2003, numa aula de dois professores petistas
Elio Gaspari, Folha de S. Paulo, 28 de dezembro, 2003


Saiu um grande livro. Não se pode dizer que seja leitura para as férias, mas certamente é coisa que, lida nas férias, ajuda a desembaraçar cabeças perplexas com o governo do PT Federal. É "A Economia Política da Mudança - Os Desafios e os Equívocos do Início do Governo Lula". Tem 254 páginas e 14 artigos de professores, quase todos de economia, quase todos petistas.

Dois dos artigos são esplêndidos. Um é "Brasil delivery", da professora Leda Paulani, da USP. O outro é "Da campanha ao governo Lula", do professor João Machado Borges Neto, da PUC paulista, a PUC pobre. Juntos, atacam dois dogmas da ekipekonômica e do comissariado de Brasília. Um é a idéia de que a manutenção da política de FFHH salvou o Brasil do precipício. O outro dogma diz que o PT cumpre o que prometeu na campanha e, portanto, não enganou ninguém. Nas palavras de Roberto (Banco Itaú) Setubal: "Se olharmos o programa do PT, tudo que está sendo feito agora, até a austeridade fiscal, estava lá".

A professora Paulani e a teoria do precipício
Dá gosto comparar o que a professora Paulani escreveu em julho passado e o que Lula disse há poucos dias, no balanço do seu primeiro ano de governo:

Lula: "O Brasil estava em profunda crise. Uma das mais graves da história republicana. [...] No final do ano passado, o país havia perdido a estabilidade econômica. [...] Muitos acreditavam, e com fortes motivos, que o Brasil não resistiria à crise."

Paulani: "Se houve algum momento em que se pôde considerar que o Brasil estava à beira do precipício, [...] esse momento foi em meados do ano, ou seja, julho e agosto. [...] Do ponto de vista da performance futura das contas externas, em dezembro de 2002, as expectativas eram muito melhores do que as existentes, por exemplo, um ano antes."

(Ela diz e prova. No começo de 2002, as reservas internacionais estavam em US$ 36 bilhões. Fecharam o ano em US$ 37,8 bilhões. No segundo semestre, as exportações haviam crescido US$ 5,2 bilhões. O vento de popa do comércio exterior já tinha começado a soprar.)

Lula: "A inflação, que penaliza sobretudo os assalariados e os mais pobres, beirava o descontrole."

Paulani: "Vendeu-se o argumento de que as taxas de juros só poderiam baixar quando a inflação cedesse. Por trás dele, encontra-se o conservador diagnóstico de que o súbito surto de elevação de preços que o país experimentava era decorrente de inflação de demanda [o aumento de preços provocado pelo excesso de procura das mercadorias], já que só nesse caso é que uma taxa real de juros elevada pode ter algum papel para resolver o problema. [...] Como defender tão implausível diagnóstico com a economia estagnada e o desemprego batendo recordes atrás de recordes?"

Lula: "O câmbio estava sujeito a forte especulação, com nossa moeda extremamente depreciada."

Paulani, depois de lembrar que o dólar chegou a R$ 4 em setembro, mas que Lula o recebeu a R$ 3,50: "Não existia nenhum indicador de que o processo inflacionário estivesse fora de controle. [...] Era perfeitamente possível saber a extensão do estrago [provocado pela alta do dólar]. [...] Não existia, por absoluta falta de oxigênio na economia, nenhuma possibilidade de essa reconfiguração de preços transmutar-se num descontrole monetário."

Lula: "O chamado risco-país encontrava-se em patamares absurdos, afugentando os investimentos. As linhas internacionais de crédito, vitais para as exportações, estavam cortadas. Os títulos públicos brasileiros no exterior eram negociados por menos da metade de seu valor de face. Todo o cenário indicava que o Brasil poderia quebrar."

Paulani: "A redução do risco-país e a revalorização da moeda doméstica são antes perversos do que benéficos ao país. Eles podem aprofundar o verdadeiro precipício, que é social, e no qual o Brasil está metido há pelo menos uma década."

(É sempre bom lembrar que risco-país nada tem a ver com o risco de um brasileiro ficar desempregado no Brasil. Designa o risco que os maganos correm, empregados e protegidos, em Nova York, quando investem em Pindorama.)

O professor Machado e o conto do "avisei"
Em dezembro de 2001, a nação petista divulgou um documento chamado "Concepção e Diretrizes dos Programa de Governo do PT para o Brasil". Falava em "ruptura necessária" e "socialismo democrático". Em junho e julho de 2002, deu-se uma mudança. Surgiram a "Carta aos Brasileiros" e o programa "Um Brasil para Todos", no qual se falava numa "lúcida e criteriosa transição". Prenunciava um governo sem rupturas. Mesmo assim, o programa, posterior à "Carta", contraria a leitura que os doutores Setubal e Antonio Palocci fazem daquilo que o PT escrevia no ano passado. O programa de julho dizia: "O agravamento da vulnerabilidade de nossa economia não se originará da mudança do atual modelo econômico, mas sim da sua continuidade."

O PT foi à eleição falando em transição. Ao tomar posse no ministério da Fazenda, Palocci definiu "transição" associando-a ao fim "das dificuldades de curto prazo". Em abril, Palocci redefiniu o significado da palavra. Transição passou a ser "um processo de ajuste das condições macroeconômicas e a implementação de reformas estruturais". 

O ministro Palocci é um bom amigo do conselheiro Acácio e a palavra "transição" é um bálsamo de embromatina. Como tudo na vida é passageiro, menos o condutor e o motorneiro, tudo também é transitório, até o pontificado de João Paulo 2º.

Lendo-se o trabalho do professor Machado, vê-se que o caso do PT Federal não é só o de um chefe político e um grupo de dirigentes que resolveram mudar de idéias. Lula e seu aparelho passaram a combater as pessoas que pensam como eles pensaram.

Machado é um dos fundadores do PT e acha que "a esperança ainda não morreu". Ele confia mais na mobilização do povo do que na vontade dos comissários. Quanto ao prometido "espetáculo do crescimento", o professor adverte:

"As próprias projeções feitas pelos ministérios da Fazenda e do Planejamento indicam crescimento medíocre em todo o governo Lula. As projeções oficiais, feitas por exemplo na Lei de Diretrizes Orçamentárias, só indicam o crescimento do PIB acima de 4%, considerado em geral o mínimo para a redução do desemprego, no último ano de governo, em 2006."
 

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