A economia brasileira em 2003: mais
do mesmo
Jurandyr O. Negrão, Correio da Cidadania, 20 de dezembro, 2003. Os custos incorridos para segurar o dólar e a inflação não foram baixos.
O governo Lula assumiu numa situação evidentemente crítica: os credores externos não se dispunham a renovar os empréstimos que venciam, as reservas de dólares do Banco Central caíam para níveis alarmantes, a cotação do dólar se mantinha pressionada e a inflação, em alta. Findo o ano, a conjuntura é bem diferente: está fácil para o governo e as grandes empresas obter empréstimos externos, os estrangeiros voltaram a investir na bolsa de São Paulo, as exportações aumentaram muito. Em suma, estão “sobrando” dólares. Por isso mesmo a cotação do dólar caiu muito, o que ajudou a derrubar a inflação. Parcela do governo comemora essa virada como demonstração do acerto das opções de política macroeconômica: manter e até reforçar as diretrizes anteriores de corte de gastos públicos, aumento de impostos, aumento de juros; renovar o acordo com o FMI; e propor medidas (como a concessão de autonomia ao Banco Central) voltadas a dar garantias aos credores internos e externos de que essa linha de política veio para ficar. É evidente, no entanto, que fatores externos pesaram muito na virada que derrubou o dólar. Tanto que não foi só no Brasil que isso ocorreu, mas em grande parte dos países subdesenvolvidos. Os investidores internacionais, refazendo-se do susto provocado pelas fraudes contábeis (Enron, WorldCom) que derrubaram as bolsas de valores em 2002, bem como da incerteza em relação aos impactos da invasão do Iraque pelos EUA, voltaram a se dispor a aplicar nos chamados “mercados emergentes” – em busca de retornos mais altos, dado que nos países ricos os juros se encontram em níveis muito baixos. E esses juros baixos ajudaram a reativar as economias ricas, o que reanimou o comércio internacional, ajudando a viabilizar o salto das exportações do Brasil. Logo, a melhora do ambiente internacional foi crucial para os resultados alcançados pela política econômica no Brasil. Também é evidente que, preso numa armadilha financeira, num primeiro momento, o novo governo brasileiro dificilmente teria como escapar da linha de política macroeconômica que já vinha sendo implementada. Mas é inquietante constatar que, superada a situação inicial de emergência, o aumento do raio de manobra não esteja sendo aproveitado para se começar a alterar a política econômica. Parcelas do governo ainda falam em adotar políticas mais ativas – como o estímulo a setores industriais estratégicos – que possam acelerar o crescimento da economia e tornar sua sustentação menos dependente dos humores do mercado financeiro internacional. Mas não está nada claro se o núcleo da área econômica, dominado por pessoas de orientação liberal, vai se dispor a abrir o caixa para viabilizar essas iniciativas “heterodoxas”. Em suma, a ortodoxia na política econômica, que de início podia ser apresentada como um “recuo tático” do governo, ameaça se transformar em opção estratégica. Para fechar este rápido balanço de 2003, é preciso mencionar os custos incorridos para segurar o dólar e a inflação. Não foram baixos: a economia ficou estagnada; o desemprego voltou a subir; e o poder de compra dos trabalhadores sofreu nova queda - muito expressiva -, da ordem de 8% (pela estimativa do Seade) a 15% (de acordo com o IBGE). Jurandyr O. Negrão é economista. Fonte: Correio da Cidadania. Ed. 377, 20 a 27 dez. 2003
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