualquer instância formal do partido, nem aos seus dirigentes
no próprio partido e no governo, mas aos petistas e aos cidadãos
em geral. Aos primeiros por ter compartilhado com eles a militância
durante todos os anos de existência do partido, e aos segundos por
serem os únicos detentores formais, pela Constituição,
do poder republicano e democrático, aos quais o Partido dos Trabalhadores
e seu governo devem obediência.
Ambos confiaram no Partido
dos Trabalhadores, seja na condição de militantes e eleitores,
seja na condição de cidadãos que permitiram, pela
sua reiterada aposta na democracia, a existência do Partido dos Trabalhadores
e sua chegada ao Poder Executivo e à maioria na Casa legislativa
que representa o povo.
Tenho o direito de cobrar
do Partido dos Trabalhadores pelo governo que ele realiza, pela minha condição
de militante e de cidadão. E, daqui por diante, exclusivamente pela
minha condição de cidadão. Pois muito além
do que imagina e pensa a direção partidária, o PT
tem que dar satisfações à cidadania, que lhe deu as
condições para disputar democraticamente e chegar ao governo.
Falta a essa liderança consciência democrática e republicana,
enquanto lhe sobram arrogância, prepotência e maneirismos caboclos
de péssima fatura.
Não me movem nem arrogância
protagônica - este belo termo mais castelhano que português
- nem propósitos catilinários nem profecias catastróficas
nem o desejo de que outros me sigam neste caminho. Cada um dos petistas
e cidadãos é independente e único sujeito de suas
próprias ações, decisões e opções.
Apenas não confio mais nos dirigentes do partido - os que estão
no governo e os que permanecem nas instâncias partidárias.
Sequer suponho que esse todo seja homogêneo.
Muitos dos que estão
no governo e permanecem e permanecerão no partido têm o direito
de assim procederem e não os transformo em meus inimigos, sequer
em adversários. Tenho a certeza de que continuarei a manter fraternais
amizades com muitos deles e continuarei a considerá-los membros
importantes da esquerda brasileira e lutadores pelas transformações
na sociedade brasileira em seu caminho por maior justiça, igualdade
social e socialismo.
Afasto-me porque não
votei nas últimas eleições presidencial e proporcional
no Partido dos Trabalhadores, reiterando um voto que se confirma desde
1982, para vê-lo governando com um programa que não foi apresentado
aos eleitores. Nem o presidente nem muitos dos que estão nos ministérios
nem outros que se elegeram para a Câmara dos Deputados e para o Senado
da República pediram meu voto para conduzir uma política
econômica desastrosa, uma reforma da Previdência anti-trabalhador
e pró-sistema financeiro, uma reforma tributária mofina e
oligarquizada, uma campanha de descrédito e desmoralização
do funcionalismo público, uma inversão de valores republicanos
em benefício do ideal liberal do êxito a qualquer preço
- o "triunfo da razão cínica", no dizer de César Benjamin
-, uma política de alianças descaracterizadora, uma "caça
às bruxas" anacrônica e ressuscitadora das piores práticas
stalinistas, um conjunto de políticas que fingem ser sociais quando
são apenas funcionalização da pobreza - enfim, para
não me alongar mais, um governo que é o terceiro mandato
de FHC.
Mesmo a "jóia da coroa"
do governo, sua política externa, tem não poucos aspectos
de retrocesso: a crença no livre comércio, em áreas
de mercados livres, na contramão da rica experiência latino-americana,
teorizada brilhantemente por Raúl Prebisch e Celso Furtado. Nem
o meu voto nem os dos milhões que confiavam em mudanças substanciais
no rumo do país e depositaram essa confiança no presidente
eleito e nos que o acompanham, no governo e no partido, foi dado para isso.
Minhas críticas ao
governo já são antigas, até antes da posse. Nelas,
todas públicas, em artigos e entrevistas, manifestei, sem rebuços,
não apenas minha discordância, mas minha convicção
de que, por esse caminho, não chegaremos a bom termo neste primeiro
governo federal do PT. Não estou só nesta posição.
Mas minha discordância
não se funda apenas - e esse apenas já seria muito - no que
poderia ser considerado um desvio conjuntural, uma operação
política tática para governar e atenuar os efeitos da herança
de FHC. Ela vai mais longe: há transformações estruturais
na posição de classe de um vasto setor que domina o PT, que
indicam uma real mudança do caráter do partido. E, como posições
de classe não se mudam com simples mudanças de nomes ou de
conjuntura ou de melhoria de alguns indicadores econômicos, considero
que o governo Lula está aprofundando a chamada "herança maldita"
de FHC e tornando-a irreversível. Não votei para esse aprofundamento,
mas contra ele.
Essa posição
crítica tem sido contínua e não se confunde com personalismos,
com acusações. Mesmo quando errei ao adjetivar a atuação
do ministro-chefe da Casa Civil, o que reconheci através de carta
que foi publicada, minha intenção foi chamar a atenção
para a repetição de práticas que apenas fizeram do
Brasil um dos países mais desigualitários do mundo capitalista,
apesar de ter sido o segundo em taxa de crescimento no século que
foi de fins do 19 até os anos 70 do século passado.
