Os espíritos do Hospício Imperial voltaram!
Estudantes defendem a independência intelectual de Maria da Conceição Tavares frente aos ataques de técnico do Banco Mundial. Os espíritos do Hospício Imperial voltaram! Manifesto de dezembro de 2003


O antigo bardo inglês disse certa vez: “andam desarticulados os tempos”. A esquerda anda desarticulada no mundo todo, particularmente na periferia do sistema capitalista internacional. Ao longo da sua luta contra as desigualdades sociais geradas pelo capitalismo em todas as suas fases – concorrencial, monopolista, tardio, “pós-fordista” –, a esquerda sofreu inúmeras derrotas, muito sangue foi derramado, mas ela sempre se levantou, como uma fênix que renasce das próprias cinzas. Assim foi e será no mundo, assim foi e será no Brasil.

A história não tem fim, a luta não terminou. A esquerda não pode olhar para trás e buscar exemplos, mas sim tirar lições do passado para construir, hoje e amanhã, um outro mundo possível, um mundo onde a lógica do social e do comum prevaleça sobre a lógica mercantil do lucro, da exploração, do dinheiro e do poder imperial.

Nós, alunos, devemos olhar com muita desconfiança quando uma vanguarda intelectual, supostamente livre de ideologias, acima dos interesses reais e mundanos da política e das classes, liderada por “mentes brilhantes e inovadoras, agéis e comunicativas”, anuncia o novo. Moleques atrevidos, sem respeito aos mestres da tradição de luta social e política da esquerda mundial e brasileira aparecem no cenário propagando o novo, sem respeitar a longa tradição crítica que tantos heróis da esquerda ajudaram a construir. 

Chegamos ao ponto em que a história se repete como farsa, em que os espíritos do hospício imperial parecem ter voltado às salas de aula do Instituto de Economia da UFRJ, que vem paulatinamente se “endireitando” aos chamados do Deus Mercado. 

No dia 01 de dezembro de 2003, o prof. André Urani, argumentando sobre o desafio inédito (sic) da redução da pobreza e desigualdade social no Brasil, taxou a professora emérita Maria da Conceição Tavares de direita. Neste ponto, lançamos a seguinte pergunta: quem é ele para dizer isto? Só porque ele tem um vasto currículo como consultor de entidades neoliberais como Banco Mundial, trabalhou como secretário do governo Conde e Cesar Maia, do PFL de Jorge Bornhausen, Hildebrando Pascoal e Antonio Carlos Magalhães, e tem livros e trabalhos financiados por grandes corporações financeiras, como Bradesco, IBM, Unisys, Bolsa de Valores do Rio de Janeiro, O Globo e Fundação Ford, se arvora o direito de roubar bandeiras históricas do pensamento progressista e taxar um ícone da esquerda brasileira de direita?

Loucura e atrevimento têm limite! Este manifesto busca dar o pontapé inicial de um processo que dê fim ao “endireitamento” do IE/UFRJ. E vamos começar pela defesa da profa Maria da Conceição Tavares, fundadora do Instituto de Economia enquanto um espaço público e democrático da esquerda brasileira e do pensamento heterodoxo progressista (cepalinos, keynesianos, schumpeterianos, marxistas), militante da democracia plena do povo brasileiro e da soberania da nação tupiniquim.

A profa Conceição Tavares foi, é e será a linha de frente da vanguarda brasileira contra o pensamento reacionário e conservador de direita que insiste em roubar bandeiras, sonhos e utopias da esquerda. Chegou a hora dos alunos se juntarem a uma das maiores militantes de esquerda que este país viu nos séculos XX e XXI, que honra a tradição de luta de mestres como Ignácio Rangel, Milton Santos, Caio Prado Junior, Florestan Fernandes. Estes são os espíritos a serem evocados para lutar ao nosso lado, não os espíritos anônimos do hospício, com seus discursos ocos, vazios e irracionalistas da direita.
 

DCE/UFRJ
Centro Acadêmico Economia - UFRJ
Revista Oikos


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