Troca
de favores
Onde começa a iniciativa pública e onde termina a privada? Pelo jeito, as Organizações Globo e alguns governos andam constantemente de mãos dadas. Mas não se preocupem: estão apenas 'ficando'. Por Gustavo Barreto, 19 de novembro, 2003
"Cerca de cem jornalistas, inclusive estrangeiros, foram credenciados para acompanhar o velório e o enterro. Os jornalistas das Organizações Globo foram os únicos com acesso à área dos convidados próxima ao mausoléu. A prefeita de São Paulo, Marta Suplicy, comunicou à família do empresário que pretende rebatizar de avenida Roberto Marinho a atual avenida Água Espraiada, construída pelo ex-prefeito Maluf, na zona Sul da cidade. O prefeito do Rio, Cesar Maia, anunciou que dará o nome de Roberto Marinho à Casa da Música, um conjunto de salas para apresentações na Barra da Tijuca". O agrado não veio à toa. Na edição 256 da Época, anterior à morte do empresário Roberto Marinho, Cesar ganha capa da revista e fama de "bom administrador". A reportagem está aqui. Outros casos merecem ser citados. Durante evento ocorrido dia 9 de outubro deste ano na PUC/RJ, denominado "Mídia: O Quarto Poder", a diretora do Canal Futura, que pertence à Fundaçào Roberto Marinho, foi convidada a falar. Esse foi o título dado a Regina de Assis. Diretora do Canal Futura. Um erro que passou despercebido pela maioria - talvez até mesmo por Regina, que é diretora da Empresa Municipal de Multimeios, mais conhecida como Multirio. Sempre que Cesar Maia entra na prefeitura (esta é a segunda vez), alguns profissionais de peso da Globo ganham um emprego e têm de largar seus cargos. Será? A quem interessa essa profunda mistura entre público e privado? As despesas são certamente do público, já que a Globo já chegou a ser classificada este ano no grau D de risco, sendo E significa falência. Este é um dado público, porém não muito publicado. E os lucros, são do público? No domingo, 14 de setembro de 2003, a mesma revista Época trazia na capa da edição que circulou em São Paulo uma foto de Marta com rostinho de boneca e, logo abaixo do sorriso, a pergunta: ‘Eleições municipais: quem pode com ela?’. No mesmo dia, a revista dominical do jornal Diário de S. Paulo, também do grupo dos Marinho, trazia reportagem de 14 páginas (!) cujo título era "A prefeita vai casar". Citando Fernando de Barros e Silva, da Folha [18/09/03]: "Ao contrabandear, com ares de inocência, aflições e expectativas da noiva para o palco da política e inscrevê-las na história da campanha eleitoral, Marta está em sintonia com o novo jeito petista de governar - do qual ela, de certa forma, ainda é a vanguarda. Entre as muitas coisas que assimilou rapidamente, nada contaminou mais o PT do que a convicção de que ‘a propaganda é a alma do negócio’." A íntegra do texto e a resposta de Luis Favre, marido de Marta, estão aqui IBGE
aponta concentração da geração de mídia
No dia 4 de junho de 2003 o ministro das Comunicações, Miro Teixeira (PDT), amigo pessoal de Roberto Marinho - como ele mesmo costuma dizer - declarou à Comissão de Comunicação da Câmara que não há concentração na mídia do país (CartaCapital nº 244, pág. 32, "Tudo Como Dantes"). Pelo jeito, as Organizações Globo e alguns governos - como as prefeituras do Rio, de São Paulo e o governo federal - andam constantemente de mãos dadas. Mas não se preocupem: estão apenas 'ficando'. Prefeito com ar de mocinho
De memória fraca sofrem
não só os (e)leitores, como também os jornalistas.
Cesar Maia foi obrigado pela justiça a tomar tal medida,
caso contrário pagaria multas, relacionadas exatamente com a falta
de atenção aos menores de rua. Cito duas reportagens, uma
do Jornal do Commercio de 22 de agosto de 2003, aqui,
e outra do próprio JB (!) de 8 de setembro de 2003, aqui.
Nenhuma destas foi lembrada.
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