Lula, sucessor de D. Ruth
Guilherme Fiuza, NoMínimo
10 de dezembro, 2003

Os gerentes da Ação da Cidadania, ONG responsável pela já tradicional campanha do Natal Sem Fome, informaram que as doações de alimentos atingiram apenas 15% da média dos outros anos. Em suas tentativas de entender o problema, não observaram – ou não quiseram observar – o óbvio: há um arrecadador oficial de solidariedade na praça, contra o qual é impossível concorrer. Se algum dia ficar provado que a melhor política social se faz com passagem de pires e campanha de 0800, o governo Lula estará consagrado.

O presidente tem repetido, em encontros com empresários, artistas e outros grupos, que o Estado pode menos do que parece, e a sociedade (?) pode mais do que parece. Enquanto isso, seu governo funda uma entidade chamada Apoio Fome Zero, encarregada de “atrair” doações e apoios de empresas e pessoas para o programa gerido pelo Ministério da Segurança Alimentar – carinhosamente apelidado de “Mesa”. Nunca se passou o pires com tanta elegância.

Em um dos inúmeros releases que o Mesa manda para as redações a toda hora, a imprensa é avisada de que um ciclista fará uma performance no Lago Paranoá, durante a qual serão recolhidas doações de alimentos perecíveis dos passantes. Até então, performance de ciclista nunca tinha sido tratada como política pública – mas com a etiqueta do Fome Zero tudo é possível. Agencia-se uma troca de correspondência entre uma escola do interior e outra da cidade grande (para “intercâmbio de experiência”), garimpa-se panfletos educativos com empresas privadas, concede-se à Embrapa o selo de parceira do Fome Zero (para que ela continue fazendo tudo o que já fazia, mas agora com grife), leiloa-se bugigangas de gente mais ou menos famosa. O Fome Zero é tudo. E nada.

Inicialmente acusado de assistencialista, precisando por outro lado diferenciar-se dos modelos de renda mínima, o Fome Zero resolveu ser um “articulador de iniciativas da sociedade civil”. Ou seja, passou a fazer exatamente o que a então primeira-dama Ruth Cardoso e o seu Comunidade Solidária faziam – com muito menos burocratas e dinheiro público, diga-se de passagem. Aliás, a confusão de identidade consumou-se definitivamente outro dia, quando o programa de Lula contratou a entidade de Dona Ruth para um projeto de alfabetização. Chega de intermediários.

Não é de espantar, portanto, que estejam minguando as doações para o Natal Sem Fome. O governo tomou conta do pedaço, inventando a primeira ONG estatal do Brasil. Essa organização não-governamental governamental vai acabar contratando a Ação da Cidadania, para fazer o que ela fez a vida inteira, mas agora com o carimbo do Fome Zero. Aí talvez fique tudo bem, afora a pergunta inevitável: e o que faz o governo governamental?

Em geral, o melhor que um governo tem a fazer é governar. O PT está saindo bem dessa armadilha chamada pelo mercado de “crise de expectativas”, e protagoniza a transição política mais civilizada da história do país. Agora precisaria desistir de ser essa espécie de versão chapa branca do Betinho e assumir de verdade o leme da máquina social – que é complexa, pesada, porém poderosa quando bem comandada. Ampliar o alcance do programa Bolsa Escola, por exemplo, aumentando a dotação financeira e eliminando os (muitos) desvios, já seria uma revolução. Não se inventará a roda e talvez não saia daí nenhum novo slogan “genial”, mas se radicalizará uma política que alimenta e educa o povo ao mesmo tempo. Sem precisar organizar performance de ciclista.

Depois de ficar famoso por não saber o que fazer com o cheque entregue pela modelo Gisele Bündchen para o combate à fome – talvez desconcertado por tanta beleza –, o ministro José Graziano especializou-se no ramo. Onde houver uma ponta de solidariedade – em forma contábil ou não – lá estará o onipresente pires de Graziano. Tudo isso para sustentar um punhado de “municípios do Fome Zero”, que teoricamente iriam sendo multiplicados, até o dia em que, depois de muita gorjeta de empresário bonzinho, cachê de artista engajado e campanha de 0800, a fome no Brasil tenha sido extinta. É claro que nem o José Dirceu acredita mais nessa utopia colegial, se é que um dia acreditou.

Com um pouco de sorte, o governo Lula já deve estar preparando, nos bastidores, sua verdadeira e esperada política social – quem sabe para anunciar neste Natal. Enquanto isso, poderia poupar o país das pantomimas de seus ministros, como a gincana de Ciro Gomes e Olívio Dutra na Baixada Fluminense, disputando palmo a palmo as vítimas pobres de uma enchente. O eleitorado também não sentirá a menor falta das peripécias não-governamentais do ministro Graziano. É hora de Lula decidir se é sucessor de Fernando Henrique ou de Dona Ruth.
 

fiuza@nominimo.ibest.com.br 
 
 


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