Reforma Universitária do governo
Lula: Protagonismo do Banco Mundial e das lutas antineoliberais
A manutenção
do superávit primário de 4,25% do PIB até o final
do mandato impossibilita a expansão do fornecimento público
e, pior, até mesmo a manutenção das instituições
existentes. Por isso, o mercado é tido como a tábua de salvação
das promessas de campanha, concorrendo, para a perseguida governabilidade
da ordem existente.
Prof. Roberto Leher (UFRJ/CLACSO-LPP-UERJ),
dezembro de 2003
O governo Lula da Silva
recolocou em movimento a engrenagem de uma reforma universitária
que, se exitosa, estraçalhará a concepção de
universidade da Constituição Federal de 1988 e o futuro dessas
instituições. A partir de um tripé constituído
pelo Banco Mundial, pelo próprio governo de Lula da Silva e por
uma ONG francesa, ORUS, dirigida por Edgar Morin, está sendo erigido
um falso consenso que poderá redefinir profundamente a universidade
brasileira e quiçá de diversos países latino-americanos,
representando a vitória de um projeto asperamente combatido por
sindicatos, estudantes, reitores, entidades científicas, fóruns
de educadores e partidos, no curso da última década: a conexão
com o mercado e, mais amplamente, a conversão da educação
em um mercado. E, não menos relevante, será mais uma oportunidade
perdida de reforma verdadeira dessas instituições que, ao
longo de sua breve, mas intensa história, ainda não viveram
um processo democrático de reforma, a partir de seus protagonistas,
para afirmá-la como instituição pública, gratuita,
autônoma, universal, locus de socialização e de produção
de conhecimento novo.
Com efeito, após duas
décadas de resistências às reformas do Banco Mundial,
a realização de seu programa educacional seria uma amarga
e profunda derrota para a universidade pública. Os (neo) crédulos
poderiam objetar que o Banco aceitaria uma nova agenda menos deletéria
para a universidade, pois a organização criada em Bretton
Woods, conforme certa leitura sui generis de sua história recente,
tem demonstrado maior preocupação social. Ademais, a assessoria
do ORUS, entidade dirigida inclusive pelo ministro da educação
brasileiro, e a própria natureza do governo Lula, cujo partido tem
estreita ligação com as lutas educacionais, poderiam criar
um novo marco, superando, assim, os históricos propósitos
neocoloniais do Banco.
Somente renunciando ao pensamento
crítico, é possível edulcorar a ação
dos organismos internacionais na América Latina, uma região
compungida a exportar capitais para o circuito comandado por Wall Street
e Washington, em troca de estagnação, miséria e sofrimento
de milhões de pessoas[1]. O objetivo supremo das políticas
de ajuste estrutural do Banco Mundial e do FMI segue sendo viabilizar o
pagamento dos ignominiosos juros e serviços da dívida, em
favor do capital rentista. Ao assinar um acordo com o FMI, o país
“flexibiliza” a sua soberania, chegando, até mesmo, a mudar os seus
textos constitucionais para atender “as condicionalidades inscritas nesses
acordos", como fizeram a Argentina, o Brasil e o México, tristes
exemplos dessa situação. Em continuidade, os acordos reduzem
as políticas sociais a ponto de, no limite, restringir os direitos
sociais à manutenção vegetativa da vida dos miseráveis
(campanhas contra a fome) e, para assegurar a governabilidade, sustentam
medidas focalizadas capazes de aliviar a pobreza para assegurar o controle
social, atualmente uma das maiores preocupações do Banco
Mundial, em virtude da devastação social, e do conseqüente
aumento na tensão social, provocado pelas políticas neoliberais.
No plano educacional, é
sobejamente conhecido que as políticas de ajuste estrutural do Banco
Mundial contribuíram decisivamente para inviabilizar a educação
e em particular as universidades da África subsaariana[2]
e, no caso da América Latina, impediram que os governos mantivessem
as universidades entre as prioridades das políticas públicas,
contrapondo o direito aos conhecimentos científico, tecnológico
e artístico à alfabetização e às primeiras
letras, estas últimas tidas apenas como ações focalizadas
para os que foram eleitos como os mais pobres. Como desdobramento, o fornecimento
privado conheceu um crescimento colossal no Brasil[3] e em toda
a região, aprofundando o neocolonialismo.
