PT expulsa radicais do partido
Ricardo Mignone, da Folha
Online
14 de dezembro de 2003
O Diretório Nacional
do PT decidiu, por 55 votos a favor e 27 contra, expulsar do partido os
deputados Luciana Genro (RS) e João Batista, o Babá (PA),
e a senadora Heloísa Helena (AL). Segundo o deputado distrital Chico
Vigilante (DF), o senador Eduardo Suplicy (SP) tentou colocar em votação
a opção de suspender os radicais por seis meses do partido.
Mas o pedido foi negado pelos integrantes do Diretório.
Segundo Vigilante, o discurso
mais veemente contra os radicais foi feito pelo líder do governo
no Senado, Aloizio Mercadante (PT-SP). Segundo Mercadante, os radicais
optaram por uma "construção" diferente e espera que eles
estejam errados e que se arrependam no futuro.
Ainda de acordo com relatos
de Vigilante, a senadora Heloísa Helena chorou muito logo depois
da decisão. "Eles ainda estão lá dentro meio perplexos",
relatou o deputado. "Essa decisão [expulsão], que eu acho
que demorou muito, é a que o partido esperava", disse Vigilante.
No início da tarde,
o diretório já havia decidido desligar dos quadros do PT
o deputado João Fontes (SE). Foram 55 votos a favor da expulsão,
26 contra e uma abstenção. O diretório se reuniu no
hotel Blue Tree Park, em Brasília.
Petistas históricos deixam partido
após expulsões
Leandro Konder, Milton Temer
e Carlos Nelson Coutinho decidiram abandonar o PT para abrir um novo fórum
de discussões de esquerda. Nilson Brandão Junior, Agência
Estado, 14 de dezembro, 2003
As expulsões definidas
hoje pelo PT levarão petistas históricos a deixarem a legenda
e abrirem um novo fórum de discussões de esquerda. "Vamos
continuar discutindo alternativas de ação política,
que devem resultar num fórum, que pode resultar numa legenda alternativa
que recupere a simbologia original do PT", disse o ex-deputado Milton Temer.
Amigos há 40 anos, ex-militantes do Partido Comunista Brasileiro
(PCB) e no PT desde a segunda metade dos anos de 1980, Temer, o filosófo
Leandro Konder e o professor da UFRJ Carlos Nelson Coutinho decidiram deixar
o partido, em função da decisão tomada hoje na reunião
do Diretório Nacional do PT.
"As expulsões de hoje
foram a gota d’água. A gente já estava sentindo que o partido
vinha se adaptando demais a uma visão estritamente administrativa
e governamental, sem grandeza, sem ideais. A expulsão precipitou
nossa decisão", disse Konder. Para o intelecual, no lugar de punir
os descontentes, o PT deveria estimular o debate. "Um partido que está
no poder sofre uma ação amolecedora da ideologia, então
tem de cultivar a inquietação, a discussão interna",
disse Konder. Na sua avaliação, o PT era, na origem, heróico,
combativo e não reprimia a discussão.
Tucanos
"Não há nenhuma
dúvida de que acabou o projeto do PT enquanto legenda de transformação
social do país", afirma Temer. O ex-deputado antevê, inclusive,
uma aproximação futura do partido com o PSDB. "O PT vai ser
o partido majoritário de uma composição social-liberal,
onde mais tarde o PSDB vai se incorporar. Não tem nenhuma dúvida.
O PSDB não tem a menor divergência ideológica com o
governo Lula e a nova visão do PT. O que há é uma
irritação, de cobrança de direitos autoriais sobre
a obra", comentou o ex-deputado petista, referindo-se ao que considera
um formato semelhante de condução do governo e da economia.
Após expulsão, PT adverte
os outros rebeldes
Agência
Estado, 14 de dezembro, 2003
O PT expulsou os quatro radicais
mas continuará com o dilema: ser governo e conviver pacificamente
com os rebeldes. Mas o comando partidário adverte aos cerca de 30
parlamentares de esquerda que, daqui para frente, não vai tolerar
dissidências e quem cometer infrações será punido.
