Juventude recifense
e proletária
Paulo
Gonçalves, Nova
Democracia, outubro de 2003
| O
centro do Recife parece ferver nesse começo de verão, às
11 horas de uma quinta-feira. O sol tropical ilumina a tudo e a todos,
enquanto as pessoas trabalham com grande energia e vivacidade, fazendo
piadas entre si e enchendo de euforia todas as imediações
da Praça da Independência. Uma verdadeira multidão
já se conhece, são quase íntimos, na divisão
igualitária dos afazeres do dia-a-dia, meses e anos a fio. Na sua
maioria, são jovens que vendem, fazem entregas, transportam mercadorias,
trabalham em dezenas de atividades e cruzam a praça às carreiras,
oferecendo a força dos seus braços e sua inteligência,
a serviço do progresso. |
Projeto Avançar, parceria
entre o governo de Jarbas Vasconcelos e as fundações Roberto
Marinho e Getúlio Vargas: seis meses sem aula e 'obrigações' |
|
|
No
meio da algazarra colorida, Romildo Ferreira, 20 anos, trabalha na sua
banca, onde conserta relógios e nos fala com orgulho: “Ganho pouco,
mas é meu, e honesto. E de noite vou direto para o colégio.
Quero terminar o segundo grau e cursar Educação Física.
Meu pai me ensinou a consertar relógio, mas, depois, quero mudar
de profissão. Nas horas de lazer eu fico em casa, converso com os
vizinhos, sábado à tarde faço feira com a minha mãe,
e no domingo vou para o TIP (Terminal Integrado de Passageiros).”
Segundo
o Ministério do Trabalho e Emprego, os jovens representam 20% da
população economicamente ativa, mas significam 48% do total
de desempregados. Outra pesquisa, divulgada no mês de agosto pelo
IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas), revela
que o desemprego é maior entre os jovens com idade entre 15 anos
e 24 anos do que a média dos demais segmentos da população.
A taxa de desemprego nesta faixa etária é de 18% contra uma
média geral de 9,4%. Ou seja, o desemprego dos jovens é quase
o dobro da média da população brasileira.
A pesquisa
também mostra que o desemprego atinge de forma mais intensa os jovens
mais pobres. Entre os jovens oriundos de famílias de maior poder
aquisitivo, 77,1% eram assalariados (recebem algum tipo de remuneração)
enquanto entre os proletários o assalariamento atingia 41,4%. Do
total de assalariados mais ricos, 49% tinham carteira assinada. Entre os
mais pobres, apenas 25,7%.
Nos
dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio do IBGE, diminuiu
nos últimos dez anos o percentual de jovens na faixa de 15 a 17
anos empregados no mercado de trabalho: em 1992, 35,8% dos jovens nessa
faixa etária tinham empregos formais, enquanto no ano passado o
percentual caiu para 19,4%. Outro dado da pesquisa é que, nessa
faixa de idade, o percentual de desemprego é bem superior ao registrado
em faixa das pessoas com mais de 60 anos.1
Lazer
na rodoviária
Domingo,
14 de setembro, 16 horas, no TIP, a principal estação rodoviária
do Recife. A reportagem de AND encontrou Romildo passeando com amigos,
vizinhos e primos, em meio a outras dezenas de jovens que utilizam a rodoviária
como área de lazer nos seus fins-de-semana. “A gente fica aqui,
conversando, olhando as lojinhas da rodoviária, tomando sorvete
e vendo o pessoal chegar e sair nos ônibus. Serve para passar o tempo,
conhecer outras pessoas, e, depois, aqui pelo menos todo mundo é
igual à gente. Nos outros shoppings só tem barão,
gente endinheirada, bem vestida. Faz até vergonha ir lá”,
diz Cilene, uma amiga do relojoeiro.
“Aqui
a gente fica olhando as pessoas que chegam de São Paulo, do Rio,
e fica pensando em ir embora quando terminar os estudos. Eu pelo menos
penso”, afirma Marinalva. Mas Romildo quer ficar: “Quem está indo
para o sul retorna com menos de um ano do mesmo jeito que foi, ou pior.
