Não têm palmas para o presidente
Petrônio Souza Gonçalves, 1 de novembro, 2003

Dia 27 de outubro o nosso presidente Lula fez aniversário, 58 anos. Lula, deu como presente ao povo brasileiro, um bolo. Pelo que tudo indica, o FMI assoprou a vela que era para muitos a luz no fim do túnel. E o canto de felicidade pelo aniversário do presidente não se ouviu nas ruas brasileiras, mas sim, na festa fechada pela cúpula do poder, em um banquete armado nas noites silenciosas e tristes do Planalto Central, distante do povo.

O brasileiro não pôde bater palmas para o presidente Lula nesta data, pois, desde a eleição do ex-retirante Luiz Inácio, o povo aguarda com uma profunda desesperança pela mudança que poderia acontecer na sua realidade social, na sua vida, por este novo governo. Hoje, a renda do trabalhador registra queda de 14,6%; o desemprego está aumentando em todo o país, sendo que, em São Paulo, berço do governo petista, chega a 20% da população; o país contabiliza crescimento zero; as vendas nos supermercados caíram em 10% no último mês; a produção industrial caiu 4,3%; dos R$ 400,5 bilhões do Orçamento, R$ 200 bilhões irão para os juros da dívida interna e mais R$ 100 bilhões para os juros da dívida externa. Os juros básicos da nossa economia são 19 vezes maior que os cobrados nos Estados Unidos. Com isso, a nossa dívida pública está consumindo cerca de R$ 12 bilhões por mês da nossa economia, apenas como pagamento dos juros, sem amortizar um só centavo. As tarifas telefônicas aumentaram, os planos de saúde idem, a concentração de renda aumentou e com ela a distância entre a população mais rica e a mais pobre também. Os conflitos entre os que lutam pela terra aumentaram. Hoje, são mais de 54 milhões de brasileiros vivendo com menos de R$ 3,00 ao dia, ou seja, na miséria absoluta; os índices de criminalidade aumentaram em todo país, com o medo tomando conta das nossas ruas.

Lula não foi eleito para dar continuidade ao modelo entreguista neoliberal preconizado pela era FHC. Era para ser o fim dele, com uma política voltada para o desenvolvimento nacional, com investimentos na área social, de geração de emprego, de renda, de um país mais justo. Mas não, vemos que a mudança que Lula alardeava não era no nosso plano político, mas sim, dentro dele mesmo, do seu governo, das suas propostas.

Hoje, vemos um país prostrado diante dos interesses antinacionais, com o FMI sendo o grande conselheiro do desgoverno lulista. Diante disso tudo, não podemos aplaudir e nem festejar com nosso presidente.

Depois da vitória de Lula, o povo brasileiro se vestiu de esperança, entoando em seu coração o canto verde amarelo da mudança. Agora, o povo canta para esperar, acreditando que esta realidade possa mudar e que o presidente nos dê um presente, a libertação nacional, a comunhão com os sonhos que ele plantou dentro de cada um.

Mas não, quando era para a sua estrela brilhar, iluminando e apontando um novo caminho, Lula preferiu mudar, seguindo com alguns poucos um novo rumo, um novo destino. Só agora, depois de algum tempo, é que podemos ver/entender que a festa de Lula não acontece nas ruas, e sim, em algum canto distante qualquer.

Por isso, não têm palmas para o presidente, não tem bolo, balão ou festa, só espera, para que um dia, Lula se lembre de que junto do povo era mais feliz, brasileiro, autêntico, e que toda festa era verdadeira.
 


Petrônio Souza Gonçalves é jornalista e escritor. [petros@brfree.com.br]


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