Segundo o secretário de Organização do partido, Sílvio
Pereira, “se algumas tendências não mudarem sua prática
e discurso irão para o caminho do confronto”.
Apesar de os dirigentes pretenderem
agora unificar o discurso para ter coesão na sustentação
política do governo, a expectativa é de que os embates vão
se repetir já no próximo ano, quando estarão em pauta
assuntos polêmicos como a autonomia do Banco Central e reformas trabalhista
e sindical. São pontos que não unem as várias tendências
dentro do partido.
Na avaliação
do presidente do partido, José Genoino, todos as correntes do PT
terão espaço para o debate, mas serão obrigados a
seguir a orientação partidária no voto. “O PT sai
deste episódio reafirmando a condição de partido pluralista
mas de unidade de ação”, disse.
O secretário-geral
do PT, deputado Jorge Bittar (PT-RJ), acha que a expulsão dos radicais
não desgastará o partido nem significa uma guinada para o
centro e o afastamento da esquerda. “O PT fica como está, nem menos
nem mais de esquerda. Acho que o partido saiu fortalecido, pois foi uma
decisão de dois terços do diretório nacional”, disse.
Contra e a favor
Além do líder
do governo no Senado, Aloizio Mercadante, discursaram pela expulsão
dos radicais do PT o ministro da Educação, Cristovam Buarque,
a senadora Ideli Salvatti (SC), o deputado Paulo Delgado (MG), e o o deputado
federal Carlos Abicalil (MT). Já pela defesa, falaram os deputados
Chico Alencar (RJ) e Walter Pinheiro (BA), o senador Eduardo Suplicy (SP)
e Rogério Corrêa, Marcos Socol e Jorge Almeida, membros do
Diretório. Os integrantes dos quadros do PT falaram revezando-se
nas posições.
A senadora Heloisa Helena
(AL) e os deputados Luciana Genro (RS) e João Batista, o Babá
(PA), foram expulsos do partido nesta tarde por 55 votos a favor e 27 contra.
O deputado João Fontes também deixou de pertencer ao PT,
mas em rito sumário, com os mesmos números da votação
que tirou seus colegas. [Globo online]
Plano da cúpula petista é
varrer dissidências
Além de afastar os
radicais, idéia da direção é enquadrar de vez
a rebeldia interna. Vera Rosa e Mariana Caetano, Estado
de S. Paulo, 14 de dezembro, 2003
Depois da expulsão
dos radicais, marcada para hoje, o PT quer enquadrar as facções
à esquerda no mosaico ideológico de tendências que
se aglomeram no partido desde sua fundação, em 1980. Na prática,
mais do que um embate sobre a reforma da Previdência, o expurgo da
senadora Heloísa Helena (AL) e dos deputados Luciana Genro (RS),
João Batista de Araújo (PA), o Babá (PA), e João
Fontes (SE) tem por trás as discordâncias sobre a forma de
governar desde que o PT vestiu o figurino de centro, ainda na campanha
eleitoral.
"Estamos começando
a ficar preocupados: não vamos mais tolerar dissidências permanentes
nem partido dentro do partido", diz o secretário de Organização
do PT, Sílvio Pereira, numa referência aos atritos entre as
facções internas. Pereira é um dos que falarão
contra os rebeldes hoje, no segundo e último dia da reunião
do Diretório Nacional. "A pior coisa numa legenda é quando
os ataques vêm de dentro", completa o presidente do PT, José
Genoino.
Atualmente, cerca de um terço
dos 93 deputados petistas escancara sua insatisfação com
os rumos do partido e do governo para quem quiser ouvir. É o chamado
"Grupo dos 30", que deu trabalho na reforma da Previdência. A cúpula
moderada nega que esteja em curso uma caça às bruxas, mas
avisa que o PT não mais admitirá indisciplina em suas bancadas
na Câmara e no Senado. "Se continuar assim, o presidente Lula não
vai mais precisar de adversários", ironiza Genoino. Ex-radical,
ele diz estar tranqüilo, apesar de aborrecido com o clima ruim no
partido.