De fato, o abandono da responsabilidade
do Estado no fomento a produção de conhecimento estratégico
agrava a condição capitalista dependente dos países
periféricos. Conforme o relatório anual da UNCTAD (2003),
países como Argentina e Brasil passaram a conhecer um processo de
desindustrialização, enquanto outros, como o México,
vivem uma industrialização de enclave (maquilas). É
muito importante observar que essa política subalterna é
praticada pela coalizão de classes dominantes locais, dirigidas
em conformidade com os centros hegemônicos do capital. No Brasil,
o exemplo mais ilustrativo dessa situação pode ser simbolizado
pelo presidente do Banco Central, Henrique Meirelles[4] que,
junto com os ministros da agricultura e do desenvolvimento, representa
os setores que hoje têm a supremacia na coalizão de governo:
financeiro, agrobusiness e commodities.
Coerentemente, recente “pacote”
que vem sendo operacionalizado entre o Banco e o governo brasileiro tem
como condicionalidade o fim da gratuidade do ensino superior[5],
posição que, como ficou exposta no discurso do ministro da
educação na UNESCO, conta com sua plena simpatia[6].
Maior entusiasmo pelo fim da gratuidade pode ser encontrado na área
econômica, visto a sua ortodoxia neoliberal, como fica evidente nos
documentos do Ministério da Fazenda e, em particular, no documento
“Gasto Social do Governo Central: 2001 e 2002” que, em conformidade com
o teórico da direita da Escola de Chicago, Gary Becker, postula
que o ensino superior gratuito é o principal obstáculo à
concretização da justiça social no país, recomendando
empréstimos aos estudantes para que estudem nas escolas privadas,
uma opção mais econômica segundo o documento.
No que ainda restar como
setor público, o Chefe da Casa Civil, José Dirceu, sugere
que as instituições terão de se ajustar ao mercado,
como previsto na Lei de Inovação Tecnológica, originalmente
proposta pelo governo Cardoso (PL 7282/2002) e vigorosamente criticada
na academia, notadamente por significativos setores da SBPC, colegiados
superiores e sindicatos: “Vamos mudar toda a relação da universidade
com o empresariado, empresas, fundos de investimento. Citou, como bons
exemplos, o ensino superior da China e da Coréia do Sul” (FSP, 5/12/03),
casos que não poderiam ser mais desastrosos para a universidade
brasileira: ambos países flexibilizaram a gratuidade e não
asseguram liberdade de cátedra, sendo que, no que refere-se a relação
entre a oferta pública e privada, o modelo coreano é muito
semelhante ao existente no Brasil, ademais, na Coréia grande parte
da pesquisa é direcionada para três grandes conglomerados:
Daewoo, Hyundai e Lucky-Gold Star[7].
Com efeito, a manutenção
do superávit primário de 4,25% do PIB até o final
do mandato impossibilita a expansão do fornecimento público
e, pior, até mesmo a manutenção das instituições
existentes. Por isso, o mercado é tido como a tábua de salvação
das promessas de campanha, concorrendo, para a perseguida governabilidade
da ordem existente. Com a reforma, dois problemas que afetam a governabilidade
poderiam ser operados: a despolitização do desemprego (reconfigurado
como um problema de qualificação), ocultando o debate sobre
o modelo econômico adotado por Lula da Silva, e a desestruturação
dos principais loci em que o pensamento crítico sistemático
vem sendo produzido. Por isso, são compreensíveis as ameaças
do Chefe da Casa Civil: como a reforma não objetiva o fortalecimento
da universidade pública, gratuita, autônoma e capaz de produzir
livremente conhecimento, José Dirceu adiantou, antes mesmo de submeter
suas propostas ao debate, o método obscurantista para a sua aprovação:
“o pau vai comer”, disse o Ministro[8].
A admissão do uso
de coerção contra os que se opuserem à reforma, encaminhada
pela tríade mencionada, indica que a coalizão governamental
pretende, de fato, redefinir as universidades em organizações
sociais competitivas e inseridas no mercado, concluindo o Plano Diretor
da Reforma do Estado, encaminhado por Cardoso. Mais do que por uma razão
econômica concreta, visto que o mercado capitalista dependente não
requer a produção de conhecimento novo, a expansão
virtual[9] e a vinculação estreita universidade-empresa
atendem a imperativos políticos no complexo terreno das ideologias.
Em um contexto de terrível desemprego, notadamente entre jovens,
e de impossibilidade – nos marcos da política macroeconômica
com foco na inflação[10] - de políticas
que permitam a reversão desse quadro[11], a transformação
das instituições de ensino em depositárias das esperanças
de inserção social de vastos setores da juventude é
– e tem sido – largamente utilizada pelos governos neoliberais como um
importante instrumento de governabilidade.
