''O governo não pode fazer tudo
sozinho'', diz Frei Betto
Coordenador rebate críticas
ao Fome Zero, mas admite haver desinformação. Daniela Kresch,
JB,
fevereiro de 2003
Carlos Alberto Libânio
Christo, o Frei Betto, está decepcionado com as críticas
cada vez mais freqüentes ao Fome Zero, carro-chefe do governo Lula
e do qual ele é coordenador de Mobilização Social.
Ele está participando do 2º Encontro sobre Metodologias de
Avaliação de Acompanhamento das Políticas de Combate
à Pobreza - coordenado pelo Banco Mundial, em Fortaleza (CE). Ontem,
em sua primeira entrevista após o lançamento do programa,
Frei Betto disse ao Jornal do Brasil, que há má-fé
em algumas dessas críticas, apesar de admitir que existe desinformação
em relação ao Fome Zero.
Há muitas críticas
sobre a escolha dos municípios contemplados pelo Fome Zero nessa
primeira etapa.
O prédio nem começou
a ser construído e já criticam a planta, a arquitetura, a
piscina... Qualquer que fosse a escolha, haveria gritaria. O governo quer
acertar e não arriscar. Não dá para fazer em todos
os municípios. E o governo não pode fazer tudo sozinho. Nada
impede que qualquer cidade o faça. O que o governo quer é
lançar um modelo. Uma franquia. Quem quiser, siga.
Como vai ser a fiscalização
do programa, quando um município se organizar sozinho?
Vamos criar um selo de qualidade
para quem se organizar. Se destoar do modelo, não recebe o selo.
Estamos discutindo até que, em licitações públicas,
quem tiver esse selo poderá se beneficiar.
Uma das maiores críticas
ao Fome Zero é a exigência de nota fiscal às famílias.
Crítica é
que nem Papai Noel: não existe, mas
todos acreditam. O programa
não vai exigir nota fiscal. Houve uma migração de
sentido, porque pegamos essa idéia da nota de um programa implantado
num município no Mato Grosso. Mas não podemos incentivar
a sonegação. O estabelecimento que emite nota fiscal vai
ter que emiti-la como comprovação.
E os que não emitem
nota fiscal?
Quem vai fiscalizar se uma
família está comprando ou não cigarro ou bebida é
a comunidade. A família será inocente até que provem
o contrário. As experiências de microcrédito mostram
que os pobres são muito mais adimplentes que os ricos. Esse programa
é de inclusão social, não é assistencialismo.
As instituições religiosas também serão fundamentais,
pois têm mais experiência em lidar com a população
carente e o trabalho voluntário.
Como o senhor está
encarando todas essas críticas?
Há muitas que são
de má-fé. Como chamar os nomes que demos ao Conselho Operativo
do Programa Fome Zero, o Copo, de besteirol. Se chamassem conselho de gestão
de ''sei-lá-o-quê'', o povo não entenderia.
Integrantes do próprio
Conselho de Segurança Alimentar estão criticando o Fome Zero...
O D. Mauro Morelli fez críticas
antecipadas. No caso da Zilda Arns, não interpreto como críticas,
mas como observações contundentes de quem sabe do que fala.
Mas ela falou da exigência de nota fiscal sem perceber que não
vamos fazer isso.
Nas cidades do interior
do semi-árido as pessoas ouviram falar do Fome Zero?
Quem vê televisão,
já. Há muita expectativa, algumas equivocadas. Tem prefeito
achando que vai administrar as verbas do Fome Zero. Mas o dinheiro vai
direto da União para o bolso do povo.
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