Eu prefiro ficar, estudar e me formar. Aí sim, depois de formado
vou para o Rio de Janeiro, mas só pra passear, tirar férias.”
Em qualquer rua ou casa operária do Recife é fácil
encontrar jovens que foram, vieram ou ainda planejam migrar para outras
regiões do país em busca de dias melhores. O sonho de melhorar
de vida, que nas décadas de 40, 50 e 60 levou milhares de pernambucanos
a lotar navios, paus-de-arara, ônibus e caminhões, rumo ao
futuro promissor, continua valendo para muitos garotos e garotas. É
sabido que o fluxo de migrantes para o sudeste foi tão intenso naqueles
anos, que até hoje muitos bairros do Rio de Janeiro, por exemplo,
têm áreas inteiras ocupadas por nordestinos e seus descendentes.
Alguns bairros cariocas chegam a ter mais da metade dos seus moradores
composta por retirantes. Já na cidade de São Paulo, um em
cada cinco moradores nasceu no Nordeste. Há 2.047.168 migrantes
nordestinos residindo na capital paulista, segundo o IBGE.
Além
da tradição de intensa mobilidade humana — uma das principais
características desse país, formado em larga escala pelos
migrantes —, existe, principalmente, nesse processo, a fuga da pobreza,
da falta de emprego, da péssima qualidade de ensino, da ausência
de lazer e de cultura que domina a imensa maioria dos bairros proletários.
Nos quatro cantos do Recife é assim que muitos jovens vivem: sonhando
com uma vida melhor, que eles sabem existir em outro lugar, em outra cidade,
outro estado, ou país. Ao contrário do que pensa e diz o
ministro do governo PT/ FMI, José Graziano, eles querem ir para
trabalhar, estudar, progredir e crescer. Junto com o seu amado país.2
Escolas
que não ensinam
A qualidade
do ensino ministrado nas escolas públicas é outra preocupação
dos jovens proletários. Eles sentem na pele o resultado da política
de sucateamento dos educandários, em toda sua estrutura física
e pedagógica, planejada e executada em diversas instâncias
de poder, através do Ministério e das secretarias de Educação,
desde Brasília até o município.
Numa
tarde de sábado, no mês de agosto, no populoso bairro da Mangueira,
cinco jovens conversam numa pequena praça, próxima à
linha do trem, fazendo pausas obrigatórias a cada vez que o trem
passa ou quando o vento traz uma densa nuvem de poeira, vinda das ruas
esburacadas que desembocam no largo. O assunto é escola e diversão.
Perguntados sobre seu lazer, todos foram unânimes ao dizer que “não
há muito o que fazer”. Ficam por ali mesmo, na praça, conversando,
ouvindo música, ou saem em grupo quando há algum evento no
centro da cidade. “Mas isto só acontece quando conseguimos as passagens
de ida e volta, de metrô ou ônibus, o que é difícil.”
Os
cinco jovens trabalham fazendo biscates: conserto de computador, serigrafia,
bolos, doces, bordados, cortes de cabelo — “O que aparecer a gente vai
aprendendo e fazendo. Todos nós aqui temos pais desempregados, biscateiros
como nós”, afirma Diana, 21 anos. Dinheiro e roupa são preocupações
sempre citadas. “Eu deixei de ir à formatura da minha tia, que concluiu
Psicologia, porque fiquei com vergonha de usar roupa velha”, disse ela.
Em
relação à escola, todos fazem queixas, manifestam
desencanto e tristeza com a péssima qualidade do ensino. “Estou
no Projeto Avançar e faz seis meses que não tem aula. Até
deixei de ir, porque só fazia pagar passagem, agora não sei
mais quando vou conseguir terminar o segundo grau”, diz Júlia. “Eu
também não tenho aula, mas é porque a escola está
em reformas desde o começo do ano; só às vezes é
que tem aula. Os professores fazem revezamento. A Secretaria de Educação
disse que as obras terminariam em abril, mas até agora está
tudo parado. Aula de Biologia eu só tive duas ou três nesse
ano inteiro”, diz José Paulo. “Eu também estou no Avançar.