Desgaste
Na tentativa de contornar
o desgaste, Genoino anuncia que em 2004 promoverá vários
seminários. Na lista dos planos está uma conferência
nacional para unificar o discurso dos petistas na eleição
municipal, a primeira após a vitória de Lula.
"O problema é que
há uma crise de legitimidade nas posições do PT",
reclama o deputado federal Ivan Valente (SP), da tendência Força
Socialista. "As decisões do encontro de Olinda, em dezembro de 2001,
foram totalmente violadas pela Carta ao Povo Brasileiro."
A queixa de Valente é
repetida por todas as alas mais à esquerda no PT. Motivo: o texto
a que ele se refere, de junho do ano passado, representa uma verdadeira
guinada do partido. É na carta que o então candidato Lula
se compromete a honrar todos os contratos, trabalhar pelo equilíbrio
fiscal e fazer superávit primário "o quanto for necessário"
para tirar o País da crise.
Redigido pelo prefeito Celso
Daniel um mês antes de seu assassinato, o documento com as diretrizes
do programa de governo de Lula, aprovado no encontro de Olinda, era tão
radical que foi batizado de "A ruptura necessária". Um dos seus
motes era "denunciar" o acordo com o Fundo Monetário Internacional
(FMI).
"Esse PT de hoje não
é mais o que construímos: é um partido transgênico,
geneticamente modificado", protesta Babá, da Corrente Socialista
dos Trabalhadores. Para Heloísa Helena, o PT se transformou em "anexo"
do Palácio do Planalto e enrolou bandeiras históricas. "Imagino,
então, que o comando do partido esteja à beira do divã
para resolver tantos problemas ideológicos".
No contra-ataque, Sílvio
Pereira afirma que os insatisfeitos deveriam ter tido a "dignidade" de
sair do partido antes da expulsão. "São hipócritas",
avalia. Para ele, também a Democracia Socialista, corrente de Heloísa,
terá de assumir o ônus de ser governo e se enquadrar. A resolução
apresentada pela D.S. na reunião do diretório desagradou
aos moderados por dar muitas estocadas no Planalto e reivindicar a rápida
mudança de rota.
Chapa-branca
Dora Kramer, Jornal
do Brasil, 14 de dezembro, 2003
De um artificialismo
atroz o manifesto em defesa da expulsão dos rebeldes do PT, divulgado
em ato público, sexta-feira, em Brasília. Os signatários
eram todos cartas marcadíssimas, como sindicalistas ligados ao partido,
presidentes de diretórios, diretores de associações,
tudo gente vinculada ao aparelho partidário.
Promover manifestações
encomendadas é prática comum não em legendas como
o PT, de forte base social, mas em partidos de cúpulas, sem militância
de rua nem vivacidade partidária. Uma demonstração
de que a direção pode ter maioria, e tem, mas não
consegue fazer mobilização verdadeira, com representação
dos militantes.
Se conseguisse, teria feito
um abaixo-assinado defendendo as expulsões para se contrapor aos
vários documentos - alguns com milhares de assinaturas - pedindo
a conciliação.
O manifesto, assinado por
34 deputados federais e cinco senadores do PT, poderia ter tido como resposta
um abaixo-assinado da maioria das bancadas da Câmara e do Senado.
Teria sido uma vitória política da direção
que, pelo jeito, não obteve apoio para tal.
Silêncio cúmplice
de petistas
Globo online: (...)
a senadora Heloisa Helena foi levada a um carro de som onde fez um rápido
discurso, antes de entrar na reunião do diretório nacional
do PT que decidirá sobre sua expulsão do partido. Ela criticou
o que chamou de "silênio cúmplice" de vários petistas.
