O governo Lula tem muitos problemas
Mas nada que se compare com "dívidas" e juros
Helio Fernandes, Tribuna da Imprensa, 19 de dezembro, 2003


Nenhum presidente pode governar sem prioridades. Qualquer que seja o presidente, o país ou o partido que chegar ao Poder, a primeira providência será colocar os problemas numa relação de grandeza, de importância, de realidade. Sem isso, o governo, qualquer que seja, estará condenado a esforços extraordinários, caminhando lentamente por estradas secundárias ou até marginais.

No caso do Brasil, do PT e do presidente Lula, essa prioridade é tão visível que não precisa do menor esforço para localizá-la, identificá-la, entrentá-la. Essa prioridade é conjugada, acumulada, emaranhada, se chama "dívida". E naturalmente quando se fala em "dívida" acoplada surge logo o que domina o mundo, estrangula os países, escraviza os povos: O FAMIGERADO JURO.

Muitos analistas que ficaram na História, economistas não subservientes, não imprudentes e não coniventes já definiram: O DEUS DO CAPITALISMO É O LUCRO. Já foi. Hoje, O DEUS DO CAPITALISMO É O JURO.

Tudo gira em torno do juro, a altura deste é que determina para onde os países caminharão. Para o caos, com o juro lá no alto. E conseqüentemente sem crescimento, sem emprego, sem educação, sem saúde, sem tranqüilidade, sem desenvolvimento. O juro baixo permite tudo isso, transforma os países em potência. E o Brasil, um dos raríssimos do mundo que tem território, população e todas as riquezas possíveis e imagináveis, em que altura estaria se não trabalhasse para enriquecer os outros?

Essas considerações fundamentais, isentas, irrefutáveis, incontestáveis, inquestionáveis, irrevogáveis e rigorosamente patrióticas aparecem como conseqüência da decisão do Banco Central de diminuir os juros em apenas 1%. Por favor, não falem em Copom, essa é uma sigla apenas figurativa, operativo mesmo é o Banco Central. No mês passado se esperava queda de 1%, caiu 1,5%. Agora se admitia 1,5%, caiu 1%. Nesse ritmo vão devorar o governo Lula e o próprio presidente, sem a menor consideração.

Hoje deixaremos de lado a escabrosa "dívida" externa, fiquemos apenas com a escabrosa "dívida" interna. E façamos COMPARAÇÃO sumária nas estarrecedora com as dívidas internas dos EUA e do Japão. Números, mais números, apenas números.

Dívida interna dos EUA
5 trilhões de dólares. Juros: 1% ao ano. Pagamento a ser feito anualmente pelo governo: 50 bilhões de dólares.

Dívida interna do Japão
3 trilhões de dólares. Juros: 1% ao ano. Desembolso anual do governo: 30 bilhões de dólares.

Dívida interna do Brasil
800 bilhões de reais, com 1 terço reajustável em dólar. Juros: 16,5%, agora, mas vamos fazer o cálculo como se toda a "dívida" se beneficiasse das últimas quedas dos juros. Pagamento anual a ser feito pelo governo: 128 bilhões. Não estamos levando em consideração os 33% reajustáveis em dólares, o que elevaria barbaramente o pagamento ou desembolso.

Portanto, resumindo: os EUA têm uma dívida 6 vezes maior do que a do Brasil, e pagam de juros apenas 38% do que paga o Brasil. Assim, a dívida é até administrável.

O Japão tem uma dívida 4 vezes maior do que a do Brasil, e paga de juros 4 vezes e meia menos do que o Brasil.

Concluindo: desde o primeiro dia de governo, e antes mesmo de tomar posse, Lula e todo o seu governo deveriam ter se voltado para as dívidas e os juros.

Sem contar que no Brasil as "dívidas" têm aspas e ninguém sabe onde foi investido o dinheiro. Eu sei que a comparação financeira entre Brasil, EUA e Japão é trágica e lancinante. Mas qual é a solução? Fingir que a vida é maravilhosa e que emendar a Constituição 77 vezes no ano de 2003 resolverá alguma coisa?
 

A catástrofe sem fim

160 bilhões de juros internos, e quanto dos bilhões externos?
Helio Fernandes, Tribuna da Imprensa, 27 de dezembro, 2003


Gostaríamos de terminar este ano de 2003, o primeiro de Lula, o primeiro da alternância do Poder em 214 anos de República, o primeiro em que a esperança tinha tudo para derrotar o medo, gritando de alegria, berrando de satisfação, retumbando "de quebrada em quebrada", que enfrentáramos o problema dos problemas, e começamos a marcha para o oeste da libertação.

E qual seria esse problema dos problemas? Lógico, o maior de todos, que tem nos soterrado, nos emparedado, nos seqüestrado, sem qualquer possibilidade de salvação. Temos falado tanto nisso pelo menos nos últimos 40 anos, que ninguém tem o direito ou o trabalho de perguntar qual é.

Esse terrível problema é a "DÍVIDA". Ou melhor: as "DÍVIDAS" internas e externas. Tendo começado em 1822, essa "DÍVIDA" que não contraímos, mas que nos exigem o pagamento rigoroso, teve início em 1822. Além de nos agredirem com essa "DÍVIDA", nos enganaram, mistificaram, fraudaram a convicção de que estamos Independentes. Mera ilusão. Essa era a "DÍVIDA" externa que foi crescendo a partir desse amaldiçoado e fraudulento 1822.

A "DÍVIDA" interna surgiu praticamente com FHC, constitui o que ficará conhecido na história brasileira como o retrocesso dos 80 anos em 8. Quando FHC assumiu em janeiro de 1995, "DEVÍAMOS" míseros 60 bilhões. Nos 8 anos de FHC essa "DÍVIDA" cresceu alimentada com uma espécie de Fermento Real da nossa infância, ultrapassou o razoável, o aceitável, o compreensível.

Agora, no limiar deste 2003 que não trouxe alegria, na entrada deste 2004 que é mais incógnita do que esperança, o governo Lula teve que fazer a prestação de contas, mostrar o tamanho das "DÍVIDAS" que não são dele, mas que têm que ser pagas por ele. Nem amortizar o governo Lula pôde, não há dinheiro para coisa alguma.

Números selvagens, cruéis, destruidores, apresentados pelo governo.

  • "DÍVIDA" interna: 800 bilhões.
  • Juros pagos até o final de novembro: 140 bilhões.
  • Juros previstos para dezembro: 12 bilhões.
  • Pagamentos em 2003: 152 bilhões.


***

  • "DÍVIDA" externa: 250 bilhões de dólares.
  • Juros pagos: 52 bilhões de dólares.
  • Superávit primário, ou seja, o que o governo tem que economizar e acumular para pagamentos dos juros dessa DÍVIDA QUE NÃO DEVEMOS: mais ou menos 50 bilhões de dólares.


PS - Por hoje basta isso, a exibição desses números execráveis. Puxa, o que o presidente Lula poderia fazer com 152 bilhões (internos) e mais 50 bilhões de dólares, outros 150 bilhões de reais. 300 bilhões de reais.

PS 2 - Essa seria a forma de implantar imediatamente o espetáculo do crescimento. Acabar com o desemprego, melhorar a saúde, a educação, a habitação, estimular o mercado consumidor interno, a única forma de transformar o País em potência.

PS 3 - Comece, presidente, mas não aos pouquinhos. Tem que ser um compromisso de governo e uma realização de governo.


Cidadania

Busca no site | Principal..Consciência.Net


Publicidade

.