Lá na escola eles nos obrigaram a frequentar esse projeto, nos proibiram
de fazer matrícula no curso regular. Fecharam as matrículas
no primeiro ano e todo mundo foi parar na ‘tele-sala’. E, assim mesmo,
faz seis meses que não tem aula, porque não pagaram as fitas
e a escola não pode utilizá-las”, resume Alexandre.
Objeto
de muitas denúncias e alvo de investigações do
Ministério Público, o Projeto Avançar/Aceleração
do Ensino Médio é uma parceria entre o governo de Jarbas
Vasconcelos e as fundações Roberto Marinho e Getúlio
Vargas. Conhecido como ‘tele-salas’, destina-se, na teoria, a alunos que
tenham defasagem entre a série cursada e a idade, e que necessitem
“acelerar o ensino médio”. Na prática, em muitas escolas,
todos os alunos, independente de defasagem, são obrigados a abandonar
as salas regulares e se inscreverem nesses telecursos, onde todo o ensino
médio deve ser concluído em apenas 15 meses.
As
‘aulas’ resumem-se a exibição de fitas do Telecurso 2000,
produzidas e comercializadas pela Fundação Roberto Marinho
(leia-se Rede Globo de Televisão), um dos mais polêmicos e
combatidos (através de vários estudos e teses acadêmicas)
instrumentos pedagógicos do Brasil. As fitas são, em seguida,
‘analisadas’ pelos professores (um por cada sala-de-aula, responsável
por todas as matérias), que na sua maioria são contratados
temporariamente e, algumas vezes, sequer possuem licenciatura. Ademais,
a duração da jornada escolar diária nas ‘tele-salas’
é menor do que a regular. E isto quando há aula. Neste ano,
grande parte das escolas ficou sem as exibições, uma vez
que o governo de Pernambuco não pagou, no prazo acertado entre eles,
os direitos à Fundação Roberto Marinho, que vetou
as exibições. O resultado é que centenas de alunos
ficaram até sete meses sem assistir as ‘aulas’, em decorrência
desta ‘falha contratual’, numa verdadeira terra de ninguém educacional.
1
A
População Economicamente Ativa (PEA) na região metropolitana
do Recife é estimada em 1,531 milhão de pessoas. Destas,
no mês de julho, 366 mil estavam desempregadas. Entre os meses de
junho e julho, desapareceram 5 mil postos de trabalho na Região
Metropolitana do Recife, segundo o Dieese (Departamento Intersindical de
Estatísticas e Estudos Sócio-Econômicos). A indústria
de transformação eliminou 2 mil postos de trabalho; o comércio
suprimiu 2 mil empregos; o setor de serviços extinguiu mil ocupações;
a construção civil dispensou mil trabalhadores.
2
Pesquisa do IBGE mostra que há milhares de nordestinos retornando
às suas cidades de origem devido às dificuldades de encontrar
ou manter um emprego em São Paulo. No final de junho, a saída
de população de São Paulo aumentou em 36%, enquanto
a entrada de migrantes diminuiu 12%. O destino da maioria das pessoas que
deixaram as terras paulistas foi a região Nordeste. Os estados do
Ceará, Piauí e Paraíba registraram os maiores índices
de migração de retorno. Esses três estados e mais Pernambuco
e Bahia reduziram suas perdas populacionais no período entre os
censos de 1991 e 2000. Maranhão e Alagoas estão na contramão
do fluxo geral. Nos dois últimos estados, a perda de população
foi acentuada no período entre os censos. Isso mostra que a migração
continua forte nas unidades da Federação que apresentam os
mais drásticos índices sociais.
Nova
Democracia | Juventude
| Estados |
Brasil
Busca
no site | Principal.—.Consciência.Net
Publicidade
.
|