Quanto ao ORUS, os seus antecedentes
também não são alentadores. Edgar Morin, a despeito
de suas reflexões epistemológicas, que mereceriam um estudo
a parte, foi um dos mentores da contestada reforma de Claude Allègre,
no período de conversão neoliberal de Mitterrand, que pretendia
adequar os liceus e universidades às necessidades empresariais[12],
projeto que, em virtude da intensa oposição dos sindicatos,
por meio de expandidas greves e manifestações, e de intelectuais,
como Pierre Bourdieu e outros[13] que não colocaram os
seus talentos a serviço dos governos neoliberais, acabou não
se viabilizando, ao menos não nos termos das pretensões primeiras.
Fracassado no centro do capitalismo, o “modelo da complexidade” está
sendo vendido como uma nova referência a ser seguida na periferia,
em especial no Brasil e na Venezuela, coincidentemente países com
grandes mercados educacionais.
Os operadores do ORUS pensam
que, com o seu projeto, os atrasados latino-americanos poderão ser
finalmente “civilizados” pelo que Morin denomina pensamento “complexo”.
Como bons conhecedores dos métodos de ajuda aos povos primitivos,
sabem que não é possível aplicar um pacote sem que
o mesmo tenha um verniz de participação social autóctone.
Na reforma Allègre, Morin liderou uma consulta por meio de formulários
padronizados distribuídos aos estudantes e aos professores dos liceus
(cujos questionários são um esplêndido contra-exemplo
de cientificidade, tanto ao nível da coleta de informação,
como de seu impossível tratamento estatístico)[14].
No Brasil, um território
tido como menos exigente no trato democrático dos assuntos públicos,
optou-se por uma cyber participação através de uma
lista de discussão não publicizada. Este simulacro de participação
seria apenas mais uma mera formalidade burocrática, não fosse
o seu conteúdo pleno de colonialidade: em apenas duas páginas[15],
os operadores do ORUS ensinam o que é uma lista de discussão,
como os brasileiros devem se portar para poder utilizá-la e o que
pode ser sugerido ou proposto como temas para “adequar as nossas universidades
às novas tecnologias e ao mercado”. Após ORUS nos explicar
que um fórum de debates é um lugar de discussão e
que, por conseguinte, devemos estar atentos ao que dizem os demais participantes,
e, ainda, após oferecer instigantes “conselhos” sobre como redigir
uma mensagem (objetivo, espaços entre os parágrafos, resumo
das idéias principais, etc.), faz uma advertência: o moderador
do ORUS se reserva ao direito de “selecionar” as mensagens “pertinentes”
(SIC!). Para facilitar a comunicação da atrasada comunidade
acadêmica autóctone com o pensamento complexo, numerosos exemplos
são oferecidos aos participantes:
Nesta sala de debates, os
participantes deverão desenvolver mensagens que exprimam o que significa
para o Brasil a reforma do pensamento universitário e como fazê-la.
Deverão sugerir como mudar o pensamento sobre o ensino dado hoje
pelas universidades brasileiras, o que deve ser conservado e o que pode
ser aprimorado. Eles poderão dar exemplos específicos de
algum curso em particular ou falar de um modo geral. Também poderá
incluir fatores externos que influencia diretamente no pensamento da reforma.
A seguir, o ORUS informa
aos internautas o que o MEC ainda não havia comunicado aos cidadãos
brasileiros ou, melhor, aos sujeitos caracterizados como os interlocutores
potenciais do MEC-ORUS:
O MEC quer saber o que pensa
e o que espera a sociedade brasileira do ensino universitário, para
poder prosseguir a reforma e, com isso, adequar a educação
brasileira às novas tecnologias e demandas do mercado. Não
é de hoje que ouvimos dizer que os recém-formados saem das
universidades despreparados para o trabalho. Por isso, esse fórum
é destinado a todos os setores da sociedade como: professores,
alunos, pais, empresários, que terão a oportunidade de
contribuir para melhorar a formação dos futuros profissionais
(destaques, RL).
Cabe observar que, conforme
ORUS, o MEC já encaminha uma reforma e que a mesma terá continuidade.
Embora registre que o MEC quer saber o que espera a sociedade brasileira,
ORUS, a priori já tem uma resposta: “adequar a educação
brasileira às novas tecnologias e demandas do mercado”. ORUS comunica
também que o trabalho acadêmico desenvolvido nas universidades
públicas brasileiras é incapaz de preparar para o trabalho.