Globo
online aqui
Vai sonhando
Globo online: O presidente
do PT, José Genoino, chegou neste domingo para a reunião
do diretório nacional do partido minimizando a possibilidade de
os radicais se livrarem da cassação.
Genoino admitiu, no entanto,
que um gesto da senadora Heloisa Helena poderia mudar a decisão.
Ele citou a hipótese, considerada remota, de a senadora fazer um
discurso pró-governo na reunião do diretório. "Ainda
espero um gesto", disse Genoino.
Até o hotel é
burguês
JB Online: (...)
Ele [Babá] acusou o governo Lula de estar sendo comandado pela ''direita
do PT'', exemplificando que o próprio local da reunião do
diretório é um hotel que pertence ao senador Paulo Octávio
(PFL-DF), ''que deve mais de 20 milhões de reais à Previdência''.
Original aqui
Mais
As diárias variam
de R$ 250 a R$ 480 e a meia garrafa de água mineral custa R$ 3,50.
O medo da voz contra
Dora Kramer, Jornal
do Brasil, 28 de novembro, 2003
A senadora Heloísa
Helena votou contra a reforma da Previdência, o governo ganhou por
um placar de 55 a 25 votos e o PT continua firme e forte como nunca. Inabalável
a ponto de o presidente da República já falar em permanência
no poder ''até quando puder''.
Pois diante de cenário
tão singelo e cristalino, cabe a dúvida: por que as cúpulas
do PT e do governo têm tanto medo de Heloísa Helena, qual
o risco objetivo que ela representa ao partido ou ao Planalto?
O único possível
de vislumbrar no momento é o da senadora representar o grito intermitente
da auto- crítica e, junto ao eleitorado, terminar fazendo mais sucesso
que o sisudo e autoritário PT que pretende expulsá-la por
crime de lesa-obediência.
Se for isso, os algozes apresentam-se
mesquinhos, pois, na realidade, apenas não se conformam com a liberdade
de Heloísa Helena para pensar como quiser e defender as idéias
há muito de todos conhecidas.
A cada dia perde mais sentido
a expulsão da senadora, pela semelhança da história
a uma mera demonstração de sovinice política. Trata-se
de vingança - e não há outra explicação
possível - contra quem ousa divergir completa e atrevidamente.
É disso que se trata
e não de disciplina partidária como disse anteontem o presidente
da República ao mostrar-se contrário à concessão
de indulto (note-se a conotação criminosa do termo utilizado)
à rebelde.
Nas relações
do governo com o Congresso não é possível identificar
apreço por regras institucionais ou partidárias. A maioria
forma-se a poder de cooptação fisiológica sem o menor
pudor no que tange ao respeito à organicidade dos partidos.
Nesse quadro, como expulsar
do partido alguém cujo crime é alegação de
fidelidade à própria consciência? Não há
sustentação moral nos argumentos da expulsão.
Quando o momento da decisão
chegar, agora em dezembro se não houver mais outro adiamento, o
partido precisará estar bem preparado para enfrentar o debate sobre
o desconforto causado pela presença de Heloísa Helena e o
conforto da convivência harmoniosa com métodos e forças
do atraso.
É aceitável
a argumentação dos governistas segundo a qual o poder modifica
prioridades e pontos de vista.
Bem como, sabe-se o quanto
é sempre necessária alguma concessão ao retrocesso,
a fim de assegurar o avanço. Isso é doutrina consagrada.
Inaceitável, porém,
é a aplicação, nesta altura da história universal,
de processos autoritários mais condizentes com as senzalas, para
usar imagem nacional.
Desde o início das
divergências - quando, na eleição, a senadora recusou-se
a fazer aliança com o PL alagoano submisso a Fernando Collor -,
a direção do partido manifesta predileção pela
metodologia da chibata.
Tanto que o processo instaurou-se
na comissão de ética do PT antes mesmo de Heloísa
Helena concretizar a indisciplina no voto contra. É uma queda-de-braço.
