Lula retoma a rédea
Mauro Braga, Tribuna da Imprensa
29 de novembro, 2003

O discurso do presidente Luiz Inacio Lula da Silva, ontem, perante a platéia de exportadores no Hotel Glória, mostrou claramente que não há mais divisão no governo entre a ala desenvolvimentista e a ala ortodoxa. A partir de agora, a ordem é fazer o País voltar a crescer. E estamos conversados.

Ou seja, depois de aturar a política monetarista recessiva que vem sendo imposta pelo presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, o presidente Lula agora retoma plenamente as rédeas do governo, para encenar o tão ansiado espetáculo do crescimento.

É claro que a política implantada por Meirelles era necessária para acalmar o tal do mercado, digamos assim, mas o que vinha se discutindo era o prolongamento demasiado dessa orientação monetarista, que nos últimos meses só tem privilegiado o mercado especulativo, fazendo crescer ininterruptamente a dívida pública e inibindo o crescimento.

Agora, não há mais dúvida. O País vai crescer ou crescer, e o presidente mostrou claramente que esse processo desenvolvimentista será conduzido por ele próprio, que pronunciou um discurso nacionalista do mais alto nível, digno de entrar na História.

Prestígio
O ministro da Fazenda, Antônio Palocci, não está nem um pouco ameaçado, mas não há dúvida de que seu prestígio no Planalto já não é o mesmo.

Embora nenhum jornal tenta publicado uma só linha a respeito, recentemente o presidente Lula deu uma bronca homérica em Palocci, diante de outros ministros, porque ele fechou o acordo com o FMI sem consulta prévia ao presidente.

Meirelles
Na cúpula do PT e no governo, são cada vez maiores as restrições à atuação do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, e essa reação acaba desgastando também o ministro Antonio Palocci.

Na reunião que Lula promoveu sábado na Granja do Torto, o líder do governo no Senado, Aloizio Mercadante, interpelou Meirelles na frente de toda a equipe e da cúpula do PT, indagando por que os juros demoram tanto a cair.

O presidente do BC ficou lívido e deu uma resposta técnico-embromativa, enquanto a turma do deixa-disso mudava de assunto.

Estranho no ninho
Na verdade, Meirelles jamais foi aceito pelos petistas, apenas tolerado. Até mesmo no comportamento, ele destoa dos novos companheiros. Seus maneirismos e sua delicadeza transformam-no em um espécie de estranho no ninho. Não tem, nunca teve e jamais terá qualquer afinidade com o PT.

Renúncia
Para assumir a presidência do Banco Central, Henrique Meirelles teve de renunciar ao mandato de deputado federal pelo PSDB de Goiás, onde conseguiu 182 mil votos, à$ cu$ta$ de um e$forço e$petacular.

Esse desprendimento é levado em consideração pelo presidente Lula, mas não há dúvida de que o chefe do governo já perdeu a paciência com os sucessivos adiamentos da estréia do espetáculo do crescimento.

Juros
Na quinta-feira, o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, evitou fazer projeções sobre o crescimento da economia este ano, mas reconheceu que será inferior às expectativas criadas antes do início do mandato de Lula.

"Tivemos um ano muito duro, mas colhemos frutos desse ajuste: uma projeção de inflação futura abaixo de 6%, juros futuros de um dígito e indicadores muito melhores para um processo de crescimento sustentado que já começou", afirmou.

Detalhes
A ala desenvolvimentista do governo é formada, entre outros, por Alencar, Furlan, Mantega, Mercadante, Dulci, Gushiken e, principalmente, pelo próprio Lula, que vai cobrar esses juros futuros de um dígito, ou seja, abaixo de 10% ao ano.

Ocorre que Palocci e Meirelles, quando falam em juros de um dígito, estão se referindo a juros reais, acima da inflação. Como a inflação futura está projetada em 5,5% ao ano, se os juros reais baixarem a um dígito (9,5%, digamos), teremos uma taxa básica Selic de 15%. Ou seja, pouquíssima diferença para os atuais 17,5%.

A briga vai rolar nesses detalhes, que não são pequenos como os de Roberto Carlos.


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