Curiosamente, ORUS não menciona as urgentes providências para
minorar a catástrofe que o país deveria estar enfrentando
em virtude do despreparo de seus engenheiros, enfermeiros, médicos.
etc., considerando que, até para que o ORUS (e o sujeito oculto,
o Banco Mundial) possa ensinar às universidades como formar profissionais
“aptos ao trabalho”, ao menos cinco ou seis anos serão necessários
para atingir “profissionais -ORUS”.
Após três meses
de fórum ORUS, realizado, em tese, sob a égide do paradigma
da complexidade (que, nos trópicos, deve ter uma única idéia
por mensagem conforme nos ensina a referida instrução), foi
realizado um seminário internacional[16] co-patrocinado
pelo Banco Mundial, em que os conferencistas teriam acesso aos debates
realizados e um documento consensual seria aprovado. Nem mesmo Cardoso
convocou o Banco Mundial para ministrar as suas lições derivadas
da experiência mas, com Lula da Silva, o Banco assume lugar de destaque:
apresenta e financia a sua proposta ou, antes, o consenso em torno de sua
proposta (sabemos que se não houver consenso, as condicionalidades
do Banco podem ser impostas!). É certo que, entre os convidados
ao referido Seminário, existem alguns poucos intelectuais comprometidos
com a universidade pública, mas este fato em nada modifica o seu
arcabouço geral. Considerando que os educadores estiveram entre
os principais protagonistas dessas lutas, a omissão de todos aqueles
que resistiram e defenderam o ensino público é ainda mais
significativa. De outra parte, a inclusão de intelectuais que formularam
o projeto neoliberal de Cardoso entre os conferencistas, sem a possibilidade
de apresentação de argumentos que critiquem esse projeto
de universidade, assume ainda maior dimensão: ratifica e busca legitimar
uma opção política! Não é casual,
portanto, que, no referido seminário, não tenham sido convidados
como conferencistas os representantes dos sindicatos, das entidades científicas
e dos dirigentes.
A conclusão de que
os países periféricos devem importar os modelos dos países
do Norte é crucial para o futuro do Acordo Geral sobre o Comércio
de Serviços da OMC. Os países do Norte exportarão
conhecimento escolar, como ocorre hoje com as patentes! Essa ofensiva,
presente também na agenda do ALCA, tem como meta edificar um mercado
educacional ultramar, sacramentando a heteronomia cultural. Mas o pré-requisito
é converter, no plano do imaginário social, a educação
da esfera do direito para a esfera do mercado, por isso o uso de um léxico
empresarial: excelência, eficiência, gestão por objetivos,
clientes e usuários, empreendedorismo, produtividade, profissionalização
por competências, etc.
Esse léxico é
contraposto às políticas públicas universais e ao
modelo universitário consagrado na Carta de 1988, cujos defensores
são desqualificados como corporativistas, elitistas, privilegiados,
insensíveis ao drama social. Nesse jogo de significações
aparentemente difusas, o governo joga o povo pobre (os camponeses, citados
por Lula) contra os privilegiados servidores da universidade (os professores,
conforme o mesmo Lula) (mensagem: o camponês é pobre porque
os professores têm muitos privilégios, nada tendo a ver com
a estrutura fundiária!), a exemplo do que fizera na reforma da previdência.
Assim, reformas regressivas, privatistas, anti-republicanas e que beneficiam
os ricos, são apresentadas aos de baixo como uma vitória
da justiça frente aos privilégios.
Diante dessa ofensiva sem
precedentes contra o ensino público, reitores, colegiados acadêmicos,
sindicatos, professores, pesquisadores, técnicos e administrativos
e, sem dúvida, os estudantes, terão de criar espaços
democráticos de discussão para construir e difundir na sociedade
uma agenda de reforma verdadeira das universidades brasileiras. Questões
como: estratégias de universalização, autonomia, democracia,
controle social das instituições privadas, articulação
ensino-pesquisa, financiamento público das instituições
estatais, condições de trabalho dos trabalhadores da educação,
assistência estudantil, democratização efetiva dos
órgãos de fomento a C&T, colonialidade do saber, integração
com os países periféricos e centrais, criação
de um espaço universitário latino-americano, patentes e propriedade
intelectual, entre tantos outros que vêm sendo demandados pela maioria
da sociedade brasileira.
Toda a experiência
de coalizão dos setores devotados a causa do ensino público,
notadamente do Fórum Nacional em Defesa da Escola Pública,
terá de ousar novos patamares organizativos para que a educação
possa se fazer presente, de forma massiva, no espaço público
– nas praças, nas ruas, nas escolas e universidades. A privatização
não passará, apesar do Banco Mundial e de seus velhos e novos
aliados!
O original do texto do professor
está em www.desempregozero.org.br,
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