| Impressões
do Peixe
Para o professor.
Quando
chove, também se abate sobre mim a nostalgia. Talvez
porque o cheiro de terra molhada evoque recordações rurais,
de um tempo em que íamos -meu pai e eu- pescar às margens
de um rio poluído, numa cidadezinha do interior paulista. Ficávamos
invariavelmente mudos, um ao lado do outro, com suas respectivas varas
de pesca em punho e seus mundos opostos. Meu lugar cativo era sobre um
pneu
de caminhão, que alguém colocara numa base de
cimento na beira do rio. Meu pai sentava-se um metro à direita,
numa almofada verde-escura de plástico que trazia consigo, com o
eterno cigarro semi-apagado (ou semi-aceso) pendendo num canto da boca.
Para chegarmos ao píer, tínhamos de atravessar uma estreita
e frágil ponte feita de madeira e bambu.
Quando menino, a travessia na ponte parecia não ter fim. Transpor
a ponte e chegar são e salvo ao píer era uma epopéia.
Depois, já adulto, percebi o quanto a ponte era ridícula.
Não tinha dois metros de extensão. E nunca ruiu. Deve estar
lá até hoje, carcomida pelo tempo e pelo detergente que a
multinacional do lugar deixou no rio. Na chuva, a memória
fica úmida e nos traz reminiscências ao sabor do mormaço.
É intrigante como as lembranças mais nítidas geralmente
vêm dos rincões obscuros do cérebro, fragmentos de
pequenas coisas aparentemente insignificantes no momento em que aconteceram,
mas que se instalaram como vírus em nosso código genético.
Um
vaso de flor que tínhamos
em casa, quebrado numa brincadeira de mocinho
e bandido. Eu sempre gostei
mais de ser o bandido; naturalmente acusaram a mim e não a meu primo,
quando deram pelos cacos sob o tapete. Um peixe
que fisgamos por pura sorte. Lembro de um peixe que fisguei e que dentro
desse peixe havia uma medalhinha de nossa senhora
aparecida. Guardo até hoje essa medalha, encontrada dentro
do peixe, ainda que eu seja ateu, ateuzinho da silva. Guardo, como o peixe
guardava a santa, tantas coisas absurdas dentro de mim. Guardo, hoje, uma
vontade de chorar e não ter como. Não sinto medo do futuro,
nem desejo retornar ao passado. Sinto apenas um profundo tédio do
presente e uma saudade inocente de
tudo.
Bruno Ribeiro dos Santos,
01-12-2003
Literatura | Artes
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