Falta sensibilidade
social ao governo Lula
Petrônio Souza Gonçalves,
14 de novembro, 2003
É
com grande perplexidade que a população brasileira assiste
a este primeiro ano do governo Lula. Se não bastasse os repetidos
deslizes, soma-se agora a isso a falta de sensibilidade político-social
do novo governo. Lula, ao que parece, esqueceu-se do mais representativo
dogma religioso: “ningúem pode servir a dois senhores ao mesmo tempo”.
E, pelo que tudo indica, Lula já escolheu a qual senhor servir.
Foi
temendo receber uma reprimenda do FMI que o presidente suspendeu o repasse
de verbas do Fundo de Desenvolvimento do Ensino Fundamental a entidades
sem fins lucrativos que atendem aos alunos - meninos e adolescentes - deficientes
físicos e excepcionais. E a justificativa do governo, por meio do
ministro Palocci, para tal medida é que o gasto adicional com os
deficientes comprometeria o ajuste fiscal determinado pelo Fundo. Uma decisão
como esta não era para o presidente Lula, para o que ele representa.
De
outro lado, da Previdência Social, que deveria zelar pelos que estão
conduzidos aos seus aposentos, o Ministro Ricardo Berzoini cometeu outra
atitude lamentável neste governo. Berzoini resolveu cobrar da parcela
que representa apenas 0,5% dos beneficiados pela Previdência, os
velhinhos com mais de 90 anos e que ganham cerca de R$350,00 mensais, imputando
a eles a culpa de serem os responsáveis pelos déficits da
Previdência.
Ora,
sabemos nós que os grandes responsáveis pelos prejuízos
da Previdência Social são as grandes empresas, os grandes
empresários que só deixam de contribuir com a Previdência
por que têm certeza da não punição por parte
do governo. Diante disso tudo, o governo Lula prefere virar as costas para
os nossos cidadões mais indefesos, quando deveriam estar eles sob
a sua égide, sob a guarda de um governo popular, voltado para resolver
as mazelas do povo brasileiro.
Em
10 meses de governo, ou 20% do seu mandato, o presidente Lula esgotou os
recursos previstos no Orçamento de 2003 para pagamento de seguro-desemprego
(R$ 5,5 bilhões), mas gastou apenas R$ 17.574 (0,01% do valor orçado)
no programa de geração de emprego e renda. Se atentarmos
para outros números, veremos que o rumo tomado pelo novo governo
passa longe das questões sociais, que tanto nortearam a campanha
do nosso atual presidente.
No
saneamento básico, que atende a parcela mais pobre da nossa população,
até agora, os gastos são constrangedores. Até o dia
31 de outubro, dos R$ 714 milhões previstos no Orçamento
dos Ministérios da Saúde e das Cidades para serem investidos,
apenas 2,7% haviam sido gastos. Na construção e ampliação
dos sistemas de coleta e tratamento de esgoto sanitário o governo
federal gastou apenas R$ 765,6 mil e, nas obras de saneamento municipal,
R$ 1,8 milhão. Os investimentos em infra-estrutura para abastecimento
de água, no Proagua, só receberam R$ 35,8 milhões
dos R$ 1,2 bilhão previstos no Orçamento de 2003.
O assentamento
de trabalhadores rurais recebeu apenas 18,9% dos R$ 901 milhões
programados para este ano. Além de só ter gastado R$ 156
milhões na aquisição de terras, o governo Lula também
gastou muito pouco na recuperação dos atuais assentamentos,
R$ 22 milhões.
Nos
transportes a realidade é a mesma. A manutenção da
malha rodoviária federal por exemplo - por onde passa o desenvolvimento
do país - deveria custar R$ 1,18 bilhão aos cofres da União
em 2003. Mas, até agora, só foram gastos R$ 109,9 milhões.
As estradas terceirizadas receberam outros R$ 22,8 milhões. Já
as obras dos corredores de desenvolvimento, as grandes rodovias, ficaram
praticamente paradas. Dos nove corredores, o que mais recursos recebeu
foi o de Tocantins-Araguaia: R$ 10,6 milhões, ou 3,33% do previsto.
Em cinco outros corredores, entre eles os Mercosul, Sudoeste, e Nordeste,
nenhum centavo foi investido até outubro.
Na
área da educação, o governo gastou 71,5% dos recursos
no desenvolvimento do ensino de graduação (R$ 6,7 bilhões
em 2003), mas investiu apenas 10,3% (R$ 9,8 milhões) no programa
de educação de qualidade para todos. Nos cursos supletivos
de educação de jovens e adultos e iniciativas semelhantes
o gasto foi de 55,8%.
O pior
é saber que faltam menos de dois meses para o ano acabar. E, ao
que tudo indica, pouca coisa vai mudar no próximo ano, já
que o Orçamento de 2004 repete o Orçamento liberal de 2003.
E a reforma Tributária, uma vez mais, depois da inconseqüente
Lei Kandir, quer retirar mais verbas destinadas aos governos municipal
e estadual para destinar a União. E, para quê?! Se até
agora a União não gastou nem a metade do que ela tinha para
gastar na área social.
Tudo
isso, como disse o ministro Palocci, não compromete o reajuste fiscal
imposto ao governo Lula, mas sim, o governo Lula, que ao invés de
mudar a nossa realidade, preferiu ser mudado por ela... Uma pena!
Petrônio
Souza Gonçalves
é jornalista e escritor. [petros@brfree.com.br]
Petrônio
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