O reconhecimento de meu próprio
erro não foi acompanhado de gesto igual, pois sequer a correspondência
do próprio ministro através de seu advogado chegou ao conhecimento
público, informando que ele próprio havia sugerido a renúncia
à ação judicial que anunciara, substituindo-a por
uma troca de correspondência que considerasse as duas partes satisfeitas.
Isto é parte da sutil prática de desqualificação
aos que fazem oposição, a permanência do "homem cordial"
que não suporta a distância, que toma a assunção
de uma responsabilidade cidadã como retratação e covardia.
Ao invés de ver nela a recusa do princípio schmittiano da
política como relação amigo-inimigo, que pode contribuir
para liquidar de vez o que ainda há - e como! - de autoritário
na política brasileira.
Poderia alegar minha condição
de fundador do partido, muito antes que muitos que hoje desfrutam do poder
a ele tivessem chegado. Mas não me interessa glorificar nem heroicizar
minha posição: abomino as instituições de herança
aparentadas ao capitalismo e declino das homenagens.
Partido é uma associação
de cidadãos livres para um projeto coletivo de poder, na definição
clássica, baseada em alguma experiência comum, de qualquer
natureza, mas sobretudo de classe. Não é uma questão
afetiva, embora ao longo dos anos muitos laços afetivos importantes
tenham se construído. Quando a liga que faz o partido, o projeto
coletivo de poder para transformação da sociedade no sentido
do socialismo, e de mobilização da sociedade para tanto,
se esgota, então é hora de deixá-lo. As amizades,
se forem sólidas e para além do partido, continuarão.
Tampouco me movem ressentimentos,
como áulicos novos e antigos intrigam na corte de Brasília.
Qualquer dos intrigantes, na corte ou alhures, está desafiado a
relatar qualquer conversa que eu tenha tido a respeito de cargos ou funções
no governo. Salvo Paulo Vannuchi, e ele - tendo sido portador de uma mensagem
do já eleito, mas ainda não empossado presidente, em que
este dizia que os cargos de primeiro escalão teriam que ser negociados,
mas para qualquer cargo do segundo escalão, nas áreas de
minha competência e preferência, bastava eu escolher - sabe
de minha pronta recusa.
Abriu no meu escritório,
em conversa reservada que ele pediu, um imenso organograma do Estado brasileiro,
para localizar cargos ou funções de minha escolha. Pedi-lhe
que fechasse o organograma e dissesse ao presidente que eu nunca iria para
qualquer cargo governamental, mesmo o mais importante, pois a missão
do intelectual é exercer a crítica.
Foi a mesma conversa que
havia tido com ele dois anos antes na casa do professor Antonio Candido,
quando Marta Suplicy se elegeu prefeita de São Paulo, e o hoje presidente
mandou dizer igualmente que queria que eu escolhesse o cargo. E ele teve
a mesma resposta que lhe dei dois anos depois. Que foi a mesma resposta
que dei à companheira - sim, companheira - deputada Luiza Erundina,
quando se elegeu prefeita de São Paulo e convidou-me pessoalmente,
por telefone, ela mesma no aparelho, para ser seu secretário de
Planejamento. Declinei e indiquei o professor Paul Singer. Que terminou
sendo o excelente secretário de Planejamento de Luiza Erundina;
sem jactância, certamente ajudei Luiza a fazer a escolha, com que
São Paulo ganhou um de seus melhores secretários dos últimos
tempos.
Muitos acharão precipitada
a decisão, na convicção de que o governo Lula ainda
está em disputa. Não é o meu caso: o governo Lula
nunca terá a hegemonia, apenas a formação de maiorias
"ad hoc", sem nenhuma solidez.
O PT trocou a hegemonia que
se formava por um amplo movimento desde a ditadura, no qual o próprio
partido tinha lugar e função central, a direção
moral que reclamava transparência, separação das esferas
pública e privada, fazia a crítica do neoliberalismo, organizava
os trabalhadores, incluía os excluídos, indicava o caminho
do socialismo, pelo prato de lentilhas da dominação.
O PT no governo é
um prolongamento da longa "via passiva" brasileira, a expansão do
capitalismo da exclusão, a repetição do mesmo, desde
o aliancismo desembestado até as políticas dos tíquetes
do leite. O PT é hoje o partido de centro no espectro político
brasileiro, junto com aquele que escolheu como irmão, o PSDB: se
odeiam, mas são irmãos. E o pior é que não
sabe disso. Pensa que está reformando o país.
Embora transformações
estruturais que o próprio PT sempre subestimou ajudem a explicar
boa parte do seu aburguesamento, ou do seu envelhecimento precoce, nas
palavras de Marx e Engels, dois "renegados" pelo PT do poder, a responsabilidade
das lideranças é inescapável. E a do presidente assume
um lugar central: ele é a liderança carismática responsável,
posto que ela projeta uma sombra de proteção e encantamento
sobre os processos reais.
Quando a própria liderança
carismática não tem consciência desse papel que lhe
é imanente, então a política como atividade dos cidadãos
corre um sério risco, pois o mito anula a política. Aos cidadãos
cabe recuperar o sentido da política e o primeiro e essencial passo
é desmitificar o mito.
Francisco de Oliveira, 69,
é professor titular (aposentado) de sociologia do Departamento de
Sociologia da FFLCH (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas),
da USP, e coordenador-executivo do Centro de Estudos dos Direitos da Cidadania-Cenedic-USP |