Desnecessária, pois
o PT tem tudo: o poder, os partidos, a opinião pública, a
reverência de quase todos nas emissoras de televisão, o Congresso,
a Igreja, a universidade, o Estado e a sociedade.
Já tem o suficiente.
Não precisa também se apropriar da consciência de uma
mulher.
Se não fosse tanta
a dificuldade em conviver com a divergência no poder; não
fosse a impossibilidade de rechaçar verdades incontestáveis;
não fosse a incapacidade de ouvir o que não quer; não
fosse o descontrole da prepotência que só sacia ante a total
subserviência; não fosse tudo isso, Heloísa Helena
poderia ficar exatamente onde está.
Não é nela
que reside o risco.
Corpos moles
Ficou pronta, para ser examinada
pela comissão especial da Câmara que trata do assunto, a proposta
final de redução do tempo de recesso e da quantia paga aos
deputados no caso de convocação extraordinária.
O grupo que toca o assunto
- aquele mesmo que devolveu o dinheiro da convocação de julho
último - queria acabar com o recesso mas teve de se contentar com
um meio-termo.
Em seu relatório,
os deputados Orlando Desconsi (PT-RS) e Isaías Silvestre (PSB-MG)
propõem férias de 45 dias - e não de três meses
como é hoje - e o pagamento de um, e não mais de dois, salário
extra quando for suspenso o recesso.
Ainda assim, relata o deputado
Chico Alencar (PT-RJ), a reação é grande. ''Se a opinião
pública não pressionar, vai continuar tudo como está'',
diz ele.
Novo rumo
Surge, devagar e sorrateira,
uma tendência na seara tucana. Uma parte do PSDB que saiu do poder
e voltou a seus Estados já conversa com uma parcela do PT, que não
está gostando do que vê em Brasília, sobre a possibilidade
de fazer política junto.
Por enquanto, com a adesão
de um bom grupo do PPS, não falam de partido nem de eleição,
só em reflexão sobre um novo rumo para a esquerda.
Chomsky assina manifesto contra expulsões
no PT
Marco Aurélio Weissheimer,
Agência
Carta Maior, 3 de dezembro, 2003
O lingüista e ativista
norte-americano Noam Chomsky encabeça um abaixo-assinado organizado
pelo jornal Socialist Resistance, de Londres, contra as expulsões
de parlamentares do PT. Além de Chomsky, assinam o manifesto Kean
Loach (cineasta inglês), Michael Albert (editor da Znet),
e Robin Blackburn (da revista New Left Review), entre outros. O
abaixo-assinado é acompanhado de um manifesto em apoio à
senadora Heloísa Helena e aos deputados João Batista Araújo
(Babá), Luciana Genro e João Fontes. Os signatários
do manifesto entendem que as expulsões enviarão um sinal
à esquerda mundial de que “o PT perdeu a sua orgulhosa tradição
de democracia, de pluralismo e tolerância”. O texto do documento
é o seguinte:
“Nós o subscrevemos,
como milhões em todo o mundo, que compartilharam da alegria do povo
brasileiro ano passado, quando Lula foi eleito presidente do Brasil. Após
mais de uma década de políticas neoliberais que devastaram
os povos do mundo; após mais de quatro anos de um movimento novo,
diverso, internacional, que diz que um outro mundo é possível
- no qual Lula, o PT e os Fóruns Sociais Mundiais de Porto Alegre
desempenharam um papel crucial - parecia que finalmente haveria uma chance
de mostrar que haveria uma alternativa."
"É claro que as circunstâncias
são difíceis, o legado é pesado, e o tempo foi curto.
Mas é com uma profunda surpresa e desânimo que nós
vemos que o PT está agora considerando expulsar três de seus
membros mais destacados do Congresso, por se oporem publicamente às
reformas da Previdência do governo. Não é o nosso objetivo
aqui expressar uma opinião sobre o detalhe das políticas
do governo brasileiro. Porém, nós sabemos que a reforma da
Previdência, não somente na América Latina, mas também
aqui na Europa e em toda parte, tem sido uma questão chave que opõe
os governos neoliberais e o FMI aos movimentos organizados dos trabalhadores.
