Rádio Interferência mais uma vez fechada
Marcos Oliveira, TJ.UFRJ, 15 de novembro, 2003. Desta vez foi a Anatel a tentar desligar a rádio dos estudantes da UFRJ. Universidade agora tem cinco dias para responder a autuação. Programadores ainda devem se reunir para decidir se param ou não.


A rádio Interferência, rádio livre dos estudantes da UFRJ, sofreu mais uma coação para desligar seu transmissor na tarde desta sexta-feira, dia 14 de novembro. A repressão, desta vez, foi feita pela Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações), que entregou um Auto de Infração ao diretor da Escola de Comunicação da UFRJ, José Amaral Argolo, apesar da instituição não ser responsável pela rádio.

A Interferência havia voltado a funcionar desde o dia 20 de outubro, seis meses depois de ser pressionada a parar de funcionar pela Polícia Federal. A rádio funciona sem concessão em protesto à lei de radiodifusão comunitária e à sua aplicação.

Apesar da autuação exigir o imediato desligamento da rádio, ela continuou a funcionar até o fim do dia com a sua programação normal. A Universidade agora tem cinco dias para apresentar uma defesa.

A autuação acontece a uma semana da realização do Encontro Nacional de Rádios Livres, que ocorrerá na Unicamp a partir do dia 20 – quando a Interferência completaria um mês de funcionamento desde a sua volta. No evento, está prevista a participação do Ministro da Cultura, Gilberto Gil.

A assessoria de imprensa da Anatel não se declarou em relação ao caso.

Confusão na hora de entregar a autuação
A Rádio Interferência funciona de forma completamente independente e de forma horizontal, ou seja, sem uma diretoria. Talvez por isto, os dois funcionários da Anatel tenham se mostrado confusos em relação a quem entregar a autuação nesta sexta-feira. Samuel da Rocha e Honório Olveira primeiro se dirigiram à decania do Centro de Filosofia e Ciências Humanas, que havia atendido ao agente da Polícia Federal na ação de seis meses atrás, embora não seja esta instituição responsável pelo funcionamento da rádio. Ao não encontrar a decana Suely Souza de Almeida, os funcionários se dirigiram à Escola de Comunicação, onde o diretor José Amaral Argolo assinou o Auto de Infração.

Argolo, então, encaminhou um ofício à decana pedindo que fossem tomadas providências junto às instâncias máximas da UFRJ, e comunicou o Centro Acadêmico da Escola sobre o acontecido. A Procuradoria Geral da universidade vai se reunir na segunda-feira com o reitor, Aloisio Teixeira, para discutir a atitude a ser tomada.

Auto menciona até uma acusação de “risco a vida humana”
O documento deixado pelos funcionários da Anatel é tão confuso quanto a sua entrega. Embora destine a autuação à “Rádio Interferência 91,5 FM”, nenhum dos programadores da rádio foi sequer procurado, e o seu estúdio, muito próximo da decania do Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFCH), também não recebeu a visita de Samuel e Honório.

O endereço da autuação também é impreciso. É mencionada a Avenida Pasteur, 250 – designação que abrange todo o campus da Praia Vermelha e que abriga instituições e estabelecimentos de todo tipo. Como, por exemplo, o Banco Real, tão responsável pela rádio quanto o CFCH.

O Auto justifica a ação com base em três argumentos: “risco a vida humana”, “situação prejudicial” e “uso não autorizado de radiofreqüência”. O respaldo seria o artigo 163 da lei 9.472, que trata da necessidade de outorga da Agência para funcionamento. E aí mais um problema: linhas abaixo o documento trata a Interferência como uma rádio comunitária, tipo de radiodifusão que estaria mais propriamente submetida à lei 9.612.

Rádio funciona desde 1985
A Interferência funciona como uma rádio comunitária, laboratorial e universitária. Ela é organizada majoritariamente por alunos da UFRJ, de uma forma não-hierárquica. Sua fundação remonta ao ano de 1985, mas o reconhecimento maior só veio a partir de 2001.

A rádio segue uma linha alternativa às grandes rádios comerciais, tocando músicas e estilos menos conhecidos e veiculando notícias das comunidades dos arredores. Um dos programas, o “Jornal do Bairro”, transmite notícias da região da Urca e Botafogo. Outros, por exemplo, se concentram em estilos musicais como o jazz, samba, dub, reggae. Participam da rádio também alunos do Instituto Benjamin Constant de deficientes visuais.

A Interferência voltou ao ar com o apoio de nomes de peso, como o presidente da Federação das associações de Rádios Comunitárias (FARC), Tião Santos, o deputado federal Chico Alencar, o deputado estadual Carlos Minc, o presidente da Federação Nacional dos Delegados da Polícia Federal, Armando Coelho Neto, e da representante da Amarc no Brasil, Taís Ladeira. A rádio também conta com uma carta de apoio do reitor Aloísio Teixeira.

Após a investigação da Polícia Federal em abril deste ano, a Interferência buscou um laudo técnico esclarecendo que o seu transmissor funciona de forma perfeita.

Os programadores da rádio devem se reunir em breve para decidir o futuro do projeto.

Saiba mais
Site da rádio:
www.radiolivre.org/interferencia
Contatos: radiointerferencia2003@yahoo.com.br / tjufrj@hotmail.com
[Out.] Rádio Interferência de volta ao ar, aqui
[Abril] Polícia Federal fecha rádio livre dos estudantes da UFRJ, aqui



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