Celso Athayde na Carta Capital
Rafael de Lima Caetano Costa, Araras
27 de dezembro, 2003

Há algum tempo li uma entrevista conduzida por Phydia de Athayde com uma pessoa, o Celso Athayde. Faz algum tempo que rascunhei a Carta Capital, mas o tempo passou rápido até demais, acabei não enviando. Mas acredito na boa-fé dessa publicação, que mesmo em tempos de desemprego ainda me dou o luxo de comprar, considero-a importante demais para relevá-la ao segundo plano, assim como alguns sites de notícias que gosto. Acredito no compromisso da “Carta” com o esclarecimento e a conduta responsável no que toca ao que ela notícia e de sua consciência quanto a sua condição de informador e formador de opinião.

Bom, vou ao que interessa. Como disse, li a entrevista do Celso Athayde e não pude deixar de lamentar sua linha de raciocínio. Uma linha rancorosa, raivosa e que de forma alguma deve servir de inspiração. Aliás, deve servir de inspiração para que não façamos isso. Nós que somos pobres e descendentes de africanos, jamais deveríamos de “ir buscar o que não temos” pegando em armas. É de uma infantilidade incrível pregar isso, bem como a atitude de quem canta que esse é o único caminho para isso, e que branco tem nojo da gente, etc...

Às vezes, sinto que algumas pessoas que se sentem “líder do movimento negro” carregam muita inspiração norte-americana no coração regada a vingança armada e gangsta rap, enfim, aquele estereótipo (ou realidade?!) tão bem difundido e que todos conhecemos. Nada contra, mas que tal pegarmos apenas os exemplos que demonstram que as boas coisas conseguimos buscando o entendimento, não o ódio? A essas pessoas que são “líderes” com ideologia no mínimo questionável, quero deixar quatro pontos que são opiniões minhas a respeito:
 

a) Deve-se tomar muito cuidado com o que se fala

b) Quem paga na guerra é o lado mais fraco, “belicamente falando”

c) Quem sofre na guerra é quem tem menos

d) Quem sofreu demais por todos esses anos somos nós (incluindo você, Celso)

e) Mesmo tendo consciência de que vivemos numa democracia não tão correta, quem assume o papel de “líder” de alguma coisa deve pensar muito bem sobre o que se fala, pelo simples fato de se poder influenciar pessoas de todos os tipos e formas, que tal pegar dois opostos: Gandhi e Hitler?

f) Sinceramente, não vejo sentido em descer o morro e ir buscar na força bruta o que não se possui. Quem tem o poder bélico, financeiro e econômico nas mãos são eles. Existem e ainda devemos insistir em caminhos mais inteligentes, SEM DERRAMAMENTO DE SANGUE, certo?!

g) Quando um favelado, negro pobre ou até nem pobre cai na mão de quem se sente do lado da lei e o pior, quem cria a lei, só tem a perder. Todos nós temos consciência disso, e por que a luta?

h) Impressiona e muito o fato de uma pessoa que cresceu e convive no meio dessa realidade pregar a luta, que logicamente leva a destruição e a morte, que deve ter visto o sofrimento dos pais, dos irmãos, amigos, filhos, parentes e ainda incitar a luta! Para mim, é no mínimo questionável (de novo...).


Não acho que esse seu raciocínio sirva ao Brasil, Celso. Ninguém deve morrer, se deve haver uma revolução cultural, ela deve ser feita pelo esclarecimento, pelo diálogo e pelo demonstrar que todos nós – brancos e negros - somos maiores do que essa mesquinharia que somente agrada a poucos que sabemos que fazem e o que dizem e alguns que desconhecem ambas as coisas, Celso! Se você quer agitar, provocar as pessoas provoque, mas com responsabilidade, algumas pessoas podem levar ao pé da letra, meu chapa. Tem muitas pessoas “brancas” que nos tratam tão bem quantos muitos “negros”, que conseguem uma porcaria de carro zero e uma mísera casa própria e se acham demais, pobres almas.

Vou te dar apenas um exemplo, entre milhares, mas darei esse porque vivi: os professores e o pessoal do cursinho da poli, o qual eu freqüentei e a grande maioria dos professores era de brancos e de forma alguma trataram QUALQUER pessoa que estudou comigo de maneira diferente porque fulano é nordestino, negro ou branco pobre, muito pelo contrário, na minha sala tinha uma garota NEGRA que nem grana para o ônibus ela tinha e o cursinho a bancava.

Se essa for sua linha de raciocínio (a que você apresentou na revista), eu sinto muito, mas no meu modo de ver você precisa evoluir, e muito, você está segregando ainda mais quem você pensa que protegerá ou ajudará. Mas se não for e você quer apenas provocar, seja responsável, Celso! E fique com Deus.

Coloco-me a disposição para conversar com quem quiser, concordando ou discordando.

P.S.: O que penso é em relação não somente ao Celso, mas também a qualquer pessoa ou entidade que se intitule “representante do movimento negro” ou brancos que ainda pensem dessa forma tão caricatural, no sentido de GROSSEIRO. Acho que está na hora de mudar, ou vocês conseguiram algo de muito positivo para quem vocês dizem ser representantes, hein?!
 

Rafael de Lima Caetano Costa [rafaellima23@hotmail.com]


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