Apenas um dia depois do PT decidir iniciar o processo disciplinar contra
estes três membros da Câmara dos Deputados, milhões
de trabalhadores na França e na Áustria fizeram atos contra
a reforma da Previdência em seus países. Nós compreendemos
também que o próprio PT se opôs a reformas da Previdência
similares, quando propostas pelo governo anterior, de Fernando Henrique
Cardoso."
"Parece-nos, conseqüentemente,
muito grave que o diretório do PT esteja estudando agora a punição
drástica contra aqueles que continuam a defender as políticas
tradicionais do PT. Claro que, como falou Emir Sader, do Conselho Internacional
do Fórum Social Mundial, o governo Lula tem o direito de mudar sua
visão sobre tais questões, mas punir aqueles que não
mudaram sua opinião seria como mandar uma mensagem terrível
para o mundo. Para aqueles milhões de trabalhadores nas ruas na
França e na Áustria, e para os muitos outros milhões
que se mobilizaram contra o neoliberalismo e a guerra, isso soará
como: "desculpem, nós não nos importamos com tudo aquilo,
nós nos decidimos que realmente não há alternativa".
Isso sugerirá também que o PT perdeu a sua orgulhosa tradição
de democracia, de pluralismo e tolerância."
"Nós, portanto, conclamamos
que você repudie qualquer expulsão e reafirme o papel do PT
como uma esperança para todos nós ao redor do mundo, que
queremos trabalhar com você para realizar nosso sonho comum - de
que um outro mundo é certamente possível.”
O manifesto, em inglês
e português, e o abaixo assinado estão disponíveis
nos sites da Socialist Resistance (www.socialistresistance.net)
e do recém-criado Movimento dos Amigos de Heloísa Helena
(www.amigosdaheloisa.com.br).
A situação dos parlamentares petistas será definida
entre os dias 13 e 14 de dezembro, quando ocorre reunião do Diretório
Nacional do PT, em São Paulo.
Suplicy pede para Lula intervir na expulsão
de Heloísa Helena
Folha
Online com Agência Senado, 28 de novembro, 2003
O senador Eduardo Suplicy
(PT-SP) foi hoje à tribuna fazer um apelo para que o PT não
expulse sua colega Heloísa Helena (AL) da sigla e disse que tratou
a questão diretamente com o presidente Luiz Inácio Lula da
Silva, ontem, por telefone.
Assim como vinha anunciando
desde as discussões da proposta, a senadora contrariou a orientação
da bancada e votou contra a reforma da Previdência, aprovada em primeiro
turno no Senado.
Nesta sexta, Suplicy afirmou
no plenário do Senado que teve uma conversa com o presidente, na
qual defendeu que seria melhor para o PT "não chegar à decisão
extrema de excluir de seus quadros a senadora".
"Transmiti ao presidente
Lula que estarei observando, nos próximos dias, que melhor será
para o PT que tenhamos uma decisão com espírito de generosidade,
levando-se em conta ainda que teremos aqui aprovada a proposta da reforma
da Previdência, que suscitou todos esses debates", disse o senador.
A decisão sobre a
expulsão ou não de Helena e outros deputados federais --Babá
(PA), Luciana Genro (RS) e João Fontes (SE)-- será anunciada
nos dias 13 ou 14 de dezembro, quando haverá reunião do Diretório
Nacional da legenda.
"Ainda que possa haver alguns
erros na avaliação da senadora, como em relação
à questão dos filhos da pobreza, acho que deve ser compreendido
que ela votou por convicção no que ela tanto acreditava,
o que deve ser objeto de análise", afirmou.
Suplicy disse ainda que da
decisão do PT de fechar questão em relação
à reforma da Previdência à medida extrema da expulsão
"vai